sexta-feira, 2 de julho de 2021

A LATA DE SEGREDOS DE MINHA AVÓ


Convivi treze anos com minha avó materna – Sá Pepa. Demorou muitos anos para eu saber que o nome dela era Josefa. Italiana, da Sardenha. Com ela aprendi a rezar o Terço. Na Salve Rainha, ela sempre engolia algumas palavras e, outras, eram em italiano. Eu gostava de rezar desta forma. Hoje, rezo da maneira certa, mas, de vez em quando...

Dormíamos vovó, minha irmã Letícia (um ano de idade, mais nova que eu) e eu, num quarto pequeno. Só cabiam as camas, um velho guarda roupa de duas portas e um criado-mudo. Tudo apertado. O criado-mudo ficava perto da cama da avó Pepa. Em cima dele, havia uma lata, dessa bem grande e retangular; porém, a tampa era redonda. Lata que vinha com bolachas de Jacarehy.

A lata era o bauzinho de segredos da minha avó. Ali, ela guardava de tudo. Ninguém podia, nem mesmo, chegar perto da lata. Nós, lá em casa, sempre respeitávamos isso. Teve dias em que eu quis abrir aquela lata e ver o que havia lá dentro. Cheguei até mesmo a pegá-la, mas ao consultar meu Anjo, veio rapidamente à resposta: ‘Ritelisa você não deve fazer isso’. Voltei a lata para o lugar dela. Obediência é questão de educação.

            Quando tínhamos visitas (o que sempre acontecia) saía da lata um presente. Vovó não se importava que nós a víssemos mexendo na lata. Não podíamos é... mexer na lata.

Um casal de mendigos, Jiló e Berinjela, passava em casa pelo menos duas vezes por semana para receber dinheiro, conversar e comer. E, da lata, vinha uma esmola. A avó entregava a nota escondida, na mão. Só ela podia fazer isso. Quando os netos chegavam... da lata saíam bolachas.

O barulho da lata sendo aberta, fuçada e tampada, ecoa até hoje dentro de mim.

            O tempo foi passando. Nós fomos envelhecendo e a lata também. Foi perdendo a tinta verde, foi enferrujando. Cada vez mais, vovó tinha de esmurrar a tampa para fechá-la.

Mesmo quando avó Pepa ficou doente (vários meses na cama), nós não mexemos na sua caixinha de segredos. Voto de obediência e de respeito.

Minha avó morreu com mais de 80 anos. Morreu em casa.  Dias depois, eu sentada ali no quarto olhava a lata. A avó Pepa se foi; a lata ficou. Peguei a lata. Segurei-a no colo por alguns minutos. Passei o dedo pela tampa enferrujada e torta. Abri...

Um cheiro forte exalou no ambiente. Cheiro de avó. Fui tirando aos poucos... bem em cima, estava meio saco de bolachas e um saquinho de pano (tipo sachê) com cravos da índia.  Depois, tirei um par de meias e um lenço de cabeça. Mais no fundo, havia um terço de caroço de azeitona, a fita do Apostolado da Oração onde pendia uma linda cruz de bronze, algumas medalhas, santinhos e muitos grampos enferrujados. Debaixo de tudo, bem no cantinho, peguei um pacotinho amarrado com um lenço de bolso. Abri o pacote. Era dinheiro. Dinheiro da época dos réis. Tão antigo e tão valioso para minha avó, seu tesouro. Jiló e Berinjela certamente não passavam ali pelo dinheiro... a conversa amiga, o prato de comida, as frutas, isso fazia a diferença.[1]

Naquela época, herdei um pacotinho dessas notas... mas meu coração ansiava mesmo é pela cruz de bronze, presa à desgastada fita vermelha do Apostolado da Oração.

                                                       

***


[1] Fragmentos: Valeparaibano, setembro de 2007.

OS ANJOS NÃO ENVELHECEM - III PARTE

                                            OS ANJOS NÃO ENVELHECEM

 
                                                                 PARTE III
                                                             Cidade de Goiás-GO



O  LUGAR DA GELADEIRA!

Foi logo depois da grande enchente na cidade de Goiás, que meu marido foi trabalhar na cidade de Faina, estado de Goiás.  Eu ainda em São José dos Campos, trabalhando com fotografia, tinha de escolher, ou ficava ou ia para o estado de Goiás. Eu fui!... com a determinação de morar na cidade de Goiás e conhecer a sinestesia vilaboense, transportada para os poemas de Cora Coralina. Eu estava desistindo da escrita e, através do incentivo de Lucimara Nascimento (editora do caderno Vale Viver), me apoiando e publicando minhas crônicas no jornal Valeparaibano, que continuei escrevendo.
Foi nessa época que entendi o ensinamento de mestre Eckhart, quando disse que gostava muito mais do desapego do que do amor, pois o que há de melhor no amor é que ele nos força a amar Deus; enquanto que o desapego força Deus a nos amar. Com o desapego eu dou espaço para que Deus entre mais intimamente em mim.
Quando fui à linda cidade de Goiás, levei comigo em um Passat velho apenas: uma dúzia de facas, de garfos e de colheres. Uma televisão à válvula, poucas roupas, minha máquina fotográfica, um antigo computador, meia dúzia de panelas, copos e pratos...  e dezenas de livros. Dei de presente meu estúdio fotográfico para o Josino e a Neusa; pois eles mereciam bem mais do que isso. Meu filho ficou morando e trabalhando em São José dos Campos. Eu e meu marido alugamos uma pequena casa, em um dos becos de Goiás.
Foi nas lojas da cidade de Goiás, com uma ajuda de custo da mineradora que compramos: uma cama de casal e colchão; duas de solteiro e colchões; um baú, uma escrivaninha, um fogão, um botijão de gás, um armário de cozinha, uma mesa e seis cadeiras; um sofá e uma poltrona; alguns desses móveis eram usados e os outros adquirimos em pequenas lojas de produtos baratos, mesmo assim... faltou comprar a geladeira. Depois que os moveis novos chegaram, eu muito satisfeita agradeci a Deus através de meu Anjo. Aproveitei e disse que precisava de uma geladeira que coubesse no orçamento e na casa (ela não era tão grande e havia limitação de espaço), tanto que a cozinha era tão grande que improvisei um jardim, com um enorme tronco retorcido, bromélias, orquídeas e vasos com plantas.

Passaram-se os dias e eu não encontrava uma geladeira boa, pois restava pouco dinheiro. Até que fui a uma loja (atrás do Banco do Brasil), que vende móveis usados, e vi uma geladeira amarela, feia, pintura gasta, com ponto de ferrugem em cima. Perguntei o preço... ainda era cara demais. Barganhei a compra e aceitaram minha oferta. Negócio feito!
No outro dia, logo de manhã, a charrete puxada por um belo cavalo levou a geladeira em casa. Os dois homens foram perguntando aonde eu queria que colocasse a geladeira. A casa tinha três níveis e, no do meio, era a copa. Pensei em colocá-la ao lado da mesa, na copa, mas não havia espaço suficiente. Não tive alternativa, apontei para a parede, que fazia divisa da cozinha com o banheiro e disse: ‘coloque-a bem ali’.
Os homens sorriam zombeteiros. Provavelmente não estavam de acordo com minha decisão. Mesmo assim, colocaram-na lá. Explicaram-me que era para eu esperar pelo menos algumas horas antes de ligá-la para que o gás estivesse estável novamente. Antes de se retirarem da cozinha, parado no degrau que dá acesso à copa, um dos homens se virou e me disse assim: ‘cuida de trocar aquela telha ali (mostrou apontando para o telhado em cima da geladeira), pois ela está quebrada’.
Imaginei a bondade de um coração, ele havia visto uma telha quebrada onde eu nem imaginava. Antes de descer todos os degraus, o homem finalizou: ‘olha aí em cima da geladeira, aquela ferrugem é dessa goteira! Esta geladeira eu comprei do antigo morador desta casa...’; saiu rindo enquanto eu subia em uma cadeira, olhava a ferrugem e a telha quebrada.

DICA: Quando pedir algo com a ajuda de seu Anjo, fique aberto à surpresa... sempre existe a possibilidade do inusitado acontecer.

       CASA COM ENTERRO DE OURO!

A casa era na esquina entre dois becos, atrás do chafariz, muito confortável e arejada, não tinha forro, o que ajudava a suportar o calor. Porém, tive problemas demais com meus amigos joseenses que iam visitar-me e tinham muitos pesadelos, logo no primeiro dia em que dormiam em um dos quartos... amanheciam com as malas prontas, do lado de fora da casa. Sentados na calçada, prontos para ir embora, diziam que uma pessoa aparecia no ‘sonho’ deles dizendo para irem embora dali. E, por mais que eu insistisse para que ficassem, eles iam embora. Eu, também, sonhava com essa pessoa, ela sempre me dizia que havia um pote de ouro enterrado na casa. Então, pedi ajuda ao meu Anjo, ele me disse para orar pela alma dessa pessoa que tinha morado naquela casa, fiquei a par do nome. Orei e mandei celebrar 30 missas em intenção à alma dessa pessoa, conforme me instruiu o Anjo; e os sonhos cessaram. A respeito do ouro eu não me interessei pelo assunto!
O que me apavorou mesmo, na casa... foram os escorpiões. Eram tantos que, certo dia, para eu chegar ao banheiro tive de matar 75 deles na parede da cozinha. Nas roupas que eu tirava do armário havia ninhos de escorpiões e nos calçados, também. Foi quando eu pedi ao meu Anjo da guarda para me ajudar; eu precisava me mudar daquela casa.
‘Você sabe que casa quer?’ A pergunta me pegou de surpresa, pois geralmente quem fazia as perguntas era eu. Dessa vez foi meu Anjo quem questionou. Bem, se era para sonhar... resolvi sonhar alto (esse foi um ensinamento que meu Anjo me passou ao longo dos anos). Se eu não sabia passei a saber... de imediato. Peguei uma branca folha de sulfite e nela desenhei o que eu queria, rabisquei uma casa ímpar (com um diferencial) e os detalhes de minha satisfação. Tudo o que não tinha na casa onde eu morava eu coloquei em sonhos no papel: uma enorme área verde (pois naquela casa não havia um cantinho sequer onde eu pudesse plantar), uma garagem (nosso carro dormia na rua por falta de garagem), vários quartos (na casa atual eu tinha apenas dois quartos), uma área externa para receber os amigos e até um lugar onde eu pudesse armar uma piscina de plástico para poder me refrescar do calor vilaboense. Ao terminar o desenho eu o coloquei junto à Bíblia e anunciei: ‘Pronto meu Anjo, aí está à casa que eu quero’.
No outro dia, logo cedo, ouço batidas na porta de casa. Meu marido tinha acabado de sair para o trabalho em Faina; pensei que fosse ele voltando, pois ainda não tinha uma cópia da chave da porta da sala. Destravei a porta e um homem, de olhos azuis, grisalho, me perguntou pelo meu marido. Eu respondi que meu marido não estava em casa. O homem me disse que estava vindo pelo beco, ao lado da casa, e encontrou a identificação de trabalho de meu marido.
Mostrou-me o crachá.
Depois de feitas as apresentações (ele se chamava Rogério), ele me perguntou se eu estava gostando da cidade. Eu disse que muito, mas que eu pretendia morar em outra casa. Ele me disse que tinha uma casa para alugar e se eu podia vê-la. Perguntei se era muito longe, pois já me afeiçoara com aquela parte da cidade, atrás do belo chafariz; queria morar ali perto mesmo. Ele sorriu e me disse que era só atravessarmos a rua. Era mesmo... fomos até lá!
A casa era linda, maravilhosa, tão grande que meus móveis ficariam escondidos, tão linda que fiquei sem palavras. Tinha duas garagens enormes (em cada uma dava para colocar um trator); quatro quartos sendo um deles enorme suíte (com guarda-roupa embutido na parede); um grande banheiro e outro de empregada; duas salas, sendo que uma delas era tão grande que se eu quisesse podia andar de bicicleta lá dentro; um escritório junto à varanda; uma área externa para receber amigos perto da cozinha com vista para o parreiral; uma cozinha gigante; um terraço onde o ponto focal era uma árvore de guatambú; uma linda piscina com direito à cascata, com acesso exclusivo pela escada que vinha da varanda e mais um quarto na parte debaixo, onde havia uma enorme pedra que completava o ambiente (a casa era construída em cima de uma enorme pedreira). E ainda havia uma casa de caseiro, onde morava o Mané sorveteiro.
Vi tudo aquilo e logo percebi que o preço seria exorbitante. Então, Rogério me perguntou se eu havia gostado da casa, eu disse que sim, mas que provavelmente não poderia pagar o aluguel de uma casa como aquela. Daí ele me disse assim: ‘A senhora paga o mesmo que está pagando na casa onde mora agora... e pronto!’
Lembrei-me na hora de agradecer ao meu Anjo, meus olhos se encheram de lágrimas quando senti uma brisa leve passar por mim. Senti que era importante, para meu Anjo, que eu me mudasse para aquela casa. Dali a três dias, eu e meu marido nos mudamos para essa linda casa[1].  
Foto:  a casa à direita de quem olha de frente é a primeira em que morei, do outro lado da rua, à esquerda, o muro e portão são da segunda casa onde morei.


                                          Foto: vista da segunda casa, piscina, jardim, pomar...

DICA: Ao desenhar um desejo para seu Anjo, ultrapasse o limite racional da sobrevivência humana, lembre-se que o amor não tem limites. Se é para o bem... acontecerá.

        ALMEJADA PEDRA VILABOENSE!

Minha fixação por pedras já me levou a fazer loucuras. Durante viagens com amigos gritar: ‘Parem o carro!’ Eles paravam assustados. Eu abria a porta e desesperada saía correndo, voltando com minha colheita... uma pedra. Por isso, quando vou viajar com pessoas que ainda não me conhecem bem, eu levo um livro ou uma revista, desvio minha atenção para a leitura.
       Em Goiás procurei uma pedra. Uma em especial. Tinha de ser a que eu queria. Eu que já me via como uma especialista em pedra tinha de farejar aquela. Sabe... aquela que a gente almeja cada dia mais?! Eu esperava encontrá-la e, cada dia mais, o sonho da pedra... virava pó.
Durante um mês eu procurei a almejada pedra. Ela tinha de ser grande, robusta, ter uma base triangular, ser bem rústica, sem interferência humana; de cor clara e principalmente... eu tinha de achá-la.
Passou-se um tempo, eu já tinha perdido as esperanças. Apelei, fui para as casas especializadas em pedras. E nada... nem lá eu encontrei a tal pedra. Quando voltei, entrei no quarto, suspirei e, com muita calma, conversei com meu Anjo e mostrei a ele como era a almejada pedra. Na minha cabeça era tão fácil ver a pedra; tão nítida. Ainda mais que o motivo era nobre... ser berço para São Francisco de Assis (uma imagem de cerâmica queimada).
Os dias foram se passando e a pedra não aparecia, por todos os lugares onde eu passava, dirigia, visitava; eu procurava a pedra. Até que, certo dia, eu desisti de procurá-la; mudei meu foco. Falei para o meu Anjo: ‘Pode deixar, eu vou colocar a imagem de São Francisco em um pedaço de madeira, num tronco bonito, bem rústico, com casca... aposto que vai ficar lindo!’
Fui para a madeireira na beira da estrada, à procura de um lindo pedaço de madeira. Achei uma tora de pau-Brasil de um vermelho intenso; igual eu queria, com casqueiro, toda rústica. Aplainaram um lado para que eu pudesse colocar o santo.
Pronto!... tudo no carro, ajeitadinho. Procurei um jeito mais fácil de sair dali, choveu muito e era lama para todo lado, resolvi dar a volta por detrás da madeireira. Foi quando eu vi, bem atrás do barracão, uma pedra enorme, linda, triangular, robusta, enfim... era ela; a mesma que eu sonhava encontrar, há mais de um mês.
Não deu outra, parei o carro, desci e corri para perguntar:
_ Ei moço, essa pedra é de alguém? – perguntei emocionada.
_ Não senhora, ela está aí há muito tempo. Caiu da pedreira logo ali atrás.  E aí ficou... – respondeu mostrando desinteresse à pedra.
Sem receio, fui logo querendo:
_ Posso levá-la para mim?
_ Sim, é um favor que nos faz! – disse sorrindo.
Foi assim que consegui a tão sonhada pedra. Três homens a colocaram no carro e outros três a tiraram dali.
O melhor foi que a imagem de São Francisco coube certinha nela; agradeci meu Anjo. Ainda hoje quando olho a pedra, parece-me que a imagem foi feita para aquele lugar, parece que foi planejada. Vai ver que foi mesmo.
Em Goiás, a pedra ficava no quintal junto com outras pedras, vasos, ninhos e gaiolas de bambu (sem pássaros é claro, aves... só as que estão livres). Todo fim de tarde havia um ritual, a Bolinha (sempre coloquei esse nome em minhas cadelas), o gato Nilsen, as duas galinhas d’angolas, o galo, a galinha garnisé e os lagartos, compareciam diante da imagem de São Francisco de Assis e, ali ficavam, até o sol se por. O galo era muito exibido e gostava de ficar em cima da pedra, como se fosse um chefe. Por muitos anos, acompanhei esse ritual feito pelos meus bichinhos de estimação.  
As pedras precisam de nossas mãos para voar daqui para lá e... de cá para lá. A não ser, é claro!... que caia de uma pedreira! Bendita pedreira! Quem será que derrubou, apenas, aquela pedra de lá de cima?!
Na verdade, quando procuramos algo é porque ele existe. A vontade é a mola propulsora para a realização. 




DICA: Não desista do que pretende ter se for algo que enaltece o ser humano, pode demorar um tempo, você pode até mudar de opinião, mas... seu Anjo não muda, jamais.

        RADARZINHO... O ANJO DE CORA!

Minha pesquisa a respeito da vida e obra de Cora Coralina me levou a vasculhar, na cidade de Goiás, os arquivos da diocese, dos museus e particulares... dos meus amigos.
Certa vez, eu desejei ter em mãos pelo menos um livro primeira edição, escrito por Cora Coralina. Orei em minha capela (sim, eu fiz do escritório uma capela) pedindo ao meu Anjo da Guarda que me desse entendimento, que me ajudasse a conseguir o que eu queria ou me tirasse àquela vontade do coração.
Ainda naquele dia, eu tive a certeza de que deveria ir aos sebos, em Goiânia. Um chofer ‘Goiânia Urgente’ (táxi que leva e traz cliente de Goiás a Goiânia) me ligou e me perguntou se eu não sabia de alguém que queria ir a Goiânia na quinta-feira, pois tinha um lugar sobrando. Era minha confirmação. Precisamos ser sutis para entender esses sinais do Anjo da Guarda, eu sempre tive um olhar diferenciado para entender esses pequenos tesouros (na minha fragilidade eu não iria, pois era um gasto a mais no orçamento apertado).
        Na quinta-feira, às 5h da manhã, em um táxi ‘Goiânia Urgente’ fui à procura de um sonho. O chofer do táxi me aconselhou a procurar o livro nos sebos da Rua Quatro.  Passei o dia inteiro nessa garimpagem. Na primeira loja que eu entrei, procurei na estante: Literatura Goiana. 

Achei um livro, segunda edição, Poemas dos Becos de Goiás e Histórias Mais. Abri-o e as duas primeiras páginas estavam coladas. Olhei na contraluz e meu coração disparou – era a letra de Cora Coralina. ‘Mas... por que as páginas coladas?’ Só fui entender alguns anos mais tarde.



Feliz e com uma vontade enorme de desgrudar as páginas, olhei mais uma vez tentando me certificar que era mesma a letra de Cora. Suspirei fundo, reservei o livro e agradeci meu Anjo. Continuei a minha procura. Fui de estante em estande ainda procurando. Até que vou até uma pilha de livros que ainda não estão catalogados, mexi nela e encontrei uma primeira edição de Vintém de Cobre. Meu coração voltou a acelerar e ao abrir o livro vi a letrinha de Cora Coralina. Tremida, com poucas palavras, ofereceu e assinou, com o registro da data: 15/08/1983. 



Comprei os dois livros por apenas vinte reais. Era a quantia que eu tinha na carteira.
Saí do Sebo Feirão do Livro cantando e dançando, igual uma criança que ganhava um doce.
Passei o dia inteiro na Rua Quatro.  A rua é imensa, são vários quarteirões com lojas de sebo dos dois lados. Estava tão feliz que nada mais poderia ser ruim. Caminhando no sentido à Avenida Paranaíba, encontrei a capela de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa, Reitoria Nossa Senhora das Graças; entrei, ajoelhei-me e pedi ao meu Anjo que agradecesse a Deus pelo dom da vida de Cora Coralina, pelos registros biográficos que ela nos deixou como legado de paz e bem. Senti muita alegria. Quando o agradecimento é pleno, traz a satisfação imediata e nos abrimos para as dádivas divinas.
Voltei de ‘Goiânia Urgente’, segurando a sacolinha com os dois livros perto do coração.
Devorei em apenas dois dias o livro Vintém de Cobre – Meias confissões de Aninha e as palavras saciaram minha fome do saber coralineano. Foi com enorme alegria que li no poema ‘Cigarra cantadeira e formiga diligente’ a respeito da ajuda de Radarzinho, sempre atento ao tacho de doce, não deixando as abelhas pousarem; apagando o fogo; maneira toda dele de ajudar a doceira Coralina... ‘Meu Anjo da Guarda, Radarzinho’ (Coralina, 40). Ela conversava com seu Anjo e o chamava pelo nome.
Pedi ao meu Anjo entrar em contato com Radarzinho e, através dele, apresentar a Cora Coralina a minha estima por ela e alinhavar nossas vidas com fio de amizade. E, também, pedir a bênção de Deus para nós. Uma das maiores lições que meu Anjo me passou é a de que, nem todos se definem dentro de uma religião; porém, a religiosidade é um elemento que dá estrutura para a existência humana.
 

DICA: Crie um canal de amizade entre seu Anjo e o Anjo de uma pessoa que você muito admira, mesmo que essa pessoa esteja falecida. 
       COM O VINTÉM NA MÃO!

Minha amiga do coração, Paula Inêz, passou alguns dias comigo em Goiás, quando eu ainda morava na primeira casa, onde ela viu aqueles ‘fenômenos’ interessantes e não se amedrontou, ficou uma semana. Depois de alguns meses, ela voltou para conhecer a minha nova moradia, a casa do outro lado do beco. Ela nem bem chegou e eu a levei ao Museu Casa de Cora Coralina.
Paula sempre soube de minha admiração pela poetisa maior de Goiás. Declamei para minha amiga, alguns poemas de Cora, os quais eu tinha mais afinidade (hoje, tenho afinidade por todos), ainda mais os de Meu Livro de Cordel.  Expliquei para ela que eu estava, também decorando poemas do livro Vintém de Cobre – Meias Confissões de Aninha’, divaguei a respeito do subtítulo. Qual seria a razão das ‘meias confissões’? Por que não inteiras?
 Andamos pela casa, depois fomos ao quintal e ficamos sentadas em uma mureta. Ali eu expliquei para a Paula o quanto eu gosto de Cora Coralina e que o livro ‘Vintém de Cobre abrange a fase lúdica de Aninha, a menina feia da Ponte da Lapa, máscara lírica de Cora Coralina’. Depois ficamos em silêncio. Um silêncio estranho... parecia que o mundo estava parado, que as árvores não mais cresciam, que os pássaros desistiam de voar, que o rio Vermelho havia estancado suas águas e que o vento tinha sido tragado por um imenso buraco. Silêncio bom de sentir, exortação à plenitude divina.
Eu estava munida de uma máquina fotográfica profissional, mexi nela para quebrar o silêncio. O jardineiro passou varrendo bem onde estávamos sentadas. Levantamos o pé para dar espaço para ele varrer. Aproveitei e tirei uma foto dele varrendo, quando já estava mais longe.
Assim que voltei o olhar para o chão, grudado no meu pé direito, em cima da sandália, vi o que parecia impossível... uma enorme moeda. Sim; jamais em meus sonhos mais impossíveis eu pensei em ter um vintém igual aquele.  Minha reação foi agir com prudência, relaxei minha mente e me coloquei à disposição do bem. O mundo pareceu que parou por alguns instantes; eu estava em um misto de euforia e de paz; todos meus cinco sentidos pareciam desligados, eu não ouvia, não tinha olfato, nem paladar, não sentia o tato e só enxergava a moeda no meu pé. Esse estado de dormência física deu lugar ao crescimento de minha parte espiritual, pareceu-me que precisava disso para decidir o que ia fazer... Então, de repente, sem medo de que ele caísse do meu pé, em câmera lenta, abaixei-me e colhi a moeda em minhas mãos; meus sentidos voltaram potencializados, eu suspirei. Paula, que tudo via, ficou de queixo caído. Ela ria e não sabia o que falar. Senti uma brisa suave, como se o mundo voltasse a existir e a natureza dissesse: Amém!
Em casa, com o vintém na mão, abri o livro Vintém de Cobre e li: ‘Sentir a presença daquele vintém/ pobre da minha infância, tão procurado, tão escasso!...’ (Coralina, 29) foi uma das mais lindas sensações que já experimentei. Aos poucos fui me acalmando, respirei fundo, não queria chorar, não precisava chorar!
Voltei meu olhar para aquele vintém, na palma de minha mão, senti o peso da moeda, passei os dedos pelo gasto número 40; então não consegui mais conter a emoção... chorei! Lembrei-me que, um dia antes, eu havia lido o poema ‘O Cântico de Aninha’ onde a Menina Feia da Ponte da Lapa, Aninha, descreveu a emoção de segurar um vintém: ‘Vintém de Cobre... / Antigos vinténs escuros. (...) / Ainda o vejo, / Ainda o sinto, / Ainda o tenho, / na mão fechada./  (...) Quarenta vintém derréis...’ (Coralina, 19-20). Era muita emoção para meu coração. Agradeci ao meu Anjo, beijei o vintém e o guardei no oratório, ao lado da imagem de Nossa Senhora das Graças.
Minha amiga não questionou o aparecimento do vintém, assim do nada. Ela preferiu ficar calada. Dentro da nossa religiosidade sabemos distinguir uma dádiva divina sem questionar os limites de nossa espiritualidade, sem duvidar e, muito menos, procurar uma resposta fora da nossa religião. A resposta que temos preenche todos os espaços... mesmo que antes vazios; pois através da oração o preenchemos com certezas.
       Conheço meu Anjo e sei que a bondade dele supera minhas expectativas de amor. Aliás, temo não saber amá-lo como ele merece, por isso, todos os dias eu agradeço a Deus por me dar como protetor, um Anjo tão amável. Foi com esses pensamentos que fui à capela, peguei o vintém no oratório e, deitada no chão, com o vintém na mão, fiquei em um misto de alegria e tristeza.
Depois me levantei e peguei o livro Vintém de Cobre, novamente abri na página 29 e li outra parte do poema Moinho do Tempo: ‘Me faltando sempre o vintém da infância. Bem por isso / mandei fazer um broche de um vintém de cobre / (...)’. Então, enquanto minha amiga descansava em casa, fui ao ourives, perto da farmácia, e mandei fazer um broche com aquele vintém de cobre.
Ao ler o poema Meu vintém perdido, eu compreendi algumas artimanhas de meu Anjo. Cora escreveu: ‘Meu vintém perdido, meu vintém de felicidade’ (...) / Quando eu morrer, não morrerei de tudo, / Estarei sempre nas páginas deste livro (...)’ (Coralina, 45).  Eu quis tanto conhecer Cora; orei tanto por ela, mandei celebrar centenas de missas pela sua alma; briguei por ela com pessoas que a maldiziam e criei inimizade por isso. Mas, também adquiri muitos amigos na cidade de Goiás, pessoas que amam Coralina. Aprendi que, para conhecê-la bem, basta-nos ler seus poemas. Essa leitura já preenche nossa alma de paz.
No outro dia, fui buscar o broche e preguei-o do lado esquerdo da minha roupa, bem perto do coração. Uma homenagem à menina Coralina; um agradecimento ao meu Anjo da Guarda.
Santa Maria Madalena de Pazzi conversava com seu Anjo da Guarda e, com 16 anos de idade, entrou para a ordem Carmelita Nossa Senhora dos Anjos, em Florença - Itália. Ela deixou escrito no livro Contemplações: ‘Oh! Se a criatura conhecesse esse amor intenso dos Anjos!(...) Esse amor torna a alma sábia e prudente’ (Jovanovic, 188). A prudência consiste em deixar-se levar pelo primeiro amor, acreditar no bem; não se deixar levar pelos pensamentos secundários, que nos tiram a paz, que nos dão medo. O amor jamais nos trará receio de agir. 


 

DICA: Seja sempre prudente ao se deparar com uma situação inusitada; coloque-se a dispor do BEM. Repita mentalmente que seu Anjo está no controle da situação e seja categórica em dizer que é abençoada por Deus Pai, Filho e Espírito Santo. 

         PARA VIVER O HESICASMO!

Em 2003, na cidade de Goiás, me interessei pelo Hesicasmo. Nessa época, eu até me achava meio esquisita, por conta de conversar tanto com meu Anjo da Guarda, por depositar minha vida diária sob sua guarda. Esquisita porque quando eu questionava os amigos se eles conversavam com o Anjo da Guarda, sempre me olhavam desconfiados como se isso fosse assunto de criança que precisa se agarrar a algo para sentir-se segura. Daí, eu me calava e dessa forma fui me fechando em concha que guarda um tesouro, uma pérola, das mais belas.
Porém, hoje eu tenho a certeza de que todas as conchas nesse mar de humanos têm pérolas guardadas, mas nem todas se abrem para apreciar essa convivência. Jovanovic ao pesquisar durante anos a respeito das visões angélicas, registrou em seu livro Relatos sobre a existência dos Anjos da Guarda, que ficou surpreso ao ver a onipresença dos Anjos na nossa vida, mesmo que sequer demos conta realmente da presença deles. Na verdade, muitos neutralizam a visão da pérola, outros sabem que ela existe, mas a deixam de lado, poucos a usam como um tesouro. Minha esquisitice fica por conta de gostar tanto da solidão.
Lá em Goiás, eu sentia que me agarrara demais ao meu Anjo e às vezes parecia que eu falava demais com ele, aparentando que não tinha Fé, e isso me magoava porque sentia que meu Anjo se distanciava, ou melhor, na verdade... ele se calava. Eu tinha necessidade de uma oração constante com meu Anjo, porém, sabia que haveria um jeito de aprender a orar de uma forma harmônica, onde todo meu ser era uma oração constante a Deus. Desejei isso, sem nem mesmo saber que existia um jeito. Meu desejo foi satisfeito em três dias. 
Minha amiga Benedita me emprestou o livro Terapeutas do Deserto e, logo após a leitura, fui convidada pela amiga Vânia a participar de uma palestra proferida por Jean-Yves Leloup na UNIPAZ, em Goiânia, onde fiquei a par do Hesicasmo. Adquiri o livro: Escritos sobre o Hesicasmo – Uma tradição contemplativa esquecida, e me preparei para a leitura.
Sim, conversei com meu Anjo a respeito e ele disse para eu me preparar. O que foi essa preparação? Procurar no calendário o maior número de dias em que eu pudesse me dedicar a esse início da prática do hesicasmo, sem interrupção de viagem ou até mesmo sem sair de casa. Confessar-me, ir à missa e comungar, até que eu me encontrasse em um estado de paz absoluta.
Preparei-me como quem vai subir uma montanha sagrada, e tem que dominar-se dos atrativos dos campos e dos rios. Fiquei em paz.
A primeira providência foi trancar o portão, que sempre estava aberto aos amigos e conhecidos. Precisava de silêncio. Desliguei a televisão da tomada e o rádio na cozinha.
Comecei a leitura.  
Fiz de minha casa meu Monte Athos e, aprendi com o padre Serafim, todas as etapas de uma Contemplação Milenar. Para os exercícios diários eu desligava até o telefone. A sincronicidade entre minha respiração e a oração Kyrie Eleison foi tão grande que tinha momentos que eu não sabia se estava ainda nessa Terra.  
Logo após conhecer e fazer uso da Practiké (método espiritual que visa purificar a parte apaixonada de nossa alma), aos poucos eu fui purificando minha alma.
Esse método me levou ao conhecimento profundo da minha verdadeira natureza... o Amor de Deus.  Foi necessário purificar meus pensamentos e acabar com tudo o que me dividia: os traumas, os medos, as desconfianças, a raiva, enfim...  o que despedaçava meu espírito, o que corroía minha alma, o que era porta aberta para a entrada do inimigo, aliás, a palavra ‘diábolos’ quer dizer divisão. Passei alguns dias discernindo o que era obstáculo para meu autoconhecimento, porque era necessário que eu encontrasse a minha verdade absoluta, só assim  o Espírito, a Força Criadora, poderia agir.
O primeiro passo foi me reconhecer como filha querida por Deus. Descobri que a Imagem de Deus refletida em mim, nunca foi perdida, é pura Luz. Não queria mais deixá-la escondida embaixo da mesa. Ela nasceu na minha alma e eu a ofereci apenas o abrigo de um esconderijo; por receio de olhares furtivos, por medo de não saber lidar com ela. Era hora de colocá-la em destaque, no centro da minha alma.
Depois, analisei todos os vícios capitais: a gula, a avareza, a luxúria, a cólera, a vanglória, o orgulho e a inveja; e medi quais eram as proporções que esses vícios atuavam em minha mente, mesmo quando não verbalizados ou atuados, simplesmente quando apareciam em meu pensamento. Fiz um propósito de não mais deixar que eles agissem em mim, nem mesmo no pensamento.
Conversei com meu Anjo, precisava de ajuda. O que parecia algo fácil tornou-se terrível. Cada vez que eu tentava me esquivar de um pensamento vicioso, mais ele me perseguia, parecia que ele se escondia e de repente, assim do nada, quando eu menos esperava o pensamento aparecia com força. Comecei com um processo de desânimo.
Depois de três dias com os mesmos sintomas, eu pedi que meu Anjo interviesse por mim. Engraçado foi pedir para que Ele agisse em meu pensamento, e o mais difícil, foi a resposta: ‘Você tem de aprender aos poucos, eliminar por você mesma, não sou um mágico que tira suas sensações humanas, sou seu protetor e seu guia. Leia o livro’.
Foi ao mesmo tempo decepção e alegria. Decepção, porque seria fácil se meu Anjo pudesse me ajudar a passar essa fase do aprendizado, eliminando meus pensamentos ruins. Alegria, ao entender que seria mais prazeroso passar pelo processo por meu próprio empenho, e mais alegre fiquei quando, o Anjo finalizou: ‘Você consegue!’  Essa frase mudou minha perspectiva que, antes parecia de afundar-me em traumas; passei a viver em completa harmonia comigo mesma.
Presenteei-me com uma entrega total em ver e em ouvir (sem falar) o meu mundo interior. O silêncio de Deus impregnou-se em mim. A cada dia ficava quieta em casa, sem me importar com o mundo; eu era o NADA, precisava me alinhar com o Universo Divino- o TUDO.  Meu marido saía de madrugada e voltava à noite. Eu tive tempo suficiente para esse deserto.
Foi depois dessa luta e dessa vitória, que percebi que meu Anjo podia sim ter feito essa tal ‘mágica’, pude ouvir o som de um sorriso sincero quando eu consegui passar pelas sete purificações em meus pensamentos, como se o Anjo também estivesse passando por um teste e havia conseguido sua Vitória.  Por isso, eu não mais questionei a esse respeito, nem a ele e muito menos me questionei. Entendi e segui em frente.
Eu estava preparada para começar a prática da oração do coração. Mesmo assim a prudência se fez presente e esperei até o outro dia, eu precisava me confessar primeiro. Havia mexido em uma água que estava antes parada; estagnada era totalmente limpa, clara, inodora. Mas, ao chacoalhá-la, tirá-la do processo de decantação, todo lodo que tinha embaixo foi subindo aos poucos e tornou a água turva, cheirando a barro. Agora precisava filtrá-la. Esse filtro se chama ‘confissão’... o perdão.
          O grande aprendizado que tive nesse tempo de imersão ao meu self, foi o entendimento de que, mesmo que tudo parecesse limpo, havia lodo escondido nos lugares menos improváveis de minha alma. E o outro aprendizado, foi ao questionar ao meu Anjo a respeito de minha confissão, pedi para que me escutasse e perdoasse meus pecados; ele foi categórico ao me dizer que ‘jamais poderia fazer isso, nem ele ou qualquer outro Anjo’[1] tem permissão para perdoar os pecados dos humanos.

DICA: O aprendizado que temos com nosso Anjo da Guarda é tão forte que basta-nos uma vez só ele nos ensinar, ficará marcado em nossa alma... para sempre.
        PADRE PEDRO NA CAPELA!

Depois de quase quinze dias em reclusão em casa, desci o morro; fui à diocese de Goiás e perguntei para meu amigo Sérgio Praia, onde eu poderia encontrar um padre àquela hora da manhã, para me atender em confissão. A resposta veio rápida: ‘Padre Pedro está na capela aqui da Diocese, vá até lá, conversa com ele’.
Já tinha ouvido falar a respeito do padre Pedro, monge que morava no Mosteiro da Anunciação... era só o que eu sabia, nunca o tinha visto.  
Fui à capela e encontrei um homem de estatura baixa, encurvado, um pouco corcunda, careca, vestindo hábito de frei, em adoração diante do Santíssimo. De repente ele se virou e sorriu para mim. Eu, também sorri e perguntei se ele podia me atender em confissão.
E foi ali, naquela bela capela, na diocese de Goiás, que padre Pedro me olhou fundo nos olhos e depois de me confessar, disse que, o que eu procurava estava dentro de meu coração, precisava aprender a oração do ‘Peregrino Russo’, repetir o Kyrie Eleison tantas vezes que minha respiração seria a própria oração. Impôs as mãos em minha cabeça e fez uma oração em Latim. Fiquei extasiada porque na confissão e na conversa que tivemos, eu não disse que conhecia ou que procurava a prática do hesicasmo e da oração contemplativa.
Eu olhei para ele e não entendi quem estava diante de meus olhos. Seria meu Anjo em forma de Frei? Seria um santo esse padre Pedro?  Não tive condições de perguntar. Na verdade eu não quis perguntar, porque sendo qual fosse a resposta, nada tiraria de meu coração aquela sensação de caminho certo, de conquista, de paz.
Voltei para casa com tamanha alegria, fui para minha capela e fiquei sentada no chão repetindo o Kyrie Eleison.  
Entrar no ritmo de Deus exige paciência. Foi minha primeira batalha... aguentar o silêncio de Deus. Aprendi que a gente não pode ‘fazer’ o silêncio, pelo simples fato dele já existir. Procurava a santidade e sei que, na etimologia hebraica, santo quer dizer: ‘aquele que se comporta de outra maneira; como eu fazia aqueles dias, minha principal vitória foi a de me equilibrar na oração perene: o Kyrie Eleison (Senhor Piedade); procurava minha aphateia, meu estado de pureza.
Foram dias, semanas e meses. Até que um certo dia, minha respiração despertou em Kyrie Eleison, fluiu normalmente, sem forçar, sem impor. Não sei e não posso explicar, creio que cada um cria uma singular identidade meditativa. O que antes eu achava que já era o encontro de minha oração interior, não passava de simples farfalhar de uma árvore seca. Até que aquele dia, eu consegui ouvir o inaudível.
Ouvir o rio que passa; os pássaros nas árvores, os galhos ao vento, a abelha procurando néctar... é fácil. Difícil é ouvir a brisa da manhã, a nuvem ligeira, a folha que cai e o desabrochar de um botão. Para isso, precisamos silenciar a alma. Precisamos interagir com o Universo. Construir um mundo fora de nós é simples. Difícil é viver cinco minutos que seja no nosso mundo interior e ouvir a nossa música mais secreta.
Para que isso aconteça, precisamos do silêncio além do corpo, necessitamos do silêncio no espírito. E, quando finalmente eu consegui, encontrei um enorme nada, um vazio sem volta, um poço de Luz. Meus pensamentos eram pequenos demais para a grandeza daquele espaço, meus desejos desapareceram como se fossem apenas vistos pela capacidade humana, eram pequenos demais perante o meu universo interior. Abri a porta para deixar que Deus sonhasse através de minha vida. Sei que Deus não precisa sonhar, porque Ele já tem tudo; por isso deixar que ele sonhe por nós é apenas um jeito de dizer: ‘aceito o que vier de Deus, pois será maior do que minha alma.’ Quando eu deixei de sonhar por mim, livrei-me de minhas limitações humanas, fechei essa janela e escancarei a porta da divindade que mora em meu coração[2]





DICA: Para momentos de disciplina interior, use o recurso auditivo, escute pelo menos durante uma hora por dia, o Kyrie Eleison musicado e, se puder, faça isso à noite, antes de dormir.   
 

       O NOME DE MEU ANJO!

Nesse tempo de abandono ao Kyrie Eleison, desenvolvi um sentido maior de percepção e em um momento de total entrega, de mergulho no vazio, sentada no chão, na capela, em minha casa, eu ouvi nitidamente o meu Anjo me apresentar pelo seu nome. Foi uma alegria sem igual. Eu havia feito esse pedido há pelo menos 23 anos e, jamais... cobrei uma resposta. O ensinamento de que tudo tem um tempo debaixo do céu, sempre me remete à verdade de que ‘ainda estou na Terra’ e, por isso, devo ter calma. O nome de meu Anjo é muito diferente de todos os nomes de Anjos que eu conhecia;  até então, eu jamais havia encontrado nome semelhante, difícil até de pronunciar.
Meu coração quase me levou para a outra vida, na ganância de viver tranquila para sempre, as batidas descompassadas me entorpeceram os sentidos, nada mais eu via, nem escutava, muito menos tocava. O primeiro instante foi de euforia. Com muita regra e respiração certa eu voltei ao normal. Respirei fundo e agradeci ao meu Anjo por ter-me dado essa revelação. Escrevi o nome dele na minha Bíblia e desde então eu o chamo pelo nome.
Diante da Santíssima Trindade, de Nossa Senhora da Imaculada Conceição; dos meus santos prediletos, dos que me são prediletos e ainda não foram santificados; dos nove coros dos Anjos; de São Miguel Arcanjo, de São Gabriel e de São Rafael; eu sempre me prostro e agradeço por ter um Anjo da Guarda tão carinhoso, compreensível, severo, alegre, cuidadoso, zelador e piedoso. Sei que meu Anjo intervém a meu favor e usa de todos os santos métodos para justificar minhas faltas, para revogar meus erros, para conseguir auxílios às minhas necessidades e para levar o incenso de minhas preces ao Criador.
Antigamente, quando eu precisava demais que uma prece minha fosse atendida, eu o clamava e pedia para que meu Anjo ficasse diante da Santíssima Trindade intercedendo por mim, até que meu pedido fosse atendido. Hoje, eu sou mais ponderada, nem sempre o que eu peço é o melhor para minha salvação; por isso, antes de fazer um pedido a Deus, eu peço ao meu Anjo discernimento e sabedoria para formular minha oração. E quando ele se cala, eu percebo que preciso de tempo.
Às vezes é preciso renovar meu compromisso feito no santo batismo, orar o Credo; outras vezes eu necessito de orar o Exorcismo escrito pelo Papa Leão XIII e fazer uso da água benta exorcizada, aspergi-la em cada cômodo da casa, do carro, nos membros da minha família e em mim. Tive combates terríveis com os maus espíritos, sofri muito, fiquei muito machucada espiritualmente e fisicamente, porém os aprendizados foram grandes.   
Aquele aprendizado de que, para que exista um milagre devemos encher os potes com água limpa e cristalina, é um dos pontos que mais me ajuda. Jesus podia fazer o milagre, seria fácil para Ele encher os potes com vinho bom, mesmo que os potes estivessem vazios; porém Ele pediu para que, primeiro, os potes fossem abastecidos com água. A água de nosso batismo é o que temos para manter os potes sempre cheios e, através delas, mesmo que não seja a hora, Jesus fará o Milagre. 
DICA: Pelo menos uma vez por mês, renove a água de seu batismo; faça a oração de renúncia ao pecado, ao mau; confirme a sua crença à Santíssima Trindade, reze do Credo; prometa viver como autêntico cristão; acenda uma vela para seu Anjo da Guarda e asperge água exorcizada em você e familiares presentes; pelos cômodos de sua casa; nos seus carros, motos, bicicletas. Peça para seu Anjo lhe mostrar onde mais precisa aspergir a água, sempre é o primeiro lugar que vier a sua mente. Não duvide.

       EM BUSCA DA JUSTIÇA!

Na cidade de Goiás eu continuava fotografando casamentos, formaturas e festividades de fim de ano. Conseguia, com isso, economizar uma certa quantia de dinheiro. Eu orava para Santo Padre Pio, todos os dias, para me dar discernimento a respeito de como fazer justiça a respeito do apartamento que compramos e pagamos com tanta honestidade.
Depois de mais de um ano orando nesse intento, no dia 27 de novembro, ao sair  da Missa, na catedral de Santana, cidade de Goiás, parei à porta para distribuir medalhas de Nossa Senhora das Graças. Quando eu estava entregando a última medalha, uma menina me cutucou e me entregou um chaveiro contendo apenas uma chave; ela me disse:
- Toma esta chave, ela estava embaixo de seus pés... só pode ser sua!
Ela me entregou e saiu correndo. Olhei para o chaveiro e quase chorei. Ergui os olhos à procura da menina e ela havia desaparecido.
O chaveiro era igualzinho ao que eu perdi alguns anos atrás, em São José dos Campos, quando eu fazia um trabalho fotográfico. Um chaveiro muito raro. Eu sabia que era vendido somente em Roma (meu marido o havia trazido na época em que trabalhou na Europa). O chaveiro é uma grande medalha onde, de um lado, está a figura do Vaticano e, do outro lado, existe a imagem do Papa Paulo II; ambos os lados em alto relevo. A única diferença daquele chaveiro para o que eu perdi é que aquele já estava bem gasto, foi muito manuseado.
Ao receber aquele raro chaveiro eu voltei para dentro da igreja e, diante do Santíssimo, questionei meu Anjo da Guarda; pedi discernimento a respeito do acontecido.
Com clareza me veio à mensagem de contratar um advogado e entrar na justiça requerendo a posse do apartamento que compramos e pagamos fielmente. ‘Era tempo da justiça humana’. Eu tremi diante dessa mensagem, pois estava muito machucada com tantos dissabores e ainda tinha o agravante de não ter condições monetárias para pagar advogado.
O tremor logo passou, quando me veio à frase: ‘Acredite e aja!’ Olhei o chaveiro em minhas mãos. Eu quase entrei em euforia, me controlei, respirei fundo, precisava-me reconectar à oração do Kyrie Eleison. Fiquei mais algum tempo diante do Santíssimo, orando.
 Voltei para casa em paz... essa paz é bem diferente; talvez não exista um nome certo no dicionário para este estado de espírito, onde a alma fica em harmonia com o coração, no mesmo compasso, na mesma mansidão.
Ao chegar em casa, falei com meu marido e resolvemos agir. Conversamos com o doutor Alexandre, amigo que havia se formado há poucos anos em advocacia. Ele nos conhecia há alguns anos, sabia a veracidade dos fatos e tínhamos como provar a compra do apartamento. Ele nos fez uma boa proposta de pagamento de honorários e assinamos um contrato. Agradeci meu Anjo e pedi para que ele interviesse para que fosse feita a justiça humana. 



DICA: Continue com suas orações de Kyrie Eleison, procure um lugar à natureza onde possa meditar essa oração através de sua respiração. Peça ajuda ao seu Anjo.

       ESTAR NO PRESENTE!

Em Goiás, existem latas iguais àquelas que minha avó tinha no quarto. O mesmo tamanho (quadrada e alta), a mesma tampa (grande e redonda). A única diferença é que as de hoje são galvanizadas, não enferrujam. Ensaiei várias vezes comprar uma delas. Peguei-as, abri-as, fechei-as várias vezes. Sempre desisti.
A que eu tenho na memória preenche todos os espaços. Não há lugar para outra. Ela é enorme, verde e enferrujada. Nela eu guardo todos os livros que li, todos presentes que recebi... O cheiro da terra molhada pela chuva de primavera; todas as fotos que não cliquei; todas as pedras que, mesmo belas, deixei pelo caminho; todas as aves amigas; o som do riacho. Momentos registrados na memória. O não palpável, guardados na minha lata de segredos. Hoje, pego meu pacotinho de notas - meus contos, minhas vivências e transformo-os em livros. Reparto meu tesouro com as pessoas, para que ele não desvalorize com o tempo. Para que não seja um talento enterrado. Lata cheia é bênção – como nas bodas de Caná... para haver o milagre foi preciso encher os potes.
       O melhor foi quando de férias, saí da cidade de Goiás e fui visitar meus pais em Santa Rita do Sapucaí; recebi de minha mãe um presente... a pesada Cruz de bronze que pertenceu a minha avó e esteve guardada na lata velha da avó Pepa.
       Sorri para meu Anjo, um desejo de pré-adolescente, de uma Ritelisa de apenas 13 anos de idade, se concretizou em uma Cruz de bronze. Ele não havia se esquecido. Eu, sempre que posso, uso a fita com essa medalha. Quando a recebi, incentivei os amigos do grupo de oração, para reativamos o Apostolado da Oração que, há anos, estava extinto na cidade de Goiás. 

O Apostolado foi reativado e fiz questão de confeccionar a bandeira, diferente, inventei um enorme coração vermelho, acolchoado; antes de fechá-lo, em oração com meu Anjo, na capela de casa, escrevi em um papel branco o nome de todos os componentes do Apostolado de Oração da Cidade de Goiás e o coloquei dentro desse coração acolchoado; depois eu o fechei e o preguei no centro da bandeira. Ela até hoje é usada nas missas, festas e encontros do Apostolado da Oração, na cidade de Goiás. Foi o meu presente para os amigos do Apostolado.
       Rômulo Candido escreveu: ‘Dizem os psicólogos que não basta dar um presente. Você precisa estar no presente. Deus, certamente, conhece as leis da Psicologia’.[3]
DICA: O melhor presente para quem se ama é fazer o presente e colocar-se em oração junto com seu Anjo. Ao confeccionar o presente, peça ao seu Anjo que entre em contato com o Anjo da pessoa que vai receber o presente, criando um elo de paz entre vocês.

          UMA CASINHA MAIS NO ALTO!

Depois de quase um ano de atividades espirituais dentro da linha do hesicasmo, resolvi conversar com padre Pedro. Nessa época, eu estava ciente da biografia de Pedro de Recroix: nascido nas matas dos Pirineus franceses, na década de 50 do século passado; veio para o Brasil em 1961. Encontrou seu canto e recanto na cidade de Goiás, ajudou a construir o Mosteiro da Anunciação do Senhor. Na verdade, essa formalidade não significava nada para ele. O que mais me impressionou ao ler a biografia dele, é que ele era adepto ao hesicasmo, por isso, vivia isolado, em uma casinha no alto de um pequeno morro, no mosteiro, entre as árvores e que não recebia visitas nessa casa.  
Fui ao Mosteiro à sua procura. Ele me recebeu e me atendeu em seu atelier. Padre Pedro tinha o dom artístico do entalhe. Conversamos um pouco, ou melhor... pouco!... ele não era de muitas palavras, preferia o olhar. Ele sorria e me ouvia, quase não falava. Eu já sabia que isso condizia com os hesicastas. Não me importei.
Ao me acompanhar até o portão, no caminho, pegou uma das folhas no chão, olhou-a, me disse que a vida só tem sentido, quando somos folha, passamos pelas estações do nascimento, juventude, maturidade e velhice. Que ao chegarmos ao outono, devemos cair suavemente, aproveitando a brisa, dando adeus à árvore; ao chegar ao solo, em pleno inverno, adubaremos o solo, para que possam germinar as sementes. Lembro-me bem, que naquela época, entendi todo ensinamento.
Outra passagem importante de padre Pedro em minha vida foi quando eu e Ana Paula, fomos chamadas para orar por uma mulher que estava entrevada, na cama. Fomos. Chegamos a casa e ela estava sozinha; a porta aberta, entramos no quarto, arejado, com duas enormes janelas que davam para a rua. Era uma mulher já de idade avançada, deitada, dormindo. Aproveitamos que ela dormia e começamos a rezar. Rezamos o Pai Nosso, três Ave-Marias, o Credo; quando começamos a oração de São Miguel Arcanjo a mulher acordou, passamos para a oração de São Bento e a mulher começou a gritar. Ela gritava e xingava nomes feios; de repente o transformador de luz, que ficava no poste na entrada da casa, estourou; olhamos pela janela e vimos as faíscas e o fogo.
Para nosso espanto, Padre Pedro ia passando pela rua e escutou os gritos da mulher. Ele entrou no quarto, a mulher pulava na cama; ele colocou a mão na testa dela e começou a orar em latim. Ela foi se acalmando e a gente, também. Ela voltou a dormir. Saímos de lá na ponta dos pés, sem fazer barulho. Padre Pedro nos repreendeu dizendo que ao sairmos para orar aos doentes devíamos, sempre, termos a companhia de um padre. Desse dia em diante, aonde íamos orar levávamos um padre conosco.[4]
DICA: Sempre que for orar por outra pessoa,  jamais vá sozinho, convida um amigo religioso e, também, leva junto um religioso consagrado. Não pense que porque conhece seu Anjo e conversa com ele, você tem poderes sobrenaturais. Aliás, conversar com o Anjo é o dom mais natural que recebemos quando nascemos, o triste é quando algumas pessoas não levam adiante esse dom.

          BAEPENDI VAI ATÉ  GOIÁS!

Na cidade de Goiás eu divulguei minha devoção à Nhá Chica, bem antes dela ser beatificada. Meus amigos ficaram fascinados pela vida da Santinha de Baependi. Eu era a única, na cidade de Goiás, a falar a respeito dela.
Com o passar dos meses, falando tanto sobre a santinha, nasceu em meu coração um enorme desejo dos meus amigos terem medalhas, imagens e estampas de Nhá Chica. Todo desejo para o bem é convertido em prece ao Anjo da Guarda, que a eleva até Deus. Essa é uma verdade que aprendi ao longo dos anos.
Um mês depois desse desejo, meu marido chegou do trabalho dizendo que o novo geólogo contratado pela mineradora era da cidade de Baependi. Recebi a notícia com grande alegria. Convidei o recém-contratado, José Augusto, para falar a respeito de Nhá Chica para nosso grupo de oração. Finalmente, eu teria uma ajuda para falar da Santinha de Baependi.
Marcamos o encontro na casa da Cristina e, José Augusto falou para o grupo de oração Santo Padre Pio e para o Apostolado da Oração. Disse que dali a um mês iria a Baependi buscar a família e a mudança; traria para o grupo medalhas e estampas de Nhá Chica.
‘Alguns dias depois dessa palestra, indo à Baependi para a formatura do filho e levar os familiares definitivamente para a cidade de Goiás, José Augusto sofreu um acidente onde ele e outros membros da família faleceram’(Seda, 349). Levei a notícia ao grupo que ficou horrorizado. Oramos pelas almas de todos os falecidos. Pedimos a intercessão de Nhá Chica por eles.
Dali alguns dias me entregaram, por meio da mineradora, uma caixa onde constava meu nome. Disseram-me que estava nos pertences da mudança da família do José Augusto. Abri a caixa, nela continha uma grande quantidade de estampas, relíquias e medalhas de Nhá Chica. 
Distribui quase todo conteúdo para o meu grupo de oração, fiquei apenas com uma medalha, uma estampa e uma relíquia.  

DICA: Ao se deparar com um triste acontecimento faça uma prece para seu Anjo lhe ajudar a entender o episódio; depois peça para ele que leve até Deus sua oração de aceitação.

       EM PLENA ORAÇÃO!

Todos os dias minha respiração era Kyrie Eleison. Lia O Peregrino Russo (a série verdinha), compreendi todo trajeto da alma até o Criador. De vez em quando, eu encontrava o padre Pedro na Missa ou no asilo, aonde eu ia às sextas-feiras, orar com as internas e passar esmalte nas unhas delas. Padre Pedro não me dizia mais nada a respeito do hesicasmo, apenas me olhava como quem sonda um poço fundo de onde está brotando água nova. Sentia que eu saciava a sede do olhar dele, como se me dissesse: ‘Eu sei o que está fazendo e pensando... continue’.
Eu passei a rezar continuamente, a me libertar dos problemas inerentes ao mundo, almejava sempre o amor, fiz um propósito de sempre desejar e conseguir a paz.
Certo fim de semana, meu marido me convidou para pescarmos. Fomos para bem longe, já perto do Mato Grosso, em Aruanã. Enquanto ele arrumava os apetrechos eu andava pela margem do rio olhando as pedras. Distanciei-me, pois queria ficar no meu canto, orando com o coração, na companhia de meu Anjo. Fiquei um tempo olhando o rio, ouvindo os pássaros e passando a mão nas pedras. Até que encontrei uma linda e grande pedra, em forma de um coração. Sorri e agradeci meu Anjo, peguei a pedra e a guardei no carro.
Durante a semana eu arrumei um casqueiro de árvore pau-Brasil e preguei a pedra nele, pintei-a de vermelho e escrevi na madeira ‘Kyrie Eleison’. Entronizei minha obra de oração embaixo da árvore guatambu, que ficava no pátio em frente a casa. Embaixo da janela do meu quarto. 


Todas as manhãs eu acordava com os passarinhos cantando junto a essa placa. Como se estivessem em plena oração. 

DICA: Faça um passeio em meio à natureza, escolha um lugar especial, onde possa deitar-se ou sentar-se no chão, fechar os olhos e orar. Peça ao seu Anjo que se faça presente e ajude você a encontrar algo que possa usar como uma lembrança à oração, em agradecimento a Deus pelo dom da vida. Depois, abra os olhos, levante-se e procure. Ao encontrar esse elemento, tenha certeza de que ele não fará falta ao lugar de onde o vai tirar, leve-o para sua casa e o coloque em local de destaque. 

        VIVER DA MISERICÓRDIA!

Dia de pescaria, domingo, saímos cedo; eu e meu marido fomos desbravar o cerrado. Tempo de seca, fazia mais de cinco meses que não chovia. Fomos otimistas... ‘têm peixes’. Depois de cinquenta quilômetros de asfalto, entramos num trecho de terra. Pó, muito pó! Porteiras para abrir?... só doze! Eu abria a porteira e voltava para o carro cuspindo tijolo.
Levamos de tudo. Os apetrechos de pesca, água, suco, bolachas, frutas e máquina fotográfica. Chegando lá, meu marido se acomodou na beira do barranco. Aprontava a parafernália de sempre: vara, anzol, molinete, chumbada e isca. Ele tem uma técnica, algo só dele. Deixei-o arrumando tudo e fui passear pelo rio. O sapato não me deixava escorregar nas pedras. Com água até o joelho fui para o centro do riacho. Caminhei pelas pedras e saudei a presença de meu Anjo.   
   
A água limpa me deixava ver as cores e os formatos das pedras. As folhas eram levadas pela suave correnteza. Eu andava devagar. Às vezes mudava minha direção só para não interferir na natureza, não quebrava galhos e nem catava algo só para olhar e jogar fora. As árvores do cerrado têm copas baixas, conforme o lugar eu tinha de me abaixar para passar.
Continuei minha trajetória. Distanciei-me – e muito!... de meu marido. Queria gritar para ele, dizer que ali tinha muitos peixes. Mas, o silêncio era divino. Não poderia macular aquele silêncio com um sussurro, ainda mais com um grito. Andei mais alguns metros...  Parei perto de uma grande pedra, bem no centro do leito. Fechei os olhos. Respirei fundo. A quietude e o frescor agasalhavam minha alma. Pedi para meu Anjo orar comigo.
Comecei a louvar a Deus por eu estar ali, naquele lugar. Agradeci pela água, pelas árvores, pelos peixes, pelas pedras, pelas borboletas, pelas libélulas... e assim fui falando. Depois me aquietei. Relaxei a mente. Deixei-me absorver de quietude. O silêncio invadiu minha alma. Minha alma conquistou a natureza. Afinei-me com a sinergia do universo. Fiquei leve.
Até que abri os olhos... Vi um lindo pássaro empoleirado na árvore bem acima de mim. Falei com ele: ‘Passarinho você é feliz, vive aqui neste pedaço de paraíso. Mora nas alturas. Tem plumas para lhe aquecer no frio e o proteger na chuva. Faz seu ninho no galho mais alto. Tem o céu como telhado. Comida? Ah!... isso tem de montão. E, companhia?!... já vi que não lhe falta, não!  Seu trinado é um louvor a Deus. Você é humilde. Vive da misericórdia divina e nada lhe falta. Você confia no Pai’.
Enquanto eu falava vários pássaros foram aparecendo, de todos os cantos; pássaros pretos com bico vermelho, pássaros com plumagens variadas, azul, amarela, verde, vermelha e branca. Beija-flores pairavam no ar e centenas de borboletas, de todas as cores, pousavam na areia e nas pedras. Fiquei inebriada. Fiz o possível para não quebrar o encanto. Calei-me. Coração disparado.
Plena contemplação, parecia que eu estava fora do mundo. Fiquei um bom tempo parada. Não queria sair dali. Depois me senti uma intrusa... pequena demais para tanto encantamento. Como se eu tivesse arrombado uma sala secreta e invadido um lugar santo. Resolvi voltar. Virei-me e devagar comecei meu retorno... dava um passo e logo depois parava. Tentava não fazer barulho. A cada passo, o pássaro pulava para um galho mais perto. E assim retornei, com o pássaro junto; de pulo em pulo ele voltou comigo.
Dei o passo para a realidade, abanei a mão para meu marido, afinal eu tinha desaparecido por mais de hora (parecia uma eternidade). Nisso me lembrei da máquina fotográfica; hora de fotografar o pássaro. Olhei para o galho acima... e depois para todo lado... o pássaro saiu voando. Voltou para o encantamento.
A fotografia ficou registrada na minha caixa da memória (fetiche, onde encontro meus tesouros). Cenas que precisam ser revividas diariamente. Meu tesouro é essa caixa; onde um pássaro canta para mim o sermão das criaturas.
DICA: Não existem momentos comuns, todos eles são significantes, basta estar com os olhos da alma bem abertos para ver além do natural. O Anjo sempre ensina que é preciso estar no momento, ser consciente e, através dessa consciência encontraremos o Universo dentro de nós. Faça o teste e aventure-se em ser feliz.

 NAS GRUTAS DA SERRA DOURADA!

       Época da seca, Benedita me convidou para ir acampar na Serra Dourada. Aceitei o desafio. Só entendi que era mesmo um grande desafio, quando o caminhão onde estávamos parou e tivemos que atravessar o rio a pé e levarmos nossas mochilas, panelas e suprimentos alimentares, nos braços e nas costas. Chegando ao acampamento, fiz o ‘Nome do Pai’ e tentei disfarçar. Só havia uma palhoça coberta de sapê...
       O fogão era de terra socada, por cima uma grelha. A mesa, uma tábua apoiada em dois tocos. Quatro troncos erguiam uma tábua onde um colchão de capim servia de cama. Havia três camas. Eu logo de cara escolhi a do meio. Ficaria mais protegida, já que as únicas armas que tínhamos eram o velho facão do seu Zito e o meu canivete. Minha amiga pediu para eu mudar de cama com ela, ela estava com medo de ficar do lado da lona. Trocamos de lugar. Parecia que ia chover. Antes de escurecer totalmente fui tomar banho. Onde? No riacho, é claro. Voltei, janta pronta; no fogão, arroz, feijão e carne moída.
       Fui me arrumar para dormir, nem lamparina, nem vela, nem lanterna, nem lua. A escuridão era total. Tentei fazer um travesseiro com minha mala. Agasalhei-me bem e deitei-me no colchão de capim. Dormir que é bom... nada. Trovões sacudiam a noite, relâmpagos davam fagulha de claridade. De repente, a tempestade começou. Parecia que o vento ia nos arrastar dali. Pelo menos a lona parecia aguentar a tempestade. Entre um relâmpago e outro, eu vi minha amiga sentada na cama do meio, encolhida, segurando o terço, águas caíam feito cascata no pé da sua cama. Passamos o resto da noite orando, enquanto que o casal dormia abraçado, roncando.
       Na manhã seguinte escutamos: Se quiserem explorar o lugar o melhor é ir cedinho. Mal sabiam eles que nós não conseguimos dormir. Vesti calça comprida, meia, tênis, camiseta, camisa de manga longa e chapéu de abas. Ah!... não esqueci da minha máquina. Sueli, mulher do Zito, criada ali nas redondezas, estava de chinelo de dedo, bermuda e camiseta cavada. Os mosquitos nem zum para ela, todos queriam meu sangue’. [1]
       Algum bicho entrou no acampamento à noite e comeu toda carne, a panela estava no chão. Fomos andar pela mata; caminhamos muito! Eu sempre com a máquina fotográfica pendurada no pescoço, ela já pesava quase uma tonelada de tão cansada que eu fiquei. Até que encontramos resquício de um cemitério. Fotografei. Depois começamos a descer pelo leito do rio que tinha pouca água. Íamos, Dita, seu Zito, Sueli e eu, ouvindo o barulho do vento nas árvores; então, notei que o silêncio imperou, nem vento havia, porém em um arbusto de folhas largas e compridas apenas uma folha mexeu. Achei estranho. Orei ao meu Anjo.
       Nisso eu havia chegado a uma gruta à margem do rio. Meu Anjo me disse para orar pela pessoa que ia sempre ali. Comecei a orar em voz alta. Dita se aproximou ao me ver orando. Eu pedi que ela orasse, também. Ela me perguntou a razão, eu expliquei que não sabia por quem era, mas que devíamos orar por alguém que sempre ia àquela gruta. Dita se assustou e correu até Sueli. Conversaram e, logo depois, ficaram quietas. Cheguei perto e começamos a descer o leito do rio. Era final de tarde e logo ficaria escuro.
       O silêncio imperou novamente. Tudo quieto, nem o zumbido de abelha maculava o silêncio. Queixaram que tudo estava silencioso demais... Eu nem liguei, gosto do silêncio!
       Eu era a última da fila indiana, foi quando seu Zito veio ao meu encontro e me disse íamos caminhar pelo meio do cerrado, tivemos de nos agachar. Quase me arrastando pelo chão, protegi minha máquina com uma mão enquanto procurava me proteger com a outra. Eu, curiosa como só, olhei para trás e vi, ao longe, uma onça na espreita. Eu queria prender a respiração, queria correr; ao mesmo tempo queria abrir um buraco e me esconder no chão.  Pensei que havia chegado minha hora, pedi ajuda para meu Anjo. Acalmei-me e segui caminho me arrastando, sem fazer barulho.
       Ao chegarmos ao acampamento, o comentário foi que as onças naquele lugar estavam acostumadas com o ser humano; por isso, elas ficam na redondeza. Provavelmente, foi uma delas quem comeu a carne em cima do fogão.  Só de pensar que a onça estava ali perto, eu tremi. E, com o tremor, veio à febre... eu precisava de médico.
       Descemos o chapadão da Serra Dourada e eu fiquei sob os cuidados de amigos em uma fazenda em Mossâmedes. Até que voltamos à linda cidade de Goiás.
       Dali alguns dias, Sueli e Dita foram até minha casa. Mostraram-me uma série de fotografias de um jovem muito bonito em várias grutas na Serra Dourada, inclusive naquela em que eu parei e orei. Disseram-me que aquela era uma das grutas preferidas dele. Ele amava aquele lugar. Antes de falecer disse que ia voltar a morar onde mais gostava... a gruta na Serra Dourada.



DICA: Ao se lembrar de um lugar querido por um ente falecido, vá até lá e peça para seu Anjo da Guarda falar com o Anjo da pessoa falecida para levar uma oração a Deus pela alma dessa pessoa. Louve e agradeça a Deus pelos momentos em que passaram juntos. 



       A PAZ QUE VEM DO ANJO!

       Mês de agosto, eu estava no meu escritório, ao lado da cozinha, terminando de digitar uma crônica para o jornal Valeparaibano, quando meu Anjo me avisou que algo estava prestes à acontecer na mineradora onde meu marido trabalhava; eu tive a visão de tiros, gritos e uma explosão. Dei um pulo tão grande da cadeira que fez com que Hosana, minha ajudante, se assustasse. Corri para a capela, me deitei no chão e orei. Pedi que fosse revogado o acontecimento. Eu estava em pânico, queria pegar o carro e correr para a mineradora, pois meu marido havia saído para o trabalho há pouco mais de uma hora.
       Eu não conseguia encontrar as palavras certas para rezar. Pedi para meu Anjo me ajudar e  oramos juntos. Levantei-me ao ouvir a revelação de meu Anjo: ‘Não haverá mais explosão e nem vítimas fatais, fica sossegada’.
       Fui para a cozinha, Hosana lavava a louça e, quieta, me olhava com medo de me perguntar qual era a causa da minha corrida à capela. Entendi o olhar dela e expliquei-lhe que eu havia sentido que algo muito grave aconteceria, àquela manhã, na mineradora. Ela tentou aliviar a tensão e disse que era somente impressão minha; provavelmente era apenas o reflexo de algum sonho ruim que me tirou a paz, durante a noite, e continuava me perseguindo ao acordar. Eu sorri para ela e disse que não era isso.
       - Não sei como lhe explicar, Hosana, só posso lhe dizer que tenho confiança em Deus e que tudo acontecerá conforme Ele quer.
       - Então, telefone pra mineradora... assim ficará mais aliviada.
       - Não telefonarei Hosana, pois ninguém irá atender. Vou para o curso que me inscrevi e que começará daqui a pouco. Já estou atrasada. Volto em duas horas.
       Saí com o coração tranquilo, sem preocupações. Aprendi, ao longo dos anos, que quando o Anjo me mostra algo doloroso, eu posso intervir ou não com orações; o livre arbítrio é uma questão humana. Até aí tudo bem... o difícil foi entender e aceitar a questão de quando a oração não é atendida; pois, podemos orar e, mesmo assim, nada mudar. O que me deixou calma, naquela manhã, foi a questão de eu ter feito a minha parte; se fiquei ciente do acontecimento é porque podia intervir e pedir a mudança dos fatos, e isso eu fiz. Além disso, existe o ensinamento que tenho desde criança... o de pedir que meu Anjo da Guarda ore comigo. Dessa forma dou total liberdade para ele para falar. Quando isso acontece, eu o escuto orando e até aprendi a orar na língua dele; algo que me vem sem que eu procure explicação, não tem lógica humana, mas tem dom divino.
       Por tudo isso, eu saí sem me importar com o olhar furtivo da Hosana, que pensava que eu era meio louca, em passar do pânico para a paz em apenas alguns minutos de oração.
       Fui para o 4º Encontro de Parteiras, Benzedeiras e Raizeiras do Cerrado,  no Quartel do Vinte, na Praça do Chafariz, descendo a rua... pertinho de casa. Havia feito minha inscrição há alguns dias, fui participar com muita alegria. No encontro recebi ensinamentos de mulheres idosas, que vieram de vários locais do estado de Goiás para ensinar suas tradições. Sou apreciadora e pesquisadora da cultura brasileira. 

       Ao terminar o curso, eu fui para casa.  Quando cheguei, Hosana estava na varanda me esperando. Apavorada, ela pediu para eu me sentar e me acalmar; mas foi ela quem se sentou e quem precisou se acalmar. Depois de um grande suspiro, ela me disse:
       - Olha Rita, telefonaram do hospital, houve um assalto na mineradora e seu marido foi baleado.
       Não me assustei, meu pensamento me alertava que tudo estava bem. Minha calma era aflição aos olhos de Hosana. Então, peguei o telefone e fiz uma ligação para a mineradora, é claro que não se completou. Depois, liguei para o escritório, na cidade, e me informaram que o homem baleado era outro funcionário e não o meu marido; porém tinham o mesmo nome.
       Logo depois, meu marido chegou em casa e me contou que um grupo armado tinha invadido a portaria da mineradora. O guarda reagiu ao assalto e houve tiroteio. Um dos tiros atingiu a perna do guarda e os assaltantes entraram. Os funcionários, ao escutar o tiroteio, se esconderam. Meu marido se escondeu, também; porém, os assaltantes o encontraram e o levaram para ser interlocutor junto ao diretor da empresa. Foram feitos os acordos. Antes de saírem os ladrões metralharam alguns espaços internos e, por pouco, não atingem a secretária que se escondeu atrás de uma parede.
       Wilson terminou me dizendo:
       - O mais incrível, Rita Elisa, é que no tiroteio entre o guarda e os ladrões estava um caminhão que havia acabado de chegar... carregadinho com bananas de dinamite. Se uma bala daquelas pegasse no caminhão, tudo poderia explodir. Foi mesmo uma sorte!
       Meu marido foi deitar-se um pouco, descansar do estresse. Eu fui para a capela, agradecer a Deus pela dádiva de todos os envolvidos no assalto estarem vivos. Foi quando resolvi uma séria questão dentro de meu coração; ajoelhei-me e pedi para que os nove coros dos Anjos louvassem a Deus Pai, Filho e Espírito Santo pela existência de meu Anjo da Guarda.
DICA: Não se desespere ao pressentir que algo muito ruim vai acontecer. Não se distraia, aja no mesmo momento, peça ajuda ao seu Anjo e ore para que a paz, o amor, a saúde e a felicidade vença o mal. Depois agradeça a Deus e alivie seu coração, não duvide! 

      O QUINTO ELEMENTO... NA ÁGUA!


Uma das atividades que mais gosto é a de fotografar. Em Goiás, durante alguns anos eu fotografei com equipamento analógico, mesmo que já existissem máquinas fotográficas digitais. Muitas vezes fui contratada pelos órgãos públicos e privados para registrar eventos. Foi com grande satisfação que aceitei o convite de fotografar os seminaristas que foram transferidos para outra diocese. A única exigência feita por eles era a de que fosse película preto e branco – P/B.
O dia amanheceu chuvoso, mesmo assim saí de casa animada para fotografar os seminaristas. Na minha máquina, ainda havia um rolo de filme colorido e eu precisava clicar duas poses para trocar o filme para P/B. Saí de casa determinada em usar as duas poses coloridas em fotos da fachada da Igreja do Rosário. Desci a Praça do Chafariz, passei pelo Museu da Boa Morte, devagar passei pela Praça do Coreto. O aguaceiro caía e as ruas tornaram-se verdadeiros rios. Quando cheguei perto da Cruz de Anhanguera, nitidamente escutei meu Anjo me dizendo: ‘Tira fotografia da casa de Cora’. Antigamente, eu até poderia contestar: ‘A chuva está torrencial e não sairá algo que preste’. Mas, aprendi a ouvir meu Anjo e acatar o que ele me diz.

Eu parei o carro ao lado da Cruz de Anhanguera, abri minha bolsa e peguei a máquina fotográfica, troquei a lente por uma 35x70mm, mirei no vidro do carro e esperei. A chuva foi diminuindo, diminuindo, até que eu consegui focalizar a casa de Cora Coralina; cliquei. Tinha mais uma pose para gastar. Queria algo diferente, afastei-me um pouco do vidro e fiz o foco nas gotas da chuva. Cliquei... pronto; em um minuto eu gastei as duas poses do filme colorido. Tirei o filme da máquina e coloquei o P/B. Filme que tive de ir a Goiânia comprar, pois era difícil de encontrá-lo na cidade de Goiás.
Os seminaristas me esperavam no átrio da Igreja do Rosário. Foi com muito prazer e alegria que fiz o álbum de despedida deles. Levei os rolos de filme para serem revelados, fiz o álbum e o entreguei aos seminaristas. Era fim de ano, nos despedimos, eles foram para outras paragens.
No outro ano, a prefeitura da cidade de Goiás me convidou para apresentar, em junho, uma exposição fotografia no FICA, Festival Internacional de Cinema Ambiental. Planejei a exposição nos mínimos detalhes, inclusive improvisei um croqui com a disposição das fotos. Denominei a exposição de: O Quinto Elemento. Trabalhei com os quatro elementos: fogo, ar, terra e água. Em cada foto fiz uma interferência visual com um inseto (meu quinto elemento), que se tornava quase invisível dentro da fotografia.
As fotografias foram ampliadas no laboratório em Goiânia, onde eu conhecia o alto padrão do trabalho. Para a TERRA, eu usei a imagem da Estrada Real, onde o destaque ficou para o elemento terra, pois eu quase me deitei no chão para clicar essa foto e registrar a cidade de Goiás ao fundo. Peguei a terra dessa parte da estrada e a colei na imagem, o inseto era uma paquinha (grilo). Na imagem destinada ao elemento AR, eu inovei; fiz uma instalação. Moldei Anjos de cerâmica queimada (uma obra completa, pois usei terra, água, fogo e ar) e os preguei no quadro azul, como se fosse o Céu; dos Anjos saíam vários fios dourados impregnados de estrelas que ficavam balançando ao vento (ar). Cada estrela era recorte de uma fotografia, o inseto era uma aranha. No quesito FOGO, eu trabalhei uma fotografia que tirei de um buriti totalmente queimado, mas seus frutos, ao chão, estavam intactos. Eu preguei no quadro alguns frutos e muitos pedaços de carvão, o inseto, era uma cigarra queimada.
Deixei para último ato de criação, o elemento ÁGUA. Usei a fotografia da Casa de Cora que cliquei naquele dia de chuvoso, quando ia fazer o álbum dos seminaristas. Essa fotografia tornou-se um espanto para muita gente. Tanto que, quando eu cheguei para pegar as ampliações em Goiânia, os laboratoristas estavam de prontidão... me esperando. Nas mãos deles várias reproduções 10X12 (pequenas) dessa imagem. Nelas era impossível ver o que a ampliação mostrou; disseram-me que em muitos anos de trabalhos em laboratório fotográfico, jamais encontraram algo igual. E que, se não fosse película de negativo, poderiam até pensar em manipulação digital. Chamaram-me do lado, e em outro balcão, abriram a enorme fotografia, 80X100, para eu ver o resultado. Em um instante, encontrei bem no centro a razão de tanto espanto, eram três gotas d’água, uma delas em forma de igreja, com direito até a uma cruz, as outras duas formaram dois Anjos bem à frente da fachada da igreja; os Anjos até mesmo têm auréolas. Na hora, eu me lembrei de meu Anjo da Guarda me dizendo para fotografar. Eu não tive muito o que fazer nessa fotografia para a exposição, a não ser colocar o quinto elemento... um pernilongo!
 
Os que foram à exposição se encantaram com todos os registros fotográficos. Quando diante do quadro ÁGUA ficavam perplexos, queriam explicação. Eu só podia dizer que foi um presente de meu Anjo e que meu amor por Cora Coralina era correspondido.
Existe uma sutil diferença entre escutar ou não, parar ou continuar, fazer ou deixar para lá. E essa diferença está em ter harmonia diária com o Anjo da Guarda. Criar laços afetivos tão grandes, que o Anjo nos presenteia com emoções as quais ainda não conseguimos descrever através do dicionário humano.
Por isso, muitas vezes eu prefiro somente... sorrir. Igual agora, escrevendo este relato, eu olho o quadro ÁGUA e a mesma sensação de prazer que tive há tantos anos invade minha alma e me faz sorrir novamente. 




DICA: Sempre acate uma sugestão de seu Anjo da Guarda, o resultado poderá ser surpreendente.
       PARA SEMPRE... AMÉM!

A geladeira amarela nos foi útil por quase cinco anos. Quando fomos morar na casa maior, ela era destaque na cozinha, gelando no tempo certo. O caseiro, Mané sorveteiro, sempre levava algum tipo de carne para guardarmos na geladeira. Quando ele precisava, ia à casa pegar a carne para cozinhar. Algumas vezes, ele dava um ‘teco’ de carne para meu gato Nilson.
Depois de tantos anos, Mané sorveteiro adoeceu. Foi um período triste. Eu sempre ia à casa dele cuidar para que não lhe faltasse algo. Rogério, o dono da casa onde eu morava, às vezes ficava dias com o Mané, cuidando. Depois veio o Lua, protegendo Mané, dando banho, fazendo a barba e cortando os cabelos. Todos os dias, eu ia ver meu amigo Mané. Ele sempre me pedia algo especial: ‘estou com vontade de comer caqui’. Eu corria à procura de caqui para o Mané que os comia com vontade. Mesmo doente tinha suas vontades e eu sempre fazia de tudo para satisfazê-lo.
Foi em um fim de tarde, eu na casa de Mané, conversando com ele, perguntei-lhe: ‘Mané, o que mais você quer?... fala que eu lhe dou!’ – a resposta veio imediata: ‘Quero sua geladeira!’
Fiquei sem ação; pensei e repensei. Encontrei a solução: ‘Ok! A geladeira é sua, ela ficará lá em casa por um tempo; mas assim que você melhorar eu darei um jeito de trazê-la para cá. Então, trate de melhorar logo...’
Fui para minha capela e orei, pedi que meu Anjo conversasse com o Anjo da Guarda do Mané. Sempre faço esse tipo de oração quando preciso de discernimento. Se eu não sei o que fazer, os Anjos sabem... afinal, eles nunca envelhecem. Há milhares de anos entendem tudo.
Daí dois dias, em pleno FICA; Festival Internacional de Cinema Ambiental; em que eu participava com uma exposição fotográfica, eu voltava para casa e vi os bombeiros chegando. Corri para a casa do Mané, ele estava sentado, dizia que não ia deitar na maca. Corri em casa, peguei uma cadeira de ferro, levei-a até os bombeiros e pedi para eles colocarem o Mané ali. Eles disseram que não podiam. Então, com muito jeito, eu peguei o Mané nos braços; ele ficou bravo, disse que eu ia cair com ele. Eu estava assustada, mas superei a dor e a minha pequenez (Mané era magro, mas pesado para mim...), pedi ajuda ao meu Anjo. Fiquei forte, aprumei o corpo e coloquei o Mané na cadeira. Mané recebeu medicação no hospital e retornaram com ele.
Passou-se apenas um dia, os bombeiros voltaram e, novamente, pegaram o Mané; desceram a escada com ele e o colocaram na ambulância. Ana Paula, querida amiga, ficou junto, ao meu lado. Lua acompanhou o Mané, na ambulância. Pedi licença para Ana Paula, eu precisava pegar o carro e ir para o hospital. Antes mesmo de eu sair com o carro da garagem o Lua apareceu no portão, gesticulando: ‘Mané não aguentou chegar no hospital, morreu aqui perto mesmo’.
Entrei em casa e telefonei para o Rogério e a Paula. Depois, liguei para o hospital e pedi que trouxessem o Mané para casa. Eu precisava de água gelada para aliviar o calor dos acontecimentos. Ao abrir a geladeira me dei conta de que ela estava desligada. Olhei na tomada. Que desligada que nada, ela havia pifado.
Não demorou muito e, da janela, olhei para o portão... o corpo de Mané chegava. Fui para a casa dele e a roupa que eu arrumei até que ficou bonita, precisava apenas de meias. Corri em casa, peguei um par de meias e coloquei-as nele.
O velório de Mané foi a grande estilo; meus amigos apareceram e tocamos violão, cantamos, oramos muito. Cristina dizia que Mané sorria no caixão. Quem fez o viático do Mané foi o bispo Dom Eugênio. 
Três dias depois do enterro eu levei a geladeira para ser consertada. No outro dia, o técnico me ligou dizendo: ‘Senhora dona Rita, não tem jeito, o motor queimou de vez, parece até que a geladeira morreu!’
Mané se foi e levou junto com ele a geladeira... e o meu gato; na mesma hora em que Mané descia na cadeira, levado pelos bombeiros, meu gato Nilson fugiu pelo muro... para nunca mais voltar. 

DICA: Nossa pequenez humana às vezes se depara com mistérios que não sabemos desvendar. Nesse caso, peça ajuda de seu Anjo e aceite o que ele lhe ensinar. Nem tudo precisamos entender, só pergunte o que é necessário.
       O GOSTO PELO PASSADO... VELHARIAS!

Bem... eu que já havia me dedicado a tantos estudos:  artesanato, fotografia, jornalismo, literatura, e alguns mais; resolvi voltar ao amor primeiro. Ao que eu tanto amo. Antes do tudo, antes do nada; arqueologia. Isso mesmo... depois dos quarenta, avó, a oportunidade apareceu. O sangue ferveu. O sonho de criança veio à tona, eu o pesquei.  
Gosto não se discute. Assim falam meus amigos: ‘Rita Elisa só gosta de velharia’. Meu prazer era garimpar velharias... era, não!... ainda é. Gosto do cheiro, da cor, do formato e principalmente de imaginá-las como eram usadas na época. Até fiz curso de decoração e de restauração de peças antigas no SENAC. Só para entender, um pouco, de antiguidades.
Sempre fui rata de sótão e de porão; traça de sebos; desbravadora de antiquários. Gastava o que tinha e o que não tinha (fazia dívidas) para adquirir um gramofone, uma máquina fotográfica de fole, discos de 78 rotações, tinteiros de cristal, canetas de pena, patacões, livros raros, chaves e cadeados de senzalas, panelas, ferros de passar roupa e tachos antigos. Mas, o meu sonho mesmo era escavar... e, é claro... encontrar algo, um fragmento que seja... um caco.
Arqueologia, aqui vou eu! Devorei as aulas teóricas. Aprendi tudo. O melhor ainda estava para vir... a escavação. Depois de várias aulas lá estava eu, calça comprida, tênis, camisa de manga comprida e chapéu, debaixo de um sol de 35 º, abaixada, cavando com uma enorme dose de paciência. A área delimitada era pequena. Eu raspava com uma pequena pá, até sair uma poeira de terra. Igualava a superfície. Depois de uns 5 cm juntava a terra raspada e a peneirava. Ali, só achei cacos de cerâmica e vidro, poucos significativos. Mas a cabeça viajava... filosofava...junto com meu Anjo:
...o pó é dispersivo, basta um sopro e voará grão por grão, para todos os lados. Da poeira estou tirando grãos maiores, cacos de cerâmica... cacos de vasos, telhas, panelas, cuias, tudo de barro. Barro... a água une os grãos, fez-se a argila. A argila para ser boa tem de ser socada, sovada, para retirar impurezas e dar liga. Ela por si só nada pode. O oleiro por si só, nada tem. Homem e argila; dose vital. As mãos firmes transmitem sentimentos puros e dá formas ao barro. Torneia, adorna com arabescos e dá o brilho. Deixa secar por um tempo e depois vitrifica; no pulsar da chama, no calor das horas. O que é bom ficou inteiro, usa-se. O que é ruim, trincou, partiu-se, joga-se fora... (dessa forma meu Anjo me ensinou a supremacia de uma identidade). 

Delimitei uma pequena área no quintal da casa, depois da casa do caseiro, perto do muro de pedras, e ali diariamente fiz escavações. Afinal ali ficou denominado Beco do Cisco porque era o lugar onde jogavam o lixo. Lugar apropriado para eu encontrar fragmentos.  Encontrei muitos cacos de cerâmica indígena, porcelana (azul borrão e pombinho), patacões, chaves, vidros de remédios, fivelas, pregos etc. Foram devidamente acondicionados e catalogados.








E eu ali... procurava os cacos... queria montar o quebra cabeça humano. Queria encontrar a minha identificação ao filosofar Hyginus, ao desvendar sua fábula-mito. Eu ali tendo todo ‘Cuidado’ com a T(t)erra... A bem da verdade eu queria mesmo é captar o eco do sopro divino... da grande explosão! Procurar um fóssil de 15 bilhões de anos. O momento da criação. Captando o equilíbrio das energias que atuam sinergicamente entre si, sem alterações. Descobrindo o meu ‘eu’ mais profundo. Isso sim é um achado arqueológico. E... eu o encontrei... ele estava dentro de mim.
Agradeci meu Anjo pelo ensinamento, o que eu procurava fora, enterrado no solo árido vilaboense, encontrei exposto na minha alma.
Gosto de relembrar o fragmento de um poema que Platão escreveu, há mais de 2400 anos: ‘Deus também gosta de brincar./ O universo que Ele criou /é seu divino brinquedo’.
DICA: Jamais desista de seus sonhos. Porém, para que eles se realizem, precisarão criar raízes em seu coração e se tornarão  peça chave em sua identidade.

       A LUZ NA CANDEIA DA ESPERANÇA!

No vasto mundo vilaboense, eu convivia com toda classe social e religiosa. Desde cachaceiros, mendigos, professores, literatos, donas de casa, pedreiros, jardineiros, atores, cantores, superintendente de mineradora, arqueólogas, padres, bispo e irmãs de caridade;  todos os dias por minha casa passavam amigos: taxista; pamonheiro; quituteira; mãe e seus dois filhos; afinal, receber os amigos era minha grande alegria.
Sempre incentivei meus amigos a ter uma oração diária com o seu Anjo da Guarda. Nosso grupo de oração se chamava Santo Padre Pio; usei da biografia desse santo franciscano para mostrar o quanto o Santo Anjo de cada um é importante para conseguirmos discernimento, sabedoria e guarda nesta vida. Pois, o Padre Pio, conversava com seu Anjo da Guarda.
Foi em uma tarde de oração, depois de definir as orações para o encontro do grupo, que meu Anjo me inspirou algo que eu, sozinha, jamais iria sonhar em fazer: ‘Escreva uma carta para os padres capuchinhos de onde morou e está sepultado Santo Padre Pio de Pietrelcina’. Procurei o endereço pela Internet, que era lenta e quase não me dava acesso à pesquisa; porém, consegui. Seria muita ousadia minha pensar que iriam responder minha carta, mas eu a escrevi e a enviei; pelo menos saberiam que existia na cidade de Goiás, um grupo de oração chamado Santo Padre Pio.
Dali alguns meses, recebi a resposta e, para minha alegria, alguns santinhos com orações de Santo Padre Pio, a Coroinha do Sagrado Coração de Jesus e uma relíquia em cada santinho. Distribuí os santinhos com os integrantes do grupo. Foi uma comoção geral, choros, beijos, orações, milagres aconteceram. Agradeci meu Anjo em me dar esse discernimento, jamais pensaria que pudesse isso um dia acontecer. 


Continuei a trocar correspondência com os frades de Pietrelcina durante alguns anos. Na alegria de orar por eles enquanto eles oravam pelo grupo.
Em certa época, na cidade de Goiás, eu me deparei com uma necessidade muito grande de entender a razão das pessoas julgarem os outros, mesmo à distância, sem saber a verdadeira realidade, sem perguntar e, principalmente... sem ser amiga. Minha harmonia interior era controlada pelo Kyrie Eleison, mas eu queria que todos tivessem essa mesma intensidade de oração, e que pudessem vibrar na mesma sintonia de amor.
Um dos maiores aprendizados que eu tive e guardo é que devemos estar alertas, pois o inimigo está sempre pronto a nos atacar, não podemos descuidar. Quando eu acordo mais tarde, ou não consigo orar de madrugada, meu dia fica difícil, como se eu estivesse desprotegida. Comentei com meu Anjo a esse respeito e pedi que ele me ajudasse a não ter dias ruins. Ele nada me respondeu e eu entendi 
que esse cuidado depende de mim. É o tal do livre-arbítrio.
Eu precisava compreender a vida, pois a cada dia sentia que as pessoas me julgavam com muita severidade, por não entender algumas atitudes minhas. Principalmente aquelas que meu Anjo me inspirava fazer e não tinha uma resposta lógica à capacidade humana. Por isso eu sofria muito e tinha receio de me fechar como uma ostra. Então, certo dia, falei para meu Anjo que eu desejava conversar com o Papa João Paulo II a esse respeito... falei rindo, de brincadeira é claro. Apenas um desabafo. Porém, foi com muita firmeza que meu Anjo me disse: ‘Então escreva para ele’. Eu ri, mas ele continuou sério.
Não pensei duas vezes, porque senão iria desistir, fui ao computador e escrevi uma grande carta ao papa, abrindo meu coração, contando para ele tudo o que me aconteceu e os meus sentimentos em relação à vida. Lacrei e enviei para o Vaticano. ‘Pronto meu Anjo, está feita a sua vontade, ou melhor, a minha vontade. Se o Papa João Paulo II não me responder não faz mal, vale eu saber que minha carta, durante algum tempo, ficará dentro do genuflexório, onde ele faz suas orações. Certamente me trará certo alívio na alma.’
Depois de alguns meses, recebi a resposta da minha carta enviada ao Papa João Paulo II, com bênção papal e algumas frases onde ele me aconselhava à forma de agir. 






O maior ensinamento, foi o de que eu devia deixar a luz da esperança viva em meu coração, entendi que, quanto mais eu fosse audaz, mais eu conseguiria; se eu temesse o que meu coração ansiava, a luz ia embora. A coragem vem de dentro.
Nem sempre estamos preparados para acreditarmos em nossas vontades, às vezes deixamos a luz esmaecer a ponto de ficarmos em plena noite escura na alma, sabendo que deixamos passar uma oportunidade de ser feliz, de fazer o bem, de realizar um sonho; por causa da covardia de nem mesmo tentar; e o pior é alimentarmos o discurso de que o motivo é o medo de sermos julgados. Nosso livre-arbítrio nos leva ao paraíso de bons momentos ou ao inferno da dúvida. Optei por sempre tentar, mesmo que seja pular no precipício. Afinal eu confio em meu Anjo da Guarda.
DICA: Seja ousado em suas atitudes, seja sempre para o bem; principalmente quando for para o seu bem. Pois você só poderá transmitir aos outros o que tem dentro de você. Se tiver paz, construirá paz. Entender as atitudes dos outros em relação às suas ações, nem sempre é fácil e, às vezes, nem queremos saber. Porém, tem certa etapa da vida em que você precisará de uma resposta. Pergunte ao seu Anjo e fique aberto para às respostas. Não se esqueça de pedir que ele o ajude a entender e a aceitar, sem transtornos para sua alma, sem que lhe tirar a paz.
        CIDADANIA VILABOENSE!

Em Goiás, eu vivi intensamente, fui fundadora e diretora cultural do grupo teatral FarriCora; participei do grupo de reativação do Apostolado da Oração; do grupo que idealizou e dirigiu o Cerco da Misericórdia; o grupo das Mil Aves Marias; do grupo de Oração Santo Padre Pio; da obra Cesta Cheia (primeira sexta-feira do mês arrecadar cestas básicas para famílias carentes através de jantar beneficente); do grupo de moradores que reerguiam a cidade através de eventos pela OVAT (Goiás um baú na ponta do Arco-Íris); grupo de estudos arqueológicos; participava de todas as festas sociorreligiosas, grupos de dirigentes nas Missas; do grupo que visitava e orava com os internos no asilo; levar o sacerdote para visitar os enfermos em suas casas; levar cestas básicas às famílias mais carentes; além das programações da mineradora e  serviços fotográficos.
Em setembro, fazendo o almoço, ao ouvir a rádio local, meu coração quase saiu pela boca, ao saber que dentre as poucas pessoas que estavam para receber o título de Cidadania Vilaboense, estava meu nome. Indicada pela vereadora Benedita, com apoio de Vinícius. Eu fui aprovada por unanimidade. Fiquei muito feliz, pois me sentia (e me sinto) uma verdadeira vilaboense; aprendi a gostar da cidade e, mais ainda, a amar os vilaboenses.
Logo depois que ouvi a notícia corri para a capela e me ajoelhei diante do oratório. Pedi a presença de meu Anjo da Guarda para, juntos, agradecermos a Deus, pela honraria que me foi concedida. Fiz uma linda oração de louvor. Fiquei em paz e chorei. 
Recebi o título com festa na sede da OAB, no dia 15 de setembro, com direito ao discurso de Hecival Alves. Amigos compareceram, o lugar ficou lotado. Eu me tornei conterrânea de Cora Coralina foi bom; porém, me tornar conterrânea de tantos vilaboenses, que me ensinaram o verdadeiro sentido da amizade... foi melhor ainda. Eu me senti tão feliz, que pensei que nunca mais ia embora da cidade de Goiás. 
                  Foto: a vereadora Benedita me entregou o Título de Cidadã Vilaboense.

DICA: Para ficar em paz, não queira saber demais seu futuro e nem despreze demais o passado; viva intensamente o presente e confie em seu Anjo da Guarda. Não se esqueça de que seu Anjo possui todas as lembranças de sua vida.

       OS SONHOS NÃO ENVELHECEM!

Todo sonho é uma realidade interior...e pode se tornar real!
Eu tenho muitos sonhos. Gosto de ficar olhando as estrelas. Às vezes, coloco o colchão no quintal e fico durante a madrugada olhando o céu. Sonhando acordada. Numa dessas noites fiquei deslumbrada com o céu de agosto. Maravilhoso!... todo estrelado. Desejei uma estrela para mim.
Na verdade, sempre desejei ser Saint-Exupéry, quando fez aquela aterrissagem forçada no deserto africano. Ele permaneceu a noite toda em uma duna virgem, um lençol imaculado estendido sob a pureza do céu. Ficou olhando, como ele disse: para um aquário de estrelas. E ao voltar seu olhar para a duna encontrou um pedaço de pedra negra. Já imaginaram?! Uma pedra sobre trezentos metros de espessura de conchas moídas. Nas profundezas subterrâneas do deserto sim, existem pedras, mas aquela estava ali em cima, na superfície. Um pedaço de pedra dura, negra, pesada como metal, do tamanho de um punho, em forma de lágrima. Só podia ser a poeira dos astros. Um aerólito; lava petrificada, um diamante negro. Em poucos minutos visualizou dezenas deles. Saint-Exupéry, deitado em pleno deserto, ficou imaginando como teria sido a lenta chuva de astros que há milhares de anos havia espalhado aqueles aerólitos.
E... eu fiquei me imaginando Saint-Exupéry. Fiquei deitada no quintal, sob o brilho dos astros; desejei uma estrela. Nesse desejo adormeci. Sonhei.
Na manhã seguinte, andando pelas ruas de Goiás, o calçamento de pedras me prendia a atenção. Meditei... Sempre que almejamos uma estrela, um sonho, temos que olhar para a terra, para o chão (pura filosofia balzaquiana); afinal, uma pedra pode ser uma estrela que caiu do céu. Com esse pensamento olhei para as pedras do beco, a surpresa veio em seguida... entre os vãos das pedras havia uma estrela dourada, abaixei-me para fazer a colheita. Estrela estilo filigrama de ouro, fosca dourada, uma joia. Com o coração pulsando forte apertei a pequena estrela em minha mão. Seria verdade? Que seria isso? A resposta de meus sonhos?! Sim... acredito em sonhos que se realizam. E... tenho certeza... os Anjos dizem amém.
Tenho esta estrela comigo. Toda vez que me perturbo um pouco, toda vez que sou mais realidade, toda vez que paro de sonhar, volto meu olhar para a estrela que está pendurada no oratório em minha sala. Ela me aponta para a realidade adormecida. Isso não existe? Existe sim! Todo sonho é uma realidade interior e pode se tornar real. Não há um tempo determinado para isso; afinal, os sonhos não envelhecem!
        Uma vez li que Deus não pode sonhar e nem desejar nada para si mesmo, pelo simples fato de ser perfeito e possuir tudo. Se por acaso Ele desejasse alguma coisa com certeza não seria Deus. Ele só pode sonhar e desejar para os outros. É por isso que estamos aqui; para sonhar por Ele. Devemos creditar nos sonhos, ter fé e ser feliz. Bem disse Clarice Lispector: O que alarga a vida das pessoas são os sonhos impossíveis. Impossíveis para a compreensão humana. Realizáveis na vontade divina. Essa é nossa parte mais linda. Concretizarmos nossos desejos, aceitarmos a felicidade. Você não sabe?... O sonho é uma profecia que sempre acontece.
Era um sonho antigo, da pré-adolescência, nem mesmo entendia a razão de alimentar em meu coração essa carência pela estrela caída do céu. Em todos esses anos jamais pedi formalmente ao meu Anjo a realização desse sonho. Porém, sempre alimentei no coração essa infinita vontade. E achei que o meu infinito, teve finitude na alegria de encontrar aquela estrela de filigrama, no Beco do Sócrates.  Naquele dia, entendi que realizei um lindo sonho e me desapeguei dele. Não restou lugar humano na vontade, pois todos os espaços foram preenchidos.[1]


 Foto: a estrela de filigrama fica na dobradiça do oratório na minha sala. 


DICA: Ao desejar algo muito bom, mas que lhe parece inacessível, elimine as dúvidas e pense sempre no possível. Ultrapasse o limite de seus pensamentos. Para isso, nem precisa imaginar o que virá, basta apenas limpar sua mente às dúvidas. Peça ajuda para seu Anjo.
       OS ANJOS NÃO ENVELHECEM!


Tempo de despedida, era nosso deadline, na cidade de Goiás. Naquele ano me tornei uma legítima cidadã vilaboense e, também, recebi os certificados de arqueologia. Senti na pele o árduo trabalho de escavação, o sol inclemente não me deixava trabalhar muito tempo, preferia o fim de tarde...  mesmo que meu sítio arqueológico fosse no quintal de casa. Apesar disso, intensifiquei meu trabalho, passei a escavar, pelo menos quatro horas por dia, com muito cuidado para não perder fragmentos. Registrei, fotografei, demarquei, ensaquei, cataloguei e guardei. Adquiri muito material, doei a maioria e guardei um pouco, o mínimo; tudo trancado em um baú.
Em cima desse baú, dependurada no oratório, a estrela que encontrei no Beco do Sócrates me apontava para a certeza de que minha procura chegara ao fim. Eu agora tinha minha estrela, a que eu sempre sonhei.
Em tempo de despedida, eu e meu marido resolvemos dar nosso adeus à maravilhosa Serra Dourada. Fomos bem cedinho. O chapadão nos recebeu com reflexos dourados pelo sol que nascia saudando o fim de mais uma etapa de nossas vidas. Subimos de carro até onde foi possível, depois seguimos a pé até o um enorme tanque represado de um rio que desce pela encosta leste do paredão.
Ali meu marido jogou linha, anzol e isca, e recolhia um lambari atrás do outro. Uma bênção de pescaria. Nosso almoço estava garantido. Resolvi andar pela trilha de água, no leito do rio. Era tempo de seca, o leito era largo, as águas eram poucas, cristalinas, deixavam à mostra milhares de pedras roliças, amarelas e brancas. Sempre tive fascinação por pedras e fiquei de olho para encontrar alguma diferente.
Andei muito tempo, horas mesmo, me distanciei demais de onde meu marido estava. De repente, como sempre me acontece... um pássaro começou a me seguir, pulando de galho em galho pelas árvores que margeavam o leito do riacho. Eu estava com as barras das calças dobradas até os joelhos, as botinas de couro firmes nos pés. Olhei o pássaro e pensei em São Francisco de Assis. Orei. Pensei no meu Anjo da Guarda. Em voz alta eu o chamei pelo nome.
Senti uma paz tão grande que o mundo pareceu parar. Abaixei o olhar e notei a alguns metros à minha frente, no meio do leito do rio, entre milhares de pedras brancas, uma pedra negra. Fui devagar até lá e encontrei um pedaço de pedra dura, negra, pesada como metal, do tamanho de um punho, em forma de lágrima. Só podia ser a minha poeira dos astros, o meu aerólito. Com o coração aos pulos, abaixei-me e peguei minha pedra. Em um misto de alegria e euforia, sentei-me no meio do rio e deixei-me ser encharcada pelas águas, uma lavagem de alma. Chorei e sorri. O pássaro continuava no galho mais perto. Eu agradeci a Deus e ao meu Anjo da Guarda. Eu tinha um sonho... e 35 anos depois o realizava. 


Era muita emoção. Lembrei-me de cada palavra de Saint-Exupéry, como em um passe de mágica levantei-me e comecei a olhar ao redor, ‘ali eu achei vários aerólitos numa distância de 300 metros cada de vários tamanhos. Peguei apenas três, deixei os outros para que sejam recolhidos pelos que têm o mesmo sonho. Agradeci ao meu Anjo por ter-me proporcionado ir além do que eu esperava.
Até hoje eu olho esses aerólitos e me vem a sensação de cuidado, que o Criador oferece para quem sonha. Eu não precisei falar para meu Anjo esse sonho tão especial, na verdade, ele me conhece por inteira, coração, pensamento e espírito; é ele meu mensageiro. Imagino que quando me desapeguei do sonho, encontrando a estrela de filigrama no Beco do Sócrates, abri espaço para que Deus interviesse na minha alma e ao sondá-la encontrou um jeito de ir além de minha percepção humana, me presenteou com os aerólitos, sendo que um deles é ‘exatamente’, como a descrição de Exupéry; é do tamanho de meu punho fechado. 
Ao encontrar esses aerólitos a frase de Santo Agostinho: ‘Pensando em pó, você é pó. Pensando no infinito, você é infinito’ comungou com meus sentimentos mais secretos.
 Um dos meus livros de cabeceira é: Me conta uma mentira (está até despedaçando de tanto ser manuseado) e marquei o ensinamento de Rômulo C. de Souza: ‘Verdadeiros mesmo são os sonhos que Deus está sonhando para nós. Nele tudo possui a dimensão do infinito.’ Realmente, Deus sonha através de nós, por ser perfeito Ele não pode sonhar, por isso nos criou... para desejar, sonhar e realizar através de nossos sonhos.[2]


DICA: Acredite nos sonhos que Deus tem guardado para você. Abra-se para que eles aconteçam. Diga ao seu Anjo que você está pronto para o infinito de Deus.
       AREIA FINA ESCORRENDO PELOS DEDOS!

Meu tempo na cidade de Goiás era areia fina escorrendo em uma antiga ampulheta. Era hora de voltar para São José dos Campos. Meu sítio arqueológico, no quintal de casa, perto da casa do caseiro, me trouxe muitas alegrias: várias moedas antigas, uma cabeça de boneca Carajá, vários fragmentos de vasos de cerâmica, potes de vidro, pedaços de louça azul pombinho e azul borrão, muitos ossos, isso mesmo... ossos.
Ossos tão gastos (amarelados, pequenos, porosos) que não dava para saber de quais animais eram. Afinal minha residência ficava no Beco do Cisco; nos primórdios da cidade, era nesse beco que jogavam o lixo e que, também, descartavam pequenos animais mortos (por isso, acredito que os ossos sejam de animais).
Na manhã em que meu marido e eu fomos para a cidade de Goiânia, fazer o exame demissional, deixamos o nosso jardineiro incumbido de enterrar aqueles restos de ossos entre as duas jabuticabeiras, perto da piscina; pois me pareceu o lugar ideal. Não ia deixar ossos jogados, mesmo que fossem de cachorros ou de outros bichos, temos de dar dignidade aos animais até mesmo na morte.
Quando retornamos de Goiânia, no fim do dia, o jardineiro estava sentado na mureta perto das jabuticabeiras. Ele levantou-se e me questionou o motivo de eu querer que os ossos fossem enterrados naquele local. Respondi que no dia anterior, ao colocar os ossos no saco plástico eu orei muito e pedi discernimento para meu Anjo me mostrar onde deveria enterrá-los. Daí me veio à imagem das jabuticabeiras.
Garcia foi logo tirando alguns objetos dos bolsos e explicando... ‘é que encontrei essas alças de caixão e pela distância delas, o caixão era de criança, provavelmente algum anjinho, só que não havia ossada’.
Ele se despediu e saiu.
Eu peguei as corroídas alças de caixão e as enterrei no lugar onde estavam.
Meu Anjo sabe a razão... eu não! E jamais quis saber. Aprendi a não questionar.
A placa Kyrie Eleison, eu a presenteei ao meu vizinho Sebastião, por ele ser uma pessoa tão boa que me deu alegrias divinas. Inclusive a composição de um novo Kyrie Eleison, que ele sempre apresenta durante Missas festivas na cidade de Goiás. 
Logo depois desse episódio, minha amiga Maria Ivalda, foi em casa se despedir e me perguntou qual era o lugar onde Wilson ia trabalhar. Eu olhei para a imagem de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, estilo barroco, com três anjinhos aos pés. Imagem que sempre ficava em cima de um baú na sala. Maria também olhou. Eu orei pedindo discernimento ao meu Anjo. Eu e Maria vimos os olhos dos anjos refletirem uma estranha luz. Na hora eu disse: ‘Wilson vai para a África trabalhar em uma mineradora’. Maria me disse: ‘Vai sim, tenho certeza!’ E, assim, em pouco tempo, Wilson foi trabalhar na África.

DICA: Quando chegar ao aprendizado de que nem tudo o que lhe acontece você precisará de uma resposta, estará perto de ser iluminado pelo sua própria luz, afinal, é Deus em você. Ele precisa que você abra passagem para que Ele brilhe mais, Ele nos deu o livre-arbítrio.  

[1] Fragmentos: Valeparaibano, 2007.
[2] Fragmentos: Valeparaibano, julho de 2008.


[1] Fragmentos: Valeparaibano, 2005.


[1] Fragmentos: arvoresdeseda.blogspot.com, 2010.
[2] Fragmentos: Valeparaibano, agosto de 2007.
[3] Fragmentos: Valeparaibano, setembro de 2007.
[4] Fragmentos : arvoresdeseda.blogspot.com, 2010



[1] Fragmentos: Valeparaibano, março de 2010.