sábado, 9 de fevereiro de 2019

CARTA PARA BRUMADINHO


Logo que vi o noticiário do rompimento da barragem da mineradora Vale, em Brumadinho eu desejei fazer algo pelas famílias sobreviventes. Não sou de ficar parada. Quando aconteceu a enchente em Santa Rita (2000) eu fui para lá ajudar, em Goiás participei da OVAT para reconstrução da cidade depois da grande enchente (2001), em São Luiz do Paraitinga eu levei mantimentos, roupas e fiz um documentário fotográfico quando a cidade ainda estava alagada (2010). Queria muito ir para Brumadinho, ajudar. Ainda mais pela razão de que meu marido por quinze anos foi supervisor de acidentes de trabalho em mineradoras, seus conhecimentos são tão grandes que trabalhou nas maiores mineradoras mundiais (África e Bolívia) principalmente porque durante a gestão dele nas mineradoras jamais houve acidente com fatalidade. Eu frequentei o ambiente em mineradoras e, por isso, entendia um pouco do que aconteceu na represa de retenção de rejeitos de minério da Vale em Brumadinho.

Porém eu não tinha condições de ir para Brumadinho ajudar no que fosse possível, precisava ficar em casa, fazer companhia e cuidar de meu marido que está com câncer. Orei pelos sobreviventes e pedi ao meu Anjo que levasse minhas orações diárias para essas famílias desabrigadas.

Dali poucos dias, em 29 de janeiro, eu recebi uma mensagem de Guilhermo Codazzi da Costa me convidando para participar de um movimento de solidariedade aos moradores desabrigados pelo desastre em Brumadinho. 
Resolvi escrever a carta.  Eu não pensei duas vezes no que iria escrever, já que era uma carta direcionada, a pessoa e eu não nos conhecíamos, pensei que o melhor era abrir meu coração, dizer o quanto aquela tragédia em Brumadinho havia mexido comigo. Falei para a pessoa deixar a água pura da esperança regar a semente do sonho e acreditar no amanhã. Achei que devia colocar para essa pessoa que eu também sofria por não termos ainda conseguido um tratamento hospitalar para o câncer de meu marido. Terminei escrevendo o que me veio como um sopro angelical: “Eu acredito nos Anjos e no quanto eles podem ajudar como mensageiros do bem. Não sou Anjo, mas vou rezar para meu Anjo entrar em contato com o seu e, no fim do dia, ao você olhar o céu, verá uma nuvem em forma de asas. Quando isso acontecer saberá que nossos Anjos estão conversando.” Seria uma forma de estar ligada a pessoa da carta. Pedi ajuda ao meu Anjo.

Sem condições de entregar a carta em mãos para o Guilhermo, eu a enviei por e-mail. Logo em seguida fui para a janela e olhei o céu. Pedi ao meu Anjo que ajudasse entregar essa carta para a pessoa certa, a quem eu estaria ligada em oração. Eu pensava que jamais saberia quem seria essa pessoa, pois centenas de cartas seriam entregues. Bastava saber que ao fazer a oração pela pessoa, meu Anjo levaria essa oração até Deus e a pessoa receberia os benefícios de minhas orações e que, talvez a pessoa pudesse fazer uma oração por mim. Assim como não vemos as ondas da Internet, mas sabemos que ela conecta os seres humanos, a oração tem uma frequência que conecta as pessoas.  Eu simplesmente orei pela pessoa da carta sem precisar saber o seu nome. Eu não procurei saber o dia da entrega das cartas, continuei orando e pronto.

Na sexta-feira, dia 08 de fevereiro de 2019, às 12h29, recebi uma mensagem do articulista do bem Guilhermo Codazzi, onde dizia que a TV Band havia feito uma matéria a respeito da entrega das cartas para as famílias da tragédia em Brumadinho e a carta escolhida para compor a matéria foi a minha. E junto enviou o link.

Eu assisti ao vídeo e fiquei perplexa, agradecida, emotiva... chorei. Não tinha como não chorar ao ver e ouvir dona Adélia Oliveira lendo minha carta e desejando, como se fosse uma oração, que meu marido sarasse. Corri para perto do meu marido e mostrei o vídeo para ele... ficou emocionado.
Dona Adélia mostrou que mesmo dentro de um mar de descontentamento ela encontra força para desejar o bem para uma pessoa que ela nem sabe quem é. Eu sei, agora, quem é a pessoa da carta, mas ela não sabe quem sou. Ela me mostrou que a solidariedade é o impulso necessário para que o bem crie forças e sobressaia no mar de lama do desamparo.

Sei que tudo foi uma trama entre os Anjos, o meu e o de dona Adélia. Eu não queria nem mesmo que os coordenadores do projeto lessem minha carta, porque achei que eu me expunha muito, era uma troca de dores. Agora entendo que mostrar-se por inteiro é a melhor forma de receber uma graça. Ontem e hoje eu olhei o céu e desejei que meu Anjo formasse asas nas nuvens e as mostrasse para dona Adélia, para ela saber que jamais está sozinha.




quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

LIVRAMENTO DE ACIDENTE


Hoje cedo, dia 06 de fevereiro de 2019, às 6h30 da manhã eu e meu marido saímos para uma consulta no oncologista. Eu fui dirigindo. A Dutra parada por causa da greve na REVAP, a cada dez minutos o trânsito parava cinco minutos, resolvi passar pela vila Industrial. O tráfego era grande porque muitos desviaram para o mesmo trajeto, ao subir pela VEIBRÁS peguei o acesso á direita e ao ver-me mudando o percurso meu marido me questionou qual o trajeto que iríamos fazer. Expliquei que íamos descer à direita até a Avenida Bacabal e continuar até a Avenida Fundo do Vale. Na verdade essa era uma rota que meu Anjo me alertou para fazer. 
Ainda parados no semáforo meu marido me disse para eu ir em frente, pela Avenida Juscelino Kubitschek. Tem certas horas que o melhor é não discutir, mesmo quando sabemos que estamos com a razão. A única reação minha foi dizer: “Se formos pela JK ficaremos presos no trânsito e não conseguiremos chegar a tempo na consulta médica.” Eu falei mas não tinha como comprovar empiricamente, pois o fluxo de carro havia diminuído.  Ele argumentou que a Bacabal é que deveria estar com o tráfego intenso. Eu havia ficado muito tempo sem dormir, estava cansada,  fiquei quieta.

Quando o semáforo ficou verde eu segui em frente, não virei à direita. Fui dirigindo calada. Pedi perdão ao meu Anjo por não seguir seu conselho e fui dirigindo com extrema cautela. O transito fluía bem, sem muito movimento. O silêncio imperou no carro. Quieta e orante eu dirigia prestando atenção em tudo. Meu marido também quieto viu que eu estava triste. Não sei dizer, mas era como se uma estaca fumegante entrasse no meu coração, minha vontade não era de chorar, eu apenas sentia dor, uma dor no coração que não era normal.

Ficamos um tempo parados no semáforo em frente do Condomínio Residencial Planalto e quando o sinal verde acendeu eu coloquei o carro em movimento normal, estava mais tranquila e pronta para acelerar... foi então que meu Anjo me disse para diminuir a velocidade. Não consegui entender, pois o carro trafegava a mais ou menos 25Km/h, era o mínimo para andar e não atrapalhar tanto o trânsito (creio que até atrapalha um pouco). Olhei no relógio eram 7h15, devagar quase parando eu fiz a curva para descer o morro... atendendo ao meu Anjo; era tão devagar que um ônibus me ultrapassou pelo lado direito. Notei que um carro preto vinha em alta velocidade no sentido oposto. 
Foi quando o motorista perdeu a direção e veio de encontro onde estávamos, diminui ainda mais a velocidade, o carro preto passou bem na minha frente e bateu violentamente no ônibus. O baque foi tão grande que o carro preto voltou para outra pista. O barulho foi terrível. 
Pedaços do carro se espalharam à minha frente, o tanque do ônibus foi atingido e o combustível jorrava como uma cachoeira. Se eu parasse outros carros bateriam atrás do meu, haveria engavetamento. Devagar eu passei por cima de pedaços do carro espalhados na pista e por uma cachoeira de combustível que lavou a lateral de meu veículo. 
Meu marido estava pálido, eu tinha o controle do veículo e meu Anjo o controle de nossas vidas. Olhei a pessoa dentro do carro preto e fiz uma oração para o Anjo da guarda daquela pessoa preservar a vida dela.
Creio que esse acidente estava programado. Quase não dormi à noite, acordei, como sempre, às 3h da madrugada para orar e depois não consegui mais dormir. Minha percepção ao Anjo me pedia... “orai sem cessar.” Foi o que eu fiz até acontecer o acidente. 
São fatos como estes que ficam marcados como um recomeço. Se eu tivesse dirigindo com a velocidade normal o carro preto me acertaria em cheio e eu não estaria aqui para testemunhar mais um livramento de morte que tivemos... com a ajuda de meu Anjo. Gratidão querido Anjo. Deus é bom, nos dá Anjos como mensageiros, precisamos estar atentos.





quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

OS ANJOS NÃO ENVELHECEM - I PARTE



      PREFÁCIO


A espiritualidade integrada faz bem à saúde, inspira sabedoria, serve com simpatia e produz alegria.

     Os anjos não envelhecem... e a vida é sempre jovial, é um constante alvorecer. Ela possui uma força na sua essência e arrasta muito consigo. É ladeada, desafiada, amparada, ajudada, somada, desabrochada e superada. Vai além das margens percebidas e imaginadas: não tem razão de ser delimitadas. É primeiramente dom de Deus, é mistério.

Desde criança é bom aprender a não ter medo. Mas se entende que o respeito é necessário. Então, o amor vence o medo e supera o temor. Valha-nos o nosso anjo da guarda, o 'anjo custódio'. É aprender a agradecer, a viver, a partilhar, a amar mesmo o pouco que se tem. Os desapegos nos fazem livres. Afinal, a criança feliz de hoje é o adulto realizado de amanhã.

As fantasias alimentam as curiosidades. As descobertas estimulam a aprendizagem. O conhecer profundo transforma em esperanças. 'As esperanças superam as angústias'. O amadurecimento integral desperta para a partilha: um doar-se sem fronteiras nem egoísmos. A vida torna-se uma Escola querida.

Os livros são bons amigos. Eles marcam etapas e fases. A cada leitura assimilada são janelas que se abrem para ver o Mundo de um jeito novo. Portas e janelas abertas possibilitam enxergar 360 a sua volta. Tudo é novidade. Ainda que seja de 'velhos baús': o ritual é sempre novo, ainda que neste lado da vida. De menina à mocinha, de jovem a idade adulta, o progresso humano é interativo. O conhecimento e a sabedoria se somam ao longo da vida. Por esta razão, até os livros abandonados como tesouros excluídos, se tornam joias recuperadas.

Em cada história humana há cruzes da vida! É preciso aceita-las, enfrenta-las, carrega-las, aprender com elas, superá-las. A saber, o anjo bom acompanha, os anjos e santas protetoras ajudam, os amigos e amigas consolam, é Deus que faz viver e os obstáculos superar. Estas e outras são as Lições da vida.

Ah! O quanto ensina a velhinha bondosa, limpinha, de coque nos cabelos, doceira, sábia poetisa e escritora: Cora Coralina. Como é agradável e formativo pensar em 'Raízes de Aninha'. É memorável acreditar nas pessoas e ser acreditada. Semente boa só pode nascer, 'crescer, florescer, frutificar e gerar sementes.' A simplicidade nos convence que vale a pena lutar, andar, usar carro ou bicicleta, ainda que velhos. Este é o afã de quem luta, consegue. Dá-se um jeito!
Das máquinas de escrever ao computador. Do trabalho ao lazer. Das boas ou más notícias. Das tragédias ao cômico. Em tudo, o fio da vida está nas mãos de Deus, disso sabem os que creem. 'Milagres, às vezes, acontecem!' Deus pode manifestar-se na inocência sadia da criança; na fé integral e madura dos necessitados. Deus se faz presente também através da intercessão dos santos, seus amigos. Ele nos ajuda a vencer o medo, superar os temores e a nos unir ao seu Amor. E os sonhos almejados podem se tornar realidades.
As pessoas que veem além dos olhos da carne nem sempre são entendidas, compreendidas. Nem mesmo os ensinamentos da velha psicologia conseguem explicar muitos porquês da vida. Ainda que seja verdade que 'os opostos se atraem, os semelhantes se confirmam.' Também são poucos os historiadores que conseguem enxergar além dos limites comuns do tempo, do espaço, das coisas e dos significantes.
       As fotografias, por exemplo, dependendo do ângulo, nos dão outros contornos e impressões. Estes registros, ainda que 'pro tempore', nos invadem através dos olhos. Mesmo que por um momento, são como os arabescos das nuvens, os 'rabos de galo' nos céus que, quanto mais densos formam figuras notadas pela sensibilidade do artista. 
       As ovelhinhas e os rebanhos são os mais comuns. Por isso, as pessoas com 'visão artística' nos surpreendem em gênero, grau e profundidade. Elas arrancam coisas já mais percebidas e as mostram de jeito nova, inédito, alegram o espírito, ajudam a organizar o pensamento e nos dão harmonia, integridade e percepção do ser da pessoa.
     Geralmente, a interação com as artes aguça as sensibilidades, embarga a voz e as lágrimas vêm como suplementos das emoções. É preciso escutar o próprio eu, quando o silêncio se faz companheiro.
A vida é um caminhar gradativo. É um palmear estradas, avançando sempre. Subir, descer, planear, desviar, contemplar, surpreender, almejar, desvendar, seguir, respirar, retomar o fôlego e conquistar os horizontes mais além. Os condicionamentos existem para encontrar saídas e fazer novas descobertas. A vida pulsa em forma de coração para levar bondade e paz para todos. A união e partilha nos fortalecem. A humildade e mansidão quando as praticamos, elas nos ensinam que, mesmo nas tormentas da vida, alguém de boa ação vem em socorro de nossas necessidades.
O amor verdadeiro é abnegado, desapegado, 'distaccato' diria alguns mestres espirituais. O amor na sua essência só se apega em Deus, “porque Deus é Amor”. Mas, se ama, guarda, leva e deixa lembranças por onde passa: Minas, Vale do Paraíba Paulista, Goiás, e outras mais paragens onde ancoram fragrâncias de sua vida. Por onde caminha vê e imagina coisas belas e acessíveis. Semelhante àquela famosa 'pedra que sei que existe, mas não sei onde.' A perseverança, a vontade de busca, definha, mas não acaba. E um dia encontra: o objeto, o livro, o documento, o oratório, a imagem, os dados históricos, as pessoas informantes, as sementes, as plantas, inclusive as 'florzinhas de Nhá Chica!' Até mesmo os 'Cânticos de Aninha' com a 'marca' de vintém. Ora, os antepassados interpelam através da História.
As expectativas espirituais, os livros e mestres da Espiritualidade Cristã. Os momentos sombrios e a necessidade do Kyrie Eleison, a purificação. A união com o Deus Uno e Trino. A intercessão dos anjos e da Imaculada Conceição. A vivência cristã católica. A cruz do Apostolado da Oração: lembrança da avó Pepa. O amigo padre Pedro, o homem bom e artista. A bem-aventurada Nhá Chica, seus significantes e significados. A sua importante história: uma mulata de bem que se fez pobre, com a opção de se fazer santa e conseguiu: que continua a fazer o Bem. A referência de Santo Inácio de Laconi. A piedade do padre Pio. O legado de Cora Coralina. A saga do amor pela vida, de Eugênia Sereno. A simpatia e sabedoria o papa Francisco. Os bons exemplos nos atraem e os amigos nos amparam.
Os bons momentos de lazer. O contato e o encanto com a Natureza. As águas e as pedras. O verde e as sombras. Os desenhos vistos e percebidos pela sensibilidade da poetisa. O sentir do mistério de Deus contido na Obra da Criação. As belas surpresas, as fotos, as casas, e as recordações. As tempestades: as 'águas' a cântaros, o troar dos trovões e os luzeiros dos relâmpagos. Enfim, a bonança, o silêncio que dizia tudo sem falar nada.
O encontro com pessoas sábias do Sertão: parteiras, benzedeiras e raizeiras. As orações populares, as aprendizagens, a cultura de antepassados continuam vivas. As tradições passadas de geração em geração. As casas de moradias e seus desafios. A busca de conhecimentos nos convence que: quando mais se aprende, aumenta a sensação de que nada sabe. Eis a voz da sabedoria!
A cidadania é conquista e reconhecimento. É um inteirar-se abrangente: somar-se e inculturar-se. Isto faz parte da vida de pessoas que sonham, buscam e conseguem partilhar saberes. O sonhador, numa perspectiva de fé, possui interiormente uma 'santa teimosia'. A desistência é raríssima em sua vida. Luta sempre: mesmo que seja para encontrar o diferente no fundo de um rio. O seu sonho se realizará. Então, a sua estada na Região do querido Goiás lhe proporcionou bênçãos e realizações.
O retorno ao Estado de São Paulo e a chegada com aquele arsenal de mudanças. O sul de Minas era seu paradeiro. As buscas cotidianas, idas e vindas, realizações. Emoções contidas, alegria partilhada. As músicas brasileiras. As experiências de seu marido em África, as culturas, os sonhos. À distância geográfica, a forte proximidade afetiva. O sadio elo de confiança. Para o amor verdadeiro não há distância! O vaivém das informações além mar. Os diversificados costumes africanos. A vaquinha: um sinal de memórias. Lembranças boas que contrastam com as tristezas. Quase um mito que desafia o tempo. As tristes notícias para uma historiadora: roubaram os sinos. Levaram o significante, assaltaram os significados e os sons, 'voz mística de um povo'.
Na Serra do Mar, o sítio das Cigarras: o encontro. Novamente, as surpreendentes 'florzinha de Nhá Chica' driblam o tempo e o espaço. Nas fortes experiências de orações e nos duelos espirituais, o seu anjo da guarda está presente. Ele a ilumina, a inspira e a envolve na fé e práticas cristãs. A burocracia dos atendentes, a ciência e a técnica. A oração Integra-lhe na espiritualidade. Os desafios da vida persistem cotidianamente. O susto e a busca de recursos para o esposo que foi ofendido por uma jararaca. A burocracia dos atendentes, a ciência e a técnica. A oração autêntica ajuda a discernir para o bem maior, a vida. A verdadeira espiritualidade nos humaniza.
A família, o tesouro vivo. Heranças genéticas, bons costumes e bens fraternais. Lembranças inesquecíveis do convívio com os avós, a educação recebida dos pais, a atenção especial aos netos. O passado na memória que pulsa, o presente acontecendo, o futuro em desenvolvimento. A família é naturalmente sagrada! É o ambiente propício para entender o verdadeiro sentido da vida através das pequenas coisas do cotidiano. Os 'anjos de casa' também não envelhecem.
A sua vida de pesquisadora e escritura continua, e a sua história é seu enredo. A familiaridade com seu 'anjo da guarda' prossegue zelosamente. O saudável silêncio e a solidão cultivava sua união com Deus. A sua abrangente comunicação com os semelhantes e os registros com escritos e fotografias. As devoções pessoais, os santos protetores que reforçam a fé, alimentam as esperanças e a faz disponível para o Bem comum. É bonito e eficiente ver Rita Elisa, a cada passo, inteirar-se do todo que ela pertence. Lembra-me da espiritualidade do Apóstolo Paulo: ser tudo de bom, em todos. Por isso, que de sua diversificada modalidade de missão se tem surtido bons efeitos. Suas obras se expandem, ganham efeitos, produzem e reproduzem, espalham sementes e desabrocham como o sorriso das flores. O filme 'Cora Coralina Todas as Vidas' é um dos exemplares de 'margaridas prateadas' que enfeitam o jardim de sua vida. Nele há variedades de perfumes e cores, resultados de sua dedicação e lutas sem fins. Este livro é o mosaico que retrata muitas cenas vividas por sua pessoa. Você merece todo nosso respeito!
Agradecemos pelos seus feitos e aguardamos ainda mais, outros efeitos. A sabedoria nos acena. Rita Elisa vai nos brindar com outras obras que florescerão e darão frutos, com sabores diversificados e inesquecíveis. E viva a vida!
'O anjo que está comigo saúda o que está contigo' e ambos louvam a Deus pelo bem que praticamos.
Teu humilde irmão-amigo.

                                              Ir. José Mauro Maciel, CSsR
                                                                                             Aparecida-SP, 8 de abril de 2016

 


Ofereço este livro a Deus e também àquele que me ensinou tudo o que sei. Àquele que me motivou a viver. Àquele que luta por mim, que me considera e que me entende em todos os momentos: meu Anjo da Guarda.


 
       APRESENTAÇÃO

No tempo em que eu residia na cidade de Goiás semeei em minha alma o sonho de escrever minha biografia. Ele caiu em terra fértil. Com o passar dos anos adquiri o amor a esse tipo de escrita e consegui adubar, aguar, podar e tirar as ervas daninhas para que o sonho crescesse.
Cresceu e frutificou. Através deste ensaio autobiográfico ele se torna realidade. Nele estão crônicas; textos que desenvolvi como uma colcha de retalhos, tecida em fios de Seda, retalhos unidos com elos das palavras que pontuam meus diários.
Sou uma mulher bem simples, porém tenho preferências culturais que norteiam minha caminhada: escrita e fotografia; preferências sociais: família e amigos; preferências religiosas: Santíssima Trindade, Nossa Senhora, Santos e Anjos; preferências naturais: pedra, árvore, terra, água e ar.
Minha linha de pensamento foi determinada por quem mais me conhece. Ele me deu o comando para desenvolver e finalizar essa obra que ainda não está acabada... afinal... estou viva!  Acreditar no meu Anjo desde criança e criar essa empatia, foi muito normal em minha maneira simples de pensar.
Ao ler esse livro você poderá pensar que sou uma pessoa que não tenho problemas, ou que uso meu Anjo como um gênio, que é só eu chamar e ele resolve meus problemas, não é assim. Ao contrário, hoje tento resolver meus problemas sem direcioná-los ao meu Anjo.
Explico... ao fazer isso eu mostro a ele que aprendi a ser humana controlada pelo amor que ele gerou em meu coração, pelos ensinamentos que me passou ao longo dos anos; quando eu acerto é como uma condecoração ao meu Anjo (não que ele precise disso...) e quando eu erro é pelo humano que ainda tenho que trabalhar e melhorar. Quando é necessário ele intervém, até mesmo sem eu pedir, pois não fechei essa porta em nossa convivência.
Caminho e,  às vezes... caio... me levanto; ando devagar. Houve um tempo em que tive pressa; hoje ando calmamente prestando atenção a cada detalhe do caminho, amando tudo que vejo; da flor ao espinho, do céu azul à tempestade, do calor ao frio, do sorriso às lágrimas, do sono ao despertar, cada respiração me conecta com Deus, através do que aprendi com meu Anjo.
Converso diariamente com meu Anjo; mas não cobro descobertas mirabolantes e nem fico pedindo ajuda por qualquer coisa. Já fui assim um dia; conto muitas passagens de minha vida  nesse livro, espero que me compreendam e que não me vejam diferente, sou humana cheia de erros e tenho algumas virtudes também. Uma delas é acreditar em Deus.
O meu intuito maior é o de mostrar a cada um de vocês o quanto é importante conversar com seu Anjo, é questão de AMOR.

                                                                           Rita Elisa Seda
                                                                

   
                                                                PARTE I
                                             Santa Rita do Sapucaí-MG
 
       ACREDITAR NO ANJO!

Já enfrentei muitas coisas na vida. Já passei por dissabores de todos os tipos. Já tive momentos de glória e momentos de fracasso. Nunca me deixei influenciar por pessimistas. Procuro a bondade nos amigos.
Meu aprendizado veio de pequena, quando me vi diante de uma situação extrema para uma criança: acreditar no meu Anjo da Guarda... ou não!
Eu tinha lá meus seis anos de idade, fazia o pré-primário. Numa das primeiras aulas fiquei sabendo que Deus castigava. Eu pasmei. Não era possível! Não aquele Deus que eu conhecia... mas a professora garantiu que Deus castigava. Eu contestei e falei de meu Anjo da Guarda, um Anjo 'bom'. Uma colega me chamou de lado e contou-me a novidade: 'Também existe um tal de anjo mau, o nome dele é coisa-ruim... se você não acredita vá à noite lá no fundo de sua casa, naquele portão que sai para a Rua 13 de Maio, em cima do portão fica um coisa-ruim mexendo com as pessoas que passam por ali.'
Levei um susto tão grande que corri para casa. Fui até o portão e olhei fixamente nele, um pouco distante... receosa. Tudo estava calmo. Mas, era de dia... deveria estar calmo mesmo.
Chegou à noite, fui para meu quarto, me encolhi na cama, deitada toda enrolada entre braços e pernas, como se fosse um caramujo. Lembrei-me de que meus pais me proibiram de sair de casa à noite, ainda mais perto do portão dos fundos. Pronto!... minha mente me alertou: É verdade a história do coisa-ruim. Comecei a chorar. Primeiro baixinho, depois em soluços bem altos.
        Meus pais escutaram meu choro e apareceram no quarto, queriam saber o que estava me acontecendo. Contei para eles todo o meu medo. Eles me abraçaram e me disseram que não havia coisa-ruim no portão. Só parei de chorar, quando me disseram que era para eu ir ao fundo do quintal ver com meus próprios olhos. Fiquei tão assustada que as lágrimas pararam de cair. Seria mesmo uma boa ideia?!
Levantei-me e fui com meus pais até a porta da cozinha. Dali nem mesmo se via o portão, a escuridão tomava conta, naquele tempo não tinha luz na Rua 13 de Maio. Da porta da cozinha até o portão eram uns 100 metros, era tão longe (aos olhos de uma criança).
 Suspirei fundo, segurei nas mãos de meus pais e disse: vamos!
Ainda segurando a minha mão, meu pai agachou-se e minha mãe também; eles acariciaram os meus cabelos e disseram: Ritelisa, você vai sozinha. Precisa ter coragem e vencer esse medo.
Uma voz gritou dentro de mim: Imagina... eu?!só?! Não vou mesmo!... ir com meus pais tudo bem, papai vai colocar esse coisa-ruim pra correr, mas eu sozinha não tenho tanta força assim pra isso, não.
 Silêncio dos inocentes.
 Depois escutei uma voz suave me incentivando: Vai sim, você consegue! 
Era meu Anjo da Guarda me ajudando, a voz dele era tão animadora que não pensei duas vezes, larguei as mãos de meus pais e me animei a dar o primeiro passo.
Olhei para a escuridão. Olhei para meus pais, eles sorriam para mim. Saí bem devagar... passei pelo tanque de cimento, pela casinha dos fundos, pelo galinheiro, pelo pé de figo, cheguei até os enormes tambores, eram maiores do que eu, passei por entre eles e, de repente... o grande portão de lata.  Ele parecia mesmo enorme. Aproximei-me dele e arregalei meus olhos.
 Pisquei ao olhar para cima. Somente a luzes da lua e das estrelas iluminavam o lugar. Abaixei o olhar e com muito cuidado, sem fazer barulho eu coloquei a minha pequena mão no portão. Eu tremia... tremia muito.
Depois olhei novamente para cima e fui contando as estrelas no céu e me recompondo. Parei de tremer, tirei minha mão do portão, subi num tambor e passei as mãos em cima do muro. A procura de algo, mesmo que eu não soubesse o que ou como era. Nada encontrei. Desci do tambor, parei em frente ao portão. Fiquei assim, fitando o portão por alguns instantes, como se eu enfrentasse um gigante. Uma paz pairou no meu mundo, um silêncio que só é possível perceber com a força do coração. 
 Cheguei mais perto do portão e falei em voz alta: Não há coisa-ruim aqui. Não preciso ter medo! E com essa certeza dei um enorme tapa no portão que estremeceu e o barulho ressoou longe.
 Voltei cantando, dando três passos e um salto de tanta alegria. Abracei meus pais que me esperavam na porta da cozinha.[1]
Essa experiência me ajudou a entender que meu Anjo da Guarda está sempre ao meu lado, e posso contar com ele em qualquer situação. Aprendi que para ouvi-lo foi preciso estar em paz comigo e acreditar na força do amor dele por mim, consegui apurar meus ouvidos para escutar o som que vinha do mais profundo clamor de minha alma. Foi tão nítida a voz de meu Anjo nesse dia que, com medo dele não mais falar comigo, ao me deitar e ficar sossegada na cama, eu disse ao meu Anjo que minha maior alegria foi escutá-lo.
Fiquei em um misto de euforia e paz, por isso  não conseguia dormir. Eu falava sem parar. Na verdade eu queria mesmo era conversar com meu Anjo, mas ele estava calado, como se me dissesse: Ritelisa... é hora de dormir! Eu até o questionei se Anjo dormia ou não. Ele não me respondeu. 
Antes de adormecer eu entendi que esse vínculo não poderia ser quebrado e que eu deveria conversar com meu Anjo todos os dias. Assim foi o começo de uma grande amizade.
No livro Cada pessoa tem um anjo o terapeuta e monge beneditino Anselm Grün analisa que as crianças várias vezes ficam com medo da noite, porque é na escuridão que elas afundam em um mundo onde se sentem ameaçadas por monstros.
 Certa vez li uma entrevista da Elisabeth Kübler Ross, notável médica, onde ela dizia que tinha contato constante com Anjos da Guarda. Eles a ajudavam, eles a instruíam, eles a curavam quando ela tinha problemas de saúde. Ela afirmou que ninguém consegue sobreviver sem a ajuda do Anjo da Guarda, que algumas pessoas sabem que possuem um Anjo, enquanto que outras nem desconfiam. Ponderou que as crianças quando vão dormir têm sempre um tempo de conversa com seus Anjos. Porém, seus pais ao perceberem influenciam: ‘pare de falar sozinho’, ‘não acredite mais nessas histórias’, ‘agora você está grande’ (Jovanovic,144). Então, por causa desses mandos dos pais, são pouquíssimas as pessoas que mantiveram contato com seu Anjo da Guarda.
         Fiz  e faço questão de, a cada dia, cuidar dessa semente que brotou em meu coração quando ainda criança, sempre a nutrindo com orações e agradecimentos ao meu Anjo... sempre! 

 
                                                                                               Foto: Eu!
DICA: Se você ainda não tem intimidade com seu Anjo da Guarda, pratique pelo menos dez minutos por dia, no mesmo horário, a busca de lembranças infantis onde o Anjo provavelmente o ajudou. Deite-se, ou mesmo sentado, relaxe a mente e peça ao seu Anjo para lhe ajudar nessa lembrança. A primeira que lhe aparecer será a porta para a conexão entre você e o seu Anjo da Guarda. Agradeça ao Anjo por abrir a porta e se coloque à disposição dele. 
        O SILÊNCIO É UMA ORAÇÃO!

       Depois de, à noite, bater no portão, jamais tive medo do escuro. Muito ao contrário, sempre gostei de me deitar no chão, portas e janelas fechadas, com as luzes apagadas e sem uma frestinha de luz. Isso me leva ao silêncio absoluto, ao encontro com minha parte mais interior.
       A escuridão não é falta de luz, escuridão é o caminho da procura de si mesmo, pelos outros sentidos; os tornando mais nobres. Pois, o sentido da visão totaliza, e a falta desse sentido, cria diversidades, fazendo com que usemos o tato, o olfato, a audição e o paladar para sabermos onde estamos.
       Desenvolvi essa maneira peculiar para entrar em sintonia com meu Anjo. Têm certos momentos em que o ‘silêncio da escuridão’ vale mais do que mil palavras. Anselm Grün diz que ‘existe dentro de nós um lugar protegido. É o espaço interior do silêncio, onde o Anjo está conosco, onde o próprio Deus mora conosco’(Grün, 58).  Encontrar esse lugar é vital para desenvolvermos um colóquio com nosso Anjo da Guarda.
       Sempre procurei essa minha total solidão... em qualquer tempo e lugar. No dia a dia, mesmo dormindo em um quarto pequeno, onde mal cabiam três camas; uma para minha avó, outra para minha irmã e uma para mim... que, na maioria das vezes, era ocupada por um parente e eu dormia junto de minha avó, por eu ser a menor, cabia na cama  com ela; mesmo com tanta gente na casa e no quarto, eu arrumava um jeito de apagar as luzes exteriores e andar pelos caminhos de minha alma.
       Mesmo quando em férias, na casa de parentes, ou no sítio... não me importava, diariamente eu simplesmente me transportava para esse momento único, que não demorava mais do que 10 a 20 minutos quando no entorno havia muita gente; ou 1 hora, quando ao meu redor não havia um ser humano.
       Todas às vezes eu me deliciava em estar com meu Anjo da Guarda. Sempre achei isso normal e entendia que era desta mesma forma com todas as pessoas. Sempre coopero com o momento de silêncio das pessoas, seguramente elas param alguns instantes do dia para conversar com o seu Anjo.
       Hoje, ao ler os ensinamentos do monge beneditino Anselm Grün, fico mais ciente de que essa compreensão deu energia vital à minha alma, sinto alegria ao comungar sua sabedoria de que ‘a criança possui em si algo de original, que não pode tão facilmente ser falsificado de fora. Mas, podemos também dizer que é o Anjo que faz a criança entrar em contato com seu verdadeiro eu e lhe ensina a pensar com autonomia’ (Grün, 90).
       E, para isso, é preciso de um tempo diário de silêncio interior, onde podemos ouvir nosso Anjo. ‘Este Anjo se alegra quando a criança vê a realidade da maneira como ela a percebe em seu coração. E, este Anjo, também se alegra quando, depois de muitas voltas e muitos erros, ela consegue retornar e encontrar o caminho que lhe corresponde’(Grün).
        No contexto dessa realidade, minha infância foi alegre (eu sorria sempre), nada me perturbava. Não me lembro de traumas e o que para alguns foi momento de pânico (eu sempre me escondia em algum lugar quase inacessível), era minha procura por um silêncio externo para poder cultivar meu colóquio com o meu Anjo. 

                         Foto: Eu sentada na escada que dava acesso ao quintal.
DICA: Deite-se ou mesmo sentado, relaxe a mente e peça ao seu Anjo para lhe dar alguns instantes de plenitude divina. Pratique esse exercício pelo menos dez minutos por dia, no mesmo horário. 

           ECOS DA FRATERNIDADE!

       Era costume na minha infância, na noite de Natal, colocar um sapato debaixo da árvore para que o Papai Noel deixasse nele um presente. Meu sapatinho de verniz branco ia para debaixo da árvore de Natal. Árvore que era um lindo pinheirinho que, meu pai, minha mãe, meus irmãos e eu, buscávamos percorrendo a estrada de terra que dava acesso ao município de Delfim Moreira - MG. Essa busca era uma alegria que transcendia nossa vã existência.
       O dia de Natal era o dia mais curto e o mais comprido do ano. Explico. Curto porque não esperávamos nem o sol desaparecer para declararmos que já era noite. No fim de tarde, colocávamos os sapatos embaixo da Árvore de Natal e íamos para a cama. Na cama rezávamos para o sono chegasse e dormíssemos, pois Papai Noel só entregava presentes para quem estivesse dormindo. Dormir que era bom (ou ruim...) nenhum de nós conseguia. O dia ficava comprido. Durante o tempo em que eu ficava deitada, fingindo que dormia, com os olhos fechados, eu aproveitava para conversar com meu Anjo. Jamais fiz uma pergunta sequer a respeito do que eu ia ganhar de presente naquela noite de Natal, mas sim, eu contava para ele minhas descobertas no quintal, como se ele não soubesse...
       Só sei que dali a algumas intermináveis horas, fingindo que dormia, escutava um ho!...ho! ...ho!.. e uma tossida bem forte na sala. Era um alerta geral, todos acordávamos e corríamos até a árvore, e lá, encontrávamos um presente em cada sapato. Cada um desembrulhava seu pacote, sob o olhar de nossos pais. E, normalmente, mesmo sabendo que isso ia acontecer (ou até mesmo porque sabíamos o que ia acontecer) nos surpreendíamos com o que encontrávamos no fim do embrulho. Sempre, alguma coisa boba, um brinquedo quebrado, um livro rasgado, um sapato velho, um penico, uma caixa vazia, ou alguma coisa assim. Isso fazia a gente rir, além de nos acalmar; pois tínhamos de ter paciência, o tal ‘presente’ era embrulhado em várias camadas de papel jornal e tínhamos de tirar uma por uma... era uma festa.
       Depois, cada um voltava para cama com seu caco de presente, jamais chateado. Deitávamos novamente e apenas bem mais tarde escutávamos um ‘Feliz Natal’ bem alto. Papai e mamãe, na sala, esperavam para ver nossas carinhas de alegria, em cima de cada sapato, sempre tinha um bonito embrulho de presente.
       Lembro-me das minhas primeiras bonecas e de minha ovelhinha de plástico, tão branquinha, tão linda. Em todas as épocas, mesmo quando ainda não tinha idade para ler, havia embaixo do sapato um embrulho quadrado – um livro.
       Cresci com alegria de amar tudo que eu tinha. Até mesmo, quando dei pela falta de meu brinquedo favorito, minha pequena ovelhinha branca, eu a imaginei passeando pelo céu azul, no meio das nuvens, pulando feliz. Na verdade, eu criei a fantasia de que ela brincava com meu Anjo. Na minha percepção de criança, brincar era sinônimo de amar.
       Certa vez, eu li que ‘o brinquedo tem a virtude mágica de arrancar a criança, de todas as idades, das prisões do tempo’ (Souza, 64) e compreendi que o tempo perdido com brincadeiras não é perdido, é simplesmente o mais puro eco da eternidade. Minha brincadeira favorita era imaginar meu Anjo brincando no céu... com minha ovelhinha.
       Hoje, sei que ser criança não é uma etapa da vida, aprendi que ser criança é um estado de espírito[1].



  Fotos: Eu e meu carneirinho. Obra de arte naïf da artista Sonya Mello: Os Anjos não envelhecem!
 
DICA: Continue dedicando um tempo com seu Anjo. Deite-se, ou mesmo sentado, relaxe a mente e peça ao seu Anjo para lhe dar alguns instantes de plenitude divina. Pratique esse exercício pelo menos dez minutos por dia, no mesmo horário.

       LIVROS PRA QUE TE QUERO!

Na infância, meu maior prazer era passar horas lendo. Em nossa casa, havia um quarto que tornou-se uma biblioteca, feita com muito carinho. As estantes de madeira iam até o teto. Somente, numa parede não havia estante, era onde ficava uma cama.
A disposição dos livros era sempre a mesma. Organização de papai, professor de História. Todo dia era nesse aposento que ele preparava as aulas e sabia de cor onde buscar os livros. Geralmente os livros de História ficavam bem à mão; na parte baixa da estante, na primeira e na segunda prateleira. Eram tantos livros que até ficavam dispostos em duas fileiras; os da frente (os mais requisitados), e os de trás (peças raras, antigos). História do Brasil, História Geral, Mitologia, belíssimos Atlas, compêndios, livros didáticos e dicionários. Tudo à vista.
A partir da terceira fileira ficavam os livros infantis. Histórias da Carochinha. Várias versões do Gato de Botas; Pinóquio;  A Bela Adormecida; Branca de Neve; Gúliver e os Gigantes; Os Três Porquinhos; Cinderela; e pode apostar... muitas outras histórias infantis. Dessa fileira, os que eu mais gostava de ler eram as obras de Monteiro Lobato. Os livros Reinações de Narizinho e A Chave do Tamanho eram os meus prediletos. Também lia Taquara-Póca (Francisco Marins) e A Turma do Pererê (Ziraldo).
Daí por diante, nas prateleiras, os livros ficavam em difícil acesso. Porém, eu dava um jeito, subia num banquinho e, às vezes, subia direto na estante. Escalava, com cuidado e com muita calma, de prateleira por prateleira. Mas, até meus dez anos de idade, os livros das prateleiras de cima não despertaram minha curiosidade. Saciava minha fome de leitura com as histórias infantis.  Meus irmãos, também eram assíduos frequentadores da biblioteca.
Entre os nove e os dez anos, eu já lia O Conde de Monte Cristo, O Homem da Máscara de Ferro e, também, várias histórias mitológicas: Psiquê, Eros, Caronte, Prometeu, Pan, Zeus, Diana, Ulisses, Penélope; todos os deuses e personagens greco-romanos floresciam dentro de mim. Apaixonei-me por eles (até queria ir para a Grécia), nos carnavais (dessa época), me fantasiava de deusa grega. Também, lia muita poesia. Decorava poemas de Cecília Meireles, Bastos Tigre, Henriqueta Lisboa, só para declamá-los em festas e encontros familiares (eu e minha irmã Letícia).
A coleção O Mundo da Criança era cobiçada por todos lá em casa.
Veio à época da adolescência. Os livros mais picantes eram proibidos. Nem fotonovelas, podíamos ver; às vezes na escola, eu folheava alguma delas, (cheguei a ganhar algumas fotonovelas e as deixar escondidas debaixo do colchão da minha cama), ficava rubra ao ver fotos do casal se beijando (que disparate). Nessa época comecei uma leitura mais introspectiva... conheci os escritos de: Hermann Hesse, Saint-Exupéry, João Mohana, Florbela Espanca,  Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, Fernando Pessoa; eles me abriram a janela dos sonhos e olhei horizontes distantes. Decorei muitos poemas... até hoje eu os sei de cor.
A leitura é um ato solitário. Para quebrar um pouco a solidão, meus irmãos e eu inventamos uma brincadeira. Durante a infância e, até um pedacinho da adolescência, nos divertíamos assim... íamos à biblioteca (especialmente em dias de chuva), e tirávamos a vez. Quem ganhasse dizia o nome de um livro e, quem o achasse primeiro, era o dono da pergunta. Isso foi fácil demais. Todos nós sabíamos onde encontrar o livro. Melhoramos a brincadeira... dizíamos uma frase do livro, ou um pedaço da história. Pronto! O corre-corre era mágico. Sempre tinha algum de nós que já o havia lido e, com isso, ao pegar o livro nos contava um pouco da história, despertando nossa curiosidade. Certamente líamos o livro, depois.
Essa brincadeira serviu para apurarmos o gosto pela leitura. Líamos tanto, que nos aniversários e natais, nossos presentes eram livros. Na verdade ainda são... ainda bem.
Ainda hoje, tenho em minha biblioteca, os livros que ganhei de meus pais; até mesmo o primeiro: Aventuras de Pinóquio, Editora Livraria AGIR, 1960; gosto de vê-lo do jeito que ficou... aos pedaços!... e com algumas inscrições minhas, que precisaria de um ‘manual de paleografia ritelisiano’ para decifrá-las; são os registros de meus primeiros ‘rabiscos’.
Sou uma leitora voraz. Só viajo com um livro na bagagem. Se eu for passear, passar o dia fora, levo um livro comigo. Na fila do banco... estou lendo. No consultório, devoro as revistas médicas. Até em restaurantes, eu leio jornais e folhetos. Não é mania. É prazer. O prazer de aprender, de descobrir algo novo, de viajar na imaginação. 


 

               Fotos: Meu primeiro livro... Pinóquio.

 
DICA: Procure ficar em silêncio. Deite-se, ou mesmo sentado, relaxe a mente. Respire fundo. Peça ao seu Anjo da Guarda para lhe ajudar a encontrar um livro que lhe traga a paz, que sirva para complementar o Amor de Deus em sua vida. Se ouvir uma interlocução, aceite de imediato a mensagem, sem duvidar; se o silêncio for resposta, não se preocupe, terá surpresas agradáveis ao passar dos dias. Não existe oração sua que seu Anjo não escute, ele o conhece e sabe do que você precisa. 

        EXUPÉRY NO DESERTO DE UM SONHO!

 Quando eu tinha 12 anos de idade, ganhei de meus pais, em meu aniversário, o livro Terra dos Homens, do famoso escritor Antoine Saint-Exupéry. Devorei o livro e marquei com lápis de cor amarela, as frases que mais gostei.
A parte O Avião e o Planeta, me levou ao delírio, li e reli várias vezes. A pane no avião durante a rota Casablanca – Dacar fez com que Saint-Exupéry pousasse no deserto e se deliciasse em marcar seus passos em um território onde homem algum jamais havia pisado. Ele estava sobre ‘uma areia infinitamente virgem’ (Exupéry,47), pegou um pouco dessa areia e sentiu como ela era pura; imaginou que seria ele o primeiro homem a escorrer pelas mãos a areia daquele deserto, na verdade diante dele havia uma vastidão de poeira de conchas moídas... que se tornaram areia. Uma estrela apareceu no céu e Sant-Exupéry se deitou na duna para contemplar a noite que chegava; mesmo com o avião em pane encontrou tempo para admirar o céu que o protegia. Foi quando, percebeu que estava deitado sobre ‘um lençol imaculado, estendido sob a pureza do céu’ (Exupéry), seu coração avisou que estava no limiar de uma grande descoberta. Ele olhou ao seu entorno e viu a poucos metros um pedaço de pedra negra. Ficou admirado, pois ali era território apenas de conchas moídas, areia pura, branca; a presença da pedra era algo muito singular. Levantou-se e foi até a pedra; se abaixou e pegou o achado: ‘um pedaço de pedra dura, negra, do tamanho de um punho, pesada como metal, em forma de lágrima’ (Exupéry).
Seu relato no livro ficou maravilhoso; disse que ao se estender um lençol embaixo de uma macieira, só pode receber... maçãs; e que, ali onde ele estava, naquele deserto, era igual a um lençol estendido sob as estrelas. Então, aquele lençol só poderia receber a poeira dos astros...  aerólitos! Sim, era o que ele tinha nas mãos. Acrescentou que ‘nunca nenhum aerólito havia mostrado a sua origem com tal evidência’ (Exupéry). Na presteza dessa conclusão, ele procurou, com o olhar, se havia mais aerólitos por ali e, por incrível que pareça, percebeu vários outros caídos, na ‘razão de aproximadamente um por hectare’ (Exupéry). Catou cada um deles pensando na lenta chuva de fogo que trouxe, até o deserto, esses fragmentos de estrelas. 
       Nessa época, depois de ler o livro, procurei na Enciclopédia Mundial uma ilustração de um aerólito, encontrei uma muito parecida com a descrição de Exupéry e, também encontrei a definição científica do que era um aerólito. Lembro-me bem!... me deitei no sofá vermelho da sala, olhei a figura do aerólito, em seguida fechei os olhos e me vi na escuridão de meus pensamentos, no silêncio de minha alma, fui até meu lugar de oração... depois, imaginei-me segurando aquele aerólito. 
      Meu desejo, em ter uma estrela cadente foi tão grande, que meus olhos ficaram marejados. Desde esse momento no meu coração pulsou uma veia de arqueóloga, que me comandava escavar o quintal. Não me importava com olhares interrogativos, por causa de minha mania. Sempre com uma colher cavando buracos. 
Houve um tempo, em que eu enterrava passarinho morto, moedas, colheres quebradas e conchas no meu pequeno e fictício sítio arqueológico, só para desenterrá-los dali alguns meses, como se fossem brilhantes descobertas (o quintal de casa era enorme na visão de uma pré-adolescente). Depois, tudo que eu encontrava colocava dentro de uma caixa de sapatos, pequena, que eu guardava embaixo de minha cama.  
Durante alguns anos, pelo menos cinco anos, eu lia mensalmente essa passagem do livro e ria de minha vontade de um dia encontrar poeira de estrela cadente. Até marquei, com um lápis amarelo, essa parte no livro. 
Melhor era quando meus pais nos levavam, eu e meus irmãos, para o sítio; ali ficávamos até tarde da noite, deitados na grama, olhando o céu, apontando para as estrelas e observando a lua. Até mesmo um telescópio papai comprou para nossas investidas extraterrestres, para nosso deleite de observadores dos astros. Eu continuei sonhando com meu aerólito, com minha estrela. Sabia que era algo impossível de acontecer e, por isso, não comentava esse sonho com ninguém... nem mesmo com meu Anjo da Guarda. Afinal, ele provavelmente iria pensar que eu sonhava demais.  O meu encantamento por essa história é tanto, que mesmo depois de ler O Pequeno Príncipe, meu sentimento maior, sempre, é para Terra dos Homens. Sei que o legado do Pequeno Príncipe tem ali sua raiz.

 


 Foto: Livro Terra dos Homens que ganhei aos 12 anos de idade.

 
DICA: Em oração, peça ao seu Anjo da Guarda para lhe ajudar a lembrar de momentos em sua infância em que você foi extremamente feliz. Pegue uma folha branca, tipo sulfite, escreva pelo menos 10 momentos, não precisa se lembrar de todos em um só dia. Faça esse exercício todos os dias, até completar a folha com todos os itens. Depois, dobre a folha ao meio e a guarde em um lugar sagrado para você; pode ser dentro da Bíblia, em um diário seu, no seu cantinho de oração, embaixo de um santo de sua devoção ou de uma imagem de Anjo. 
        O  CHOQUE

      Eu tinha apenas 13 anos de idade e junto com meus irmãos conversávamos no quintal de casa. Nossos pais geralmente passavam o dia em salas de aula, trabalhando para nosso sustento.
       Sempre fui de acreditar e fazer o que me mandam. Foi quando um dos meus irmãos me disse para me dependurar no fio na área de serviço na casinha anexa à casa grande. Eu sempre fui de estatura pequena e para me aproximar do fio, precisei subir no enorme tanque,  feito de tijolos e cimento que, algumas vezes, servia de piscina para nós. 
        Então ele me disse: 'Molhe as mãos na água, assim você ficará mais grudada no fio'. Eu molhei as mãos e olhei para o fio desencapado, por onde passava a energia elétrica. Meu medo era que o fio não aguentasse meu peso, ele parecia frágil, e eu podia cair daquela altura.
        Sem pensar três vezes eu me joguei para cima para alcançar o fio. Ao toca-lo com as mãos molhadas senti uma enorme descarga de energia em todo meu corpo, uma luz apareceu e tive a certeza que era meu Anjo que me pegou em seus braços. Senti a proteção dele. Depois  ele me levou até o chão onde fiquei desacordada por alguns minutos, poucos minutos. 
         Segundo fiquei sabendo depois, meu irmão correu até a caixa de luz principal e desligou o disjuntor para que eu desgrudasse do fio.
          Aquela sensação de paz nos braços do Anjo eu tenho até hoje. Ela ameniza minhas dores, meus medos, meus cansaços, meus dias de choque com o desconhecido. O que era para ser trágico tornou-se bálsamo.


 
DICA: Peça ao seu Anjo para ensinar-lhe a confiar no amor sem se importar com a dor, a colher uma rosa sem se ferir no espinho, a sorrir mesmo que pareça loucura. Seu Anjo atenderá sua oração.

 A LATA DE SEGREDOS DE MINHA AVÓ

Convivi treze anos com minha avó materna – Sá Pepa. Demorou muitos anos para eu saber que o nome dela era Josefa. Italiana, da Sardenha. Com ela aprendi a rezar o Terço. Na Salve Rainha, ela sempre engolia algumas palavras e, outras, eram em italiano. Eu gostava de rezar desta forma. Hoje, rezo da maneira certa, mas, de vez em quando...
Dormíamos vovó, minha irmã Letícia (um ano de idade, mais nova que eu) e eu, num quarto pequeno. Onde só cabiam as camas, um velho guarda roupa de duas portas e um criado-mudo. Tudo apertado. O criado-mudo ficava perto da cama da avó Pepa. Em cima dele, havia uma lata, dessa bem grande e retangular; porém, a tampa era redonda. Lata que vinha com bolachas de Jacarehy.
A lata era o bauzinho de segredos da minha avó. Ali, ela guardava de tudo. Ninguém podia, nem mesmo, chegar perto da lata. Nós, lá em casa, sempre respeitávamos isso. Teve dias em que eu quis abrir aquela lata e ver o que havia lá dentro. Cheguei até mesmo a pegá-la, mas ao consultar meu Anjo, veio rapidamente à resposta: ‘Ritelisa você não deve fazer isso’. Voltei a lata para o lugar dela. Obediência é questão de educação.
       Quando tínhamos visitas (o que sempre acontecia) saía da lata um presente. Vovó não se importava que nós a víssemos mexendo na lata. Não podíamos é... mexer na lata.
Um casal de mendigos, Jiló e Berinjela, passava em casa pelo menos duas vezes por semana para receber dinheiro, conversar e comer. E, da lata, vinha uma esmola. A avó entregava a nota escondida, na mão. Só ela podia fazer isso. Quando os netos chegavam... da lata saíam bolachas.
O barulho da lata sendo aberta, fuçada e tampada, ecoa até hoje dentro de mim.
       O tempo foi passando. Nós fomos envelhecendo e a lata também. Foi perdendo a tinta verde, foi enferrujando. Cada vez mais, vovó tinha de esmurrar a tampa para fechá-la.
Mesmo quando avó Pepa ficou doente (vários meses na cama), nós não mexemos na sua caixinha de segredos. Voto de obediência e de respeito.
Minha avó morreu com mais de 80 anos. Morreu em casa.  Dias depois, eu sentada ali no quarto olhava a lata. A avó Pepa se foi; a lata ficou. Peguei a lata. Segurei-a no colo por alguns minutos. Passei o dedo pela tampa enferrujada e torta. Abri...
Um cheiro forte exalou no ambiente. Cheiro de avó. Fui tirando aos poucos... bem em cima, estava meio saco de bolachas e um saquinho de pano (tipo sachê) com cravos da índia.  Depois, tirei um par de meias e um lenço de cabeça. Mais no fundo havia um terço de caroço de azeitona, uma Cruz de bronze que eu acreditava ser do Apostolado da Oração, algumas medalhas, santinhos e muitos grampos enferrujados. 
Debaixo de tudo, bem no cantinho, peguei um pacotinho amarrado com um lenço de bolso. Abri o pacote. Era dinheiro. Dinheiro da época dos réis. Tão antigo e tão valioso para minha avó, seu tesouro. Jiló e Berinjela certamente não passavam ali pelo dinheiro... a conversa amiga, o prato de comida, as frutas, isso fazia a diferença[2]. Naquela época, herdei um pacotinho dessas notas... mas meu coração ansiava mesmo era pela Cruz de bronze.





Foto: Cruz da Fita Apostolado de Oração que pertenceu a minha avó. Avó Pepa, eu e meus irmãos. 

DICA: Mesmo que tenha completado a lista de momentos felizes na infância, continue fazendo o exercício de lembranças boas, mas não precisa mais escrevê-las, apenas agradeça a Deus pela lembrança. Se vier em sua mente uma lembrança ruim diga a si mesma que essa lembrança está perdoada e logo procure uma lembrança que lhe traga felicidade. Peça ajuda ao seu Anjo. 
       O OVO DE CLARICE!

 A melhor idade de uma mulher é os 13 anos, ela não sabe se ainda é criança ou passou a ser jovem, fica escondida em uma falésia de sentimentos entre esses dois mundos.
Ano de 1973, em meu aniversário, meus pais me deram um livro pocket, fácil de levar na bolsa (sempre cultivei o costume de carregar um livro comigo em minhas andanças), fácil de ler (letras grandes), pequeno (apenas 184 páginas), obra da escritora... Clarice Lispector. Ao desembrulhar o presente e analisar todas essas características, eu atentei para a capa; um corpo de mulher que no lugar da cabeça tinha uma rosa; o título: A Imitação da Rosa
 Na mesma noite, comecei a ler o pequeno livro. Li a primeira página, a segunda e a terceira... parei... não compreendia a história. Suspirei fundo: ‘Pôxa meu Anjo, está difícil... dá uma luz pro meu entendimento’. Voltei à leitura e me arrastei de palavras em palavras até a 13ª página, terminei a leitura de O Ovo e a Galinha. Suspirei, pensei, repensei e cheguei à conclusão: ‘Sou burra demais... não entendi nada desse conto...’

Anjo calado é segredo que não pode ser ainda compartilhado. Aceitar o silêncio de um Anjo é respeitar o seu domínio, é acreditar sem ver. É dar um basta ao questionamento.
Para quem tinha o desejo de ser escritora e, já rabiscava, algumas poesias em um caderno brochura, esse não entendimento ao conto foi como jogar água na fogueira. Só não chorei porque finquei em minha consciência, a determinação de um dia ler, com mais calma, e tentar entender o conto... e ponto final.
Parei com meus escritos, lacrei meus cadernos de poesias e de minhas crônicas. Apenas continuei meus diários. Mas, não deixei o livro A Imitação da Rosa fechado. Li todos os outros contos e entendi cada um deles. Apenas aquele primeiro me doía à cabeça. Talvez um dia... talvez! 

                                        Fotos: Livro A Imitação da Rosa, que ganhei aos 13 anos de idade.
 
DICA: Deite-se, ou mesmo sentado, relaxe a mente e peça a presença de seu Anjo da Guarda. Lembre-se de algo em sua vida que ainda não tem entendimento. Peça para seu Anjo lhe dar sabedoria e discernimento a esse respeito. Aguarde sem muita ansiedade, pratique pelo menos dez minutos por dia, no mesmo horário, em busca de lembranças e sempre pedindo ajuda ao seu Anjo. Crie essa intimidade com ele.
          AS FALANGES DA MÃO!

       Durante a época de minha adolescência, já com 14 anos de idade, ainda me entristecia o fato de não ter crescido tanto (pelo menos o tanto que os outros queriam) e, por isso, me chamavam de ‘pequenininha, baixinha etc’.
  Houve uma época, em que achei que eu e minha irmã íamos ficar do mesmo tamanho. Pensei até, que podíamos nos denominar ‘gêmeas’, pois nossa mãe fazia questão de que, nossas roupas fossem iguais, ou quase iguais (mudava apenas a cor). Não demorou muito tempo, para minha irmã me passar no tamanho; aliás, com o tempo... todos meus irmãos me passaram.
Eu continuei com os apelidos de ‘pequenininha’, ‘tampinha’ e 'magrela'.
Certo dia, quando adolescente, me dei conta de que eu era franzina demais, na visão dos amigos e dos colegas de escola; eles faziam questão de frisar essa minha estatura como se fosse algo ruim, uma mácula no meu visual. Tranquei-me no banheiro de casa e chorei.
Foi quando a voz suave de meu Anjo da Guarda se fez presente.
Ele me explicou que minha estatura era uma qualidade. Pediu para eu mostrar minha mão direita. Estiquei o braço, abri a mão diante de meus olhos, encharcados com lágrimas. Meu Anjo explicou: Em sua casa vocês são cinco irmãos. Como nos dedos da mão. Cinco dedos diferentes, cinco diferentes irmãos. Seu irmão mais velho e sua irmã mais nova passaram o seu tamanho rapidinho, cresceram, desenvolveram-se. Já você ficou do tipo mignon, pequena e magra. Por isso, você é o dedo mínimo.
Verdade, Kico e Letícia me passaram rapidamente. Abri mais a mão diante de meus olhos. Pisquei para espantar as lágrimas e poder ver direito minha mão. O Anjo continuou:
Veja bem... cada dedo tem características diferentes. Eles têm três falanges... humilde infantaria. Três dobras para se curvar. Senão, seriam sempre eretos, altivos, orgulhosos. Mão espalmada só serve para bater. Mas, para fazer carinho, para tocar instrumento, para escrever, para pintar, para cozinhar, para costurar... afinal para tudo que enaltece, os dedos têm de reverenciar, têm de se curvar’.
       Admirei, com carinho, a minha mão. O Anjo continuou: ‘Agora... olhe bem. Veja o tamanho dos dedos. Não há um do tamanho do outro. Todos são distintos. Comece a fechar a mão, bem devagar, como em câmera lenta. O médio (dedo do meio) começa a se curvar, quando ele chega a ficar do tamanho do indicador; então, o indicador começa a se curvar. Quando os dois ficam do tamanho do anular é que os três se curvam juntos. Depois, demora um pouquinho mais... e os três ficam do tamanho do dedinho. Aí se dobram juntos. Fecham a mão. Olhe bem... todos estão do mesmo tamanho. As unhas ficam em fileira, formando uma corrente. Unidos podem tudo’.
Fiquei abrindo e fechando a mão durante alguns minutos. Agradeci meu Anjo e saí do banheiro, cantando.
Meus outros dois irmãos, (na época Irene tinha apenas dois anos de idade e Ivon Júnior nove anos) também me passaram em estatura durante a fase adulta deles, me mostrando que o comentário de meu Anjo era uma profecia.
Depois disso, nunca mais chorei por causa da minha altura. Sinto-me privilegiada por ser pequena. Amo minha estatura e não me importo com os que me chamam de ‘pequena’.
Gosto de fazer esse exercício de dobrar os dedos das mãos, eu o faço várias vezes quando preciso. Isso me mostra que só vivemos bem em comunidade.
E veja bem o dedo mínimo; ele é o último que se curva. Os dedos grandes precisam de mais tempo; de mais esforço para se abaixar, para serem humildes. Quanto maior, mais difícil se humilhar. E, o dedinho, só aguarda que fiquem do tamanho dele para se curvar, também. Unem-se para trabalhar juntos. Isso é a vida.
O dedão... ele é o primeiro, completa a união. Seu tamanho permite que fique de pé. Ele é apoio constante. Alavanca para a vida.
Aprendi a me deixar levar pelo meu Anjo da Guarda. Anselm Grün escreveu que ‘a fé que temos no Anjo da Guarda liberta-nos da fixação sobre os fatores doentios de nossa vida. Ela nos faz também descobrir as energias benéficas que se encontram em nós’ (Grün, 24). Encontrei a essência de minha estatura e me beneficiei com ela.                                      


                                                       Foto: Eu, minha mãe e meus irmãos.


DICA: Sente-se ou deite-se, depois relaxe a mente. Peça a presença de seu Anjo e faça uma linda saudação a ele. Seu Anjo o conhece antes mesmo de você nascer, por isso peça a ele que lhe auxilie até mesmo em relação ao seu físico; se algo lhe incomoda, conversa com seu Anjo e ele lhe mostrará uma ótima solução.  

       ADOLESCENTES ESTIGMATIZADOS!

Juventude... com dezessete anos eu fui dar aula. Dar aula sobre o amor de Deus. Ensinar a amar. Estava pronta para isso, era minha decisão, levar amor a quem precisava. Dar um pouco de mim. Nessa época, eu ia ao asilo conversar e visitar os velhinhos, à cadeia levar roupas e café para os presos. Porém eu queria ajudar mais pessoas. E assim, depois de conversar e receber o apoio de meus pais, fui dar aula na FEBEM. Fácil, né?!...achei o caminho.
No primeiro dia, uma terça-feira, a Kombi me pegou no horário. Lá fui eu, felicidade total; roupa nova, tênis novo, Bíblia embaixo do braço, giz e apagador. Nada faltava.
Cheguei à fazenda onde os internos moravam. Uma fila de rapazes me esperava. Meninos dos dez aos dezessete anos. Quietinhos me olhavam. Fomos para a sala. O guarda me apresentou à turma. Eles, olhos baixos, continuaram mudos. Ninguém encarava ninguém. Fáceis, eram dóceis crianças. Fiquei tão emocionada, eles pareciam tão desprotegidos que era impossível crer que um dia cometeram algum delito. Olhei cada um nos olhos. Agradeci ao guarda e ele saiu do recinto deixando a porta semiaberta.
Virei-me para o quadro negro para escrever o Evangelho do dia. Silêncio total. Dali a pouco, furtivamente ao voltar os olhos para a turma... os peguei em uma algazarra geral. Quietos, uns mordiam os outros, davam chute, beliscões e tapas. Tudo sem barulho; assustaram-me, dei um grito. O guarda voltou, viu tudo e ali ficou de plantão até terminar a aula.
Tentei o Querigma. Primeiro falei do amor entre si (riram debochados); li as bem-aventuranças (olhavam para o teto); apelei para o amor de Deus (me fuzilavam com o olhar). Alguns dormiam... outros cuspiam no chão. Não respondiam às minhas perguntas. O João, o mais novo deles, se agarrou à minha perna e ficou o tempo todo grudado em mim.  
O tempo parecia não passar. Eu escrevendo na lousa, o João agarrado a minha perna, o silêncio absoluto mantido pela presença de um guarda.
Virei-me novamente e todos me encaravam; o que mais me impressionava neles era o cheiro ruim, os piolhos, aparência encardida e a raiva no olhar.
De volta para casa chorei. Chorei muito. Questionei meu Anjo da Guarda como poderia o ser humano chegar a esse tipo de miséria. Pensei em desistir, afinal, não seria eu quem ia ajudar um grupo de anarquistas, bagunceiros, malcheirosos, selvagens e malfeitores como aqueles a se tornar ‘gente’. Ultrapassei meu limite, não iria mais à FEBEM e ponto final. Afinal, não podia mesmo ajudá-los... Ou será que algo poderia ser feito?
A resposta ao meu questionamento veio em forma de amor, uma paz muito grande invadiu todo meu pensar, passei da tristeza para a alegria em um segundo. Decidi que ia voltar à FEBEM e conversar novamente com os meninos, nem que fosse somente mais uma vez, para escutá-los, e eu ficaria calada.
Na outra semana, terça-feira, lá estava eu esperando a Kombi para me levar novamente à FEBEM. Eles até se assustaram a me ver, creio que, pensaram, que eu nunca mais fosse pisar lá de novo. Presenteei todos com sabonetes e pentes; reforcei a questão de que precisavam de um banho. Fui decidida a mudar meu modo de dar aula.
Pedi que o guarda ficasse um pouco mais distante, fora da sala; mas a porta continuava aberta. Sentei-me no chão e pedi que se acomodassem em minha volta. Eu os encarei no olhar, um por um. Sem medo e sem ódio. Com amor e determinação. Pedi ajuda ao meu Anjo de como devia começar aquela conversa. Logo notei uma cicatriz no pescoço de um deles e pedi que o jovem me falasse a respeito dela. Com orgulho, ele explicou a origem da cicatriz. Dali por diante todos tinham cicatrizes para mostrar. Ali, quem tivesse a pior cicatriz era o rei. O dono da coroa de rei tinha uma cicatriz nas costas toda, resultado de um balde de água quente, castigo que a mãe lhe impôs.
Todos aqueles sofrimentos estão contidos nos versos de Cora Coralina: ‘Pudesse eu te ajudar, criança-estigma. Defender sua causa, cortar tua raiz chagada... ’ (Coralina,143).
Cada um deles se envaidecia mostrando cicatrizes de cortes, queimaduras e tiros. Um até pestanejou: ‘Perdi o primeiro lugar por pouco, se a minha cicatriz fosse um centímetro maior hoje seria o dono da bocada’. Nada argumentei. Só escutei. Fiquei na deles. Ouvi tudo calada. Depois alguns saíram; enquanto outros se deitaram aos meus pés. Acariciei os cabelos deles, emaranhados, cheios de piolhos. Assim ficamos amigos.
A cada encontro eu adaptava histórias (tipo carochinha) onde no fim o amor vencia. A maioria pedia que eu recontasse. Nos outros encontros eu contava uma história até a metade e eles continuavam o conto. Por alguns, o mocinho era massacrado; mas tinha os que davam um final feliz.
O sabonete que levei serviu só para perfumar armários. Quando eu questionava sobre isso, argumentavam: ‘Estamos guardando pra quando sairmos daqui’.
A cada encontro, nossa mesa redonda continuava. Cada um expunha seu sofrimento. Ninguém tinha sofrido mais do que eles. Eu não achava argumento para animá-los. Só ficava escutando e pedindo a Deus uma chance para aqueles garotos. Eles se apegaram no dó de si mesmo. Dali criavam forças. Estavam no fundo do poço, ninguém tinha ido mais baixo do que eles e usavam desse argumento para serem maus. Não queriam aprender a rezar, queriam apenas mostrar suas mágoas e expor a todos o ódio que tinham do mundo. Eu os deixava falar e soltar toda a raiva que tinham no coração.
No fim do ano foi minha formatura no Ginasial, logo iria prestar vestibular e decidi por Psicologia, por causa desses meninos da FEBEM. 

 
                 Fotos:  Colação de Grau do Ginasial e o baile de formatura.

DICA: Em oração, com ajuda de seu Anjo, relembre momentos em que mesmo com medo você foi em frente e ajudou o próximo; agradeça a Deus por você ter conseguido auxiliar essas pessoas; que tenha sido com palavras ou atos, não importa a maneira, o importante é que fez o bem. Diga ao seu Anjo que leve até Deus seu sentimento de gratidão pela lembrança.
 
      SER MARIONETE DE DEUS!

Continuei minhas idas à FEBEM, pelo menos até eu ir para a faculdade. Até que, no mês de janeiro, encontraram um menino no meio de uma mata fechada e o trouxeram para a FEBEM. Ele tinha talvez uns quatro ou cinco anos de idade. Fora encontrado no fundo de uma chácara. Não ficava de pé, só andava de quatro, nos seus joelhos havia enormes placas calosas e nas palmas das mãos, também. Os cabelos dele eram iguais uma moita de capim gordura e neles caminhavam bichos por todo lado. Tinha unhas grandes, retorcidas e pretas. Encontrava-se totalmente pelado. Pele igualmente queimada pelo sol, sem marcas de roupas ou sapatos. Rosnava e mostrava os dentes. Tentava morder quem dele se aproximasse. Tiveram de deixá-lo preso por uma corda amarrada à cintura e atada a um tronco de árvore. Era uma figura deplorável.
No primeiro momento eu tremi ao vê-lo, depois fui me acalmando, como sempre pedindo para meu Anjo me ajudar, pois eu queria mesmo era fechar os olhos e passar reto daquele bicho-homem. Porém, fiquei sem conseguir sair do lugar, analisei àquele menino em tudo. Pedi novamente ajuda ao meu Anjo que me soprou ao ouvido: Acalme-se e chame os garotos para ver esse menino.  Eu fiquei gelada, um frio percorreu minha espinha!... seria muito difícil levar os garotos para ver o menino. Fiquei um tempo parada, pensativa. Depois, suspirei fundo e decidi acatar a sugestão de meu Anjo. Afinal, ele sabia melhor do que eu o que eu devia fazer.
Chamei todos os garotos e os coloquei bem à frente do menino amarrado à arvore. A expressão de espanto no rosto dos internos da FEBEM foi a melhor coisa que eu vi na minha vida; porém, não existe uma palavra que possa descrevê-la, havia uma mistura de sentimentos neles... expressões de dó, de raiva, de ódio, de alegria e de desconfiança. Eles viram que existia um buraco mais profundo daquele que estavam. Encontraram alguém em piores condições do que a deles.
Veio um prato de alumínio com angu e, o menino-fera olhou para os lados e intimidou a todos com rosnados; depois, enfiou a cara no prato e comeu todo o angu, até o prato de alumínio ficar limpinho; se lambuzava de angu e rosnava. O prato girou enquanto ele lambeu os últimos respingos de angu. Depois, ele ficou em silêncio, relaxado deitou-se na grama e dormiu.
Vi que era hora de sairmos dali; chamei os garotos e fomos para a sala de aula.
Depois disso, os garotos nunca mais foram os mesmos. Melhoraram na disciplina. Melhoraram tanto, que lhes foi permitido me visitar na cidade, aos domingos. Iam todos arrumadinhos, limpinhos, cheirando a sabonete. Lá em casa, eles comiam banana, bolo e tomavam suco. Conversávamos muito. Alguns eu vi irem embora da FEBEM, saíram com medo de enfrentar o mundo aqui fora; outros continuaram lá, com determinação de melhorar a cada dia.
Continuei com eles até quando me ingressei no estudo de Psicologia na Faculdade Salesiana na cidade de  Lorena, estado de São Paulo. Mesmo assim, aos fins de semanas eu ia para Santa Rita do Sapucaí e, no domingo, a Kombi levava meus amigos para eu ver. Até quando Wilson (na época meu noivo) ia para casa de meus pais, passar o fim de semana comigo, meus amigos da FEBEM iam me visitar.
Até que em outubro de 1978 eu e Wilson nos casamos e fomos morar em São José dos Campos. Mas antes, tive o prazer de ser madrinha de Batismo e de Primeira Comunhão de muitos desses amigos que foram internos da FEBEM.
 ‘Minha tarefa foi apenas de tecelão. Não tenho o mérito do algodão e da linha’, sempre gostei dessa frase do padre jesuíta Anthony de Mello. Pois, nos mostra que para tecermos necessitamos muito além de um tear, o mais simples é o mais prestativo. Ver mudança onde pessoas afirmam que jamais haverá, não é difícil quando acreditamos na força do amor. Gosto do livro Despertando para o Eu, de Anthony de Mello e nele marquei algumas frases que me ajudaram a evoluir. Ele disse que certas pessoas passam a vida com ideias fixas e jamais mudam, ‘parecem um pedaço de madeira. Isso não é humano. São marionetes sacudidas por todos os tipos de coisas’ (Mello, 80). Não quero ser um pedaço de madeira... morta!... mas se meu destino é ser marionete... que eu seja marionete de Deus, através das cordas flexíveis das conversas com meu Anjo da Guarda. Essa pode ser a mudança! Esse é o meu verdadeiro entregar-se!  
DICA: Em seu momento de cumplicidade com o Anjo, sente-se ou deite-se, depois relaxe a mente, desligue-se do mundo humano. Peça a presença de seu Anjo e faça uma linda saudação a ele. Depois, peça para que ele lhe auxilie a encontrar uma maneira de ser canal de graça para os mais necessitados. Seu Anjo conhece seus medos, seus anseios, seus limites e seus dons. Escute a voz interior, vinda do Anjo. Tire um pouco de seu tempo para um trabalho voluntário.





[1] Fragmentos: Visão Vale, outubro de 2009.
[2] Fragmentos: Valeparaibano, setembro de 2007.



 



                                                  PARTE II
                                   São José dos Campos – SP



           QUEBRANDO O OVO DE CLARICE!

       Somente, um ano depois da morte de Clarice Lispector, eu consegui assistir a última entrevista dela. Aquela, que ela concedeu à Rede Cultura de Televisão, através do jornalista Júlio Lerner. Por meio dessa entrevista, eu me alimentei de Clarice. 

           Nessa entrevista a cada declaração, ou falta de declaração, de Clarice, eu mais a admirava. Conhecia quase todos os seus livros. E, através da entrevista, eu recebia respostas para alguns questionamentos que eu fazia, ao ler suas crônicas, contos e romances. Sempre na certeza de que ela tinha o poder de me transportar para um mundo à parte e, ao mesmo tempo, mostrar que esse mundo estava dentro de mim.
       Levei um choque, no momento em que Clarice disse, que o único texto que ela não conseguia entender... era O Ovo e a Galinha. Essa declaração me caiu como uma ducha de água amarelada e morna, como se eu estivesse flutuando em um líquido amniótico, em gestação de anos para a escrita, como se fosse meu nascimento para as letras... minhas letras. Eu renasci para o mundo da escrita.
       Meu coração transbordou de alegria. Orei. Agradeci ao meu Anjo que não me deixou vender a antiga máquina de escrever Olivetti (por duas vezes). Aproveitei que meus filhos dormiam; minha casa era simples, na sala apenas um sofá com uma poltrona, um pequeno baú de Eucatex que funcionava como mesinha para a televisão que transmitia imagens apenas em preto e branco; então, coloquei a máquina em cima desse baú, ajeitei uma amarelada folha de papel sulfite, ajoelhei-me no chão (o baú era pequeno e baixo) e comecei a escrever um poema.
       Daí por diante, todos os dias eu escrevia um poema à máquina. Depois passei a escrever contos e, até mesmo, um livro infantil. Uma estória que sempre contava aos meus filhos.
       Ficamos por alguns anos nessa moradia, alugada, na Vila Letônia. Lugar simples, casa meia-água, nem mesmo havia vidros inteiros nas janelas, o chão era cimento vermelho queimado, não tinha azulejos na cozinha e muito menos no banheiro. Vida simples. Ali nasceram meus filhos.
       Nas minhas duas gestações, meu Anjo muito me ajudou. Em cada uma, ele me ensinou que eu tinha o dever de cumprimentar o Anjo da Guarda de meu filho e de criar intimidade com ele. Eu desenvolvi, também nessa época, a magia de pedir para meu Anjo conversar com o Anjo de meus filhos, e se tornaram amigos.
       Existe uma Lei Celestial que tem de ser cumprida, é a de que os humanos têm livre-arbítrio. Ao mesmo tempo em que isso é bom, também nos torna eternamente responsáveis pelas nossas escolhas. Ao fazer esse pedido criei um elo entre meu Anjo e o Anjo da Guarda de cada um dos meus filhos.
       Para dar mais ênfase a esse colóquio interior com meu Anjo e com o Anjo de meus filhos, durante a gravidez deles, eu cantava uma música enquanto fazia carinho na barriga. Esse exercício espiritual foi meu Anjo quem me ensinou e, eu o fiz, não só durante a gestação, porém ao amamentar.
       Também, fazia meus filhos dormirem embalados por essa música que, à maioria das vezes, começava em voz baixa e terminava em murmúrios; como se fosse um momento de cumplicidade total... entre Anjos (o meu e de meus filhos). A mesma música era bálsamo para se acalmarem quando tinham cólicas, dores de ouvido, resfriados, bronquites e dentes para nascer.
       Passamos por muitas necessidades físicas, porém estávamos nutridos de alimento espiritual. Meu marido ganhava um salário mínimo e trabalhava na fábrica General Motors. Não tínhamos carro, nem máquina de lavar roupa, meus filhos usaram fraldas de pano, cueiro e calça plástica. A mamadeira era de vidro e a chuquinha, também. Eu mesma inventava as papinhas e fazia questão de alimentá-los, mesmo que para isso eu deixasse de me alimentar. Não fui à busca de trabalho fora de casa, meu principal objetivo era o de dar aos meus filhos educação e saúde. Emagreci tanto que pesava 37 quilos. Nada disso me abalou, tinha meus colóquios com meu Anjo e com os Anjos dos meus filhos. Acreditava em um futuro melhor. Depois de cinco anos, adquirimos uma casa, pelo Sistema Nacional de Habitação, na vila Tatetuba; para pagarmos em prestações, durante 20 anos. 


DICA: Sente-se ou deite-se, depois relaxe a mente. Peça a presença de seu Anjo e faça uma linda saudação a ele. Depois, peça a ele que se apresente ao Anjo da Guarda de cada um de seus filhos, ou de seu marido, ou esposa. Diga para ele criar intimidade com esses Anjos em completa amizade angelical.
       CONHECIMENTO ANGELICAL!

Dia de Santa Rita, 22 de maio, logo cedo eu acendi uma vela em homenagem à minha querida santa. Acendi-a no aparador do armário na cozinha (fórmica), junto à imagem da santa e à vasilha de água-benta que tem o feitio da imagem de Nossa Senhora Aparecida.
Dia de festa, nada melhor do que cantar e agradecer a Deus pelo dom da vida.
Meu marido trabalhava à noite e, por isso, acordava às 11h. Esperei até que ele acordasse para trocar o gás que havia acabado e precisava providenciar o almoço para as crianças irem à escola.
Aconteceu que o botijão novo estava com a válvula quebrada e quando tirou o lacre ele soltou gás que em milésimos de segundo... puxou a chama da vela. O botijão tornou-se um enorme maçarico. O primeiro a ser queimado foi o braço de meu marido, depois o fogo foi para o armário onde estavam a imagem de Santa Rita e a vasilha de água-benta.
Ao ver o fogo eu gritei por socorro. Não conseguíamos sair de casa porque o portão estava trancado com um enorme cadeado e tínhamos que passar pelo fogo para chegarmos ao suporte onde colocávamos o molho... não conseguíamos pegar a chave. Minha precisão era a de salvar meus filhos Max e Sabrina, meu marido e a cadelinha Bolinha, Dálmata.
O maçarico fazia um enorme buraco no teto de laje da cozinha enquanto o fogo se espalhava. Sem ter como sair pelo portão resolvi ajudar meus filhos a pularem a enorme grade 4,5m que protegia a frente da casa, o muro era maior ainda.  Os vizinhos viram o fogo e correram em socorro até a grade. Bolinha pulava em meus filhos tentando salvá-los. Consegui que meus dois filhos pulassem a grade e quando eu ia pulando avistei o caminhão dos bombeiros chegando, sem o uso da sirene.
Os bombeiros arrebentaram o cadeado com uma enorme ferramenta, ligaram a mangueira d’água, e entraram. Dominaram o fogo que queimava a casa, mas não conseguiam acabar com o enorme maçarico que vinha do botijão.
Veio à ambulância e levou meu marido para o Pronto-Socorro. Meus filhos ficaram na casa da vizinha e eu fiquei na casa.
O único recurso dos bombeiros foi usar espuma para conter aquele maçarico. Foi dessa maneira que eles conseguiram extinguir o fogo do botijão. Então, levaram o botijão para um gramado na rotatória em frente de casa, perto da rodovia Presidente Dutra, e deixaram-no ali. Criou-se uma espuma gelada em volta do botijão, como se congelasse. Fiquei ali, parada olhando essa cena até que fui convocada por um dos bombeiros para assinar o documento de avaliação.
Fui para dentro da casa e fiquei perplexa ao chegar à cozinha. O teto desabando, os vidros das janelas estilhaçados, a geladeira, a mesa, as cadeiras e o armário, queimados. Até o liquidificador tinha derretido.
Depois de eu assinar, o bombeiro foi até o monte de destroços pretos, molhados e disformes e mexeu neles. Agachou-se e me chamou: ‘Olha aqui dona, foi só isso que ficou intacto’.
No meio daqueles estragos que ainda fumegavam, mesmo que molhados, estavam: a imagem de Santa Rita, sem rachadura ou escurecimento... nem mesmo no branco rosto; e a vasilha de água-benta que nem a tampa de plástico derreteu, além da água estar completamente fria.
O bombeiro me olhou e disse que em tantos anos de ocorrência jamais vira algo assim. Eu lhe perguntei qual dos vizinhos os havia chamado. Ele me disse que ninguém tinha chamado, simplesmente deu vontade de fazer patrulha àquela hora, ali na Vila Tatetuba e que passavam por ali por acaso.
Nessa hora meu coração bateu mais forte. Tinha a certeza de que eles não passaram ali por acaso. Agradeci ao meu Anjo.
Tinha aprendido mais uma lição, a de que meu Anjo está sempre atento ao que eu preciso e que, ás vezes, não é preciso elaborar o pedido verbalmente. Aprendi que ele lê as linhas escritas em meu coração, ainda mais em uma situação de desespero como aquela em que estávamos. Pois, todos os dias, logo que acordo, cumprimento meu Anjo e permito que ele sonde minha alma. 

 Foto: Vidro de Água Benta que ficou intacto, sem nem mesmo derreter a tampa de plástico.
DICA: Se você já fez diariamente, pelo menos durante um mês, esses exercícios de intimidade com o seu Anjo, sua conexão angelical está mais apurada. Ao andar pelas ruas, em casa, no trabalho ou dirigindo... procure ver o invisível angelical. Seu Anjo sempre está lhe salvando de algo que poderia magoá-lo, presta atenção nos detalhes. E, agradeça ao Anjo.

        UMA VACA BRAVA NÃO SE IMPORTA A QUEM IRÁ FERIR!

Nos primeiros anos de nosso casamento, meu marido trabalhou na fábrica General Motors do Brasil, unidade de São José dos Campos, como operário padrão; os chamados ‘peões’. Depois de quatro anos nessa rotina exaustiva conhecendo toda a fábrica, escritório, maquinário, fez muitas amizades; afinal, os ‘peões’ eram unidos e tinham seus apelidos, o do meu marido era ‘Milla’. Trabalhava inclusive nos fins de semana e feriados. Foi quando deu entrada à compra de uma casa, usando uma parte do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço. Fomos morar na Vila Tatetuba, perto da GM. Wilson chegava em casa todos os dias de madrugada, porque depois das atividades na fábrica, estudava inglês e cursava Segurança Acidente de Trabalho em Taubaté.
Foi em meados do mês de abril de 1985, que meu marido chegou em casa dizendo que havia muitos ‘piquetes’ impedindo os trabalhadores de entrarem à fábrica. Ele, recém-contratado na área de Segurança do Trabalho, no cuidado para que não houvesse acidentes, insistia em entrar e, para isso, tinha de passar por uma fila de trabalhadores que, incentivados por sindicalistas e pelo Partido dos Trabalhadores, comandados pelo chefe maior do Sindicato do ABC Paulista, davam ‘coquinhos’ nas cabeças dos que adentravam ao trabalho. O que mais chateava meu marido era ver os amigos ‘peões’ não respeitarem o direito de ir e vir do trabalhador.
Eu, até então, achava que tudo ia se resolver era apenas uma greve e logo a Indústria e o Sindicato iriam entrar em acordo amigável... Porém, no dia 26 de abril, sexta-feira, de manhã informaram-me que meu marido estava em cárcere privado dentro da fábrica, no tal de ‘chiqueirinho’, desde quinta-feira à noite. Fiquei sem acreditar. Fui para o quarto e orei, pedi ajuda de meu Anjo. Ele me disse que eu precisava ter calma. Esse ‘ter calma’ me doeu demais. Mesmo assim, me acalmei. Foi como novamente ‘bater no portão, no fundo do quintal e espantar o medo’. Daí lembrei-me de meus pais e telefonei pedindo apoio. Meus pais, no mesmo dia vieram de Minas Gerais para me ajudar.
No dia 26, à noite, eu e meu pai fomos para a GM tentar achar meu marido. O gramado dentro da fábrica inteiramente tomado por grevistas, enquanto que os sindicalistas com carro de som comandavam os petistas que ocupavam a fábrica.  Os familiares dos trabalhadores encostados ao alambrado da cerca de arame procuravam notícias dos parentes. Eu e meu pai perguntávamos a todos os trabalhadores que encontrávamos perto da cerca se tinham notícias do Wilson; e tentávamos achá-lo naquela multidão de trabalhadores usando uniformes cinzas e azuis, sentados cabisbaixos, andando devagar, ou parados como estátuas. Ao ver um amigo, vizinho, que sempre ia em minha casa, foi difícil tirar uma informação dele... no final ele me disse que meu marido estava em cárcere privado, junto com mais dois, inclusive o velho Alex.  Papai e eu voltamos para casa, quietos. Como eu ia falar para meus filhos que o pai deles, homem que estudou e lutava pela segurança do trabalhador, que sempre foi amigo deles, se encontrava preso... refém dos que se diziam trabalhadores?!
Fui para o quarto, pedi para meu Anjo entrar em contato com os Anjos de meus filhos e prepará-los para essa conversa. Que eles conseguissem entender a situação e orar junto comigo pedindo a liberdade dos que estavam presos dentro da fábrica.  Chamei-os no quarto e conversamos. Eles entenderam e foram dormir. De madrugada, o telefone tocou e uma pessoa me disse que eu precisava tirar o Wilson de lá, pois os grevistas estavam incontroláveis; usavam a barra de câmbio como arma, quebravam veículos e ameaçavam os que estavam presos no ‘chiqueirinho’, entupiram vários tanques de carros com estopas encharcadas com gasolina e ameaçavam tacar fogo, assim como ensoparam regiões inteiras com thinner. Desliguei o telefone, e para não entrar em pânico pedi que meu Anjo ficasse comigo a noite inteira, orando. Não dormi. Fiquei orando para que o bem vencesse o mal.
De manhã, no dia 27, escutei helicópteros passando sentido GM. Saí correndo e fui para o gramado em frente de casa, na marginal Dutra. Pela rodovia, uma caravana de carros Brucutus avançava em direção à GM. O helicóptero da polícia manteve-se pairado no ar, em cima da fábrica. Eu ajoelhei-me naquele gramado e apoiei-me em um pé de ipê que eu havia plantado há algum tempo, chorei muito. Minha filha e meu filho ficaram parados no portão de casa quando me viram chorando foram correndo me abraçar. Enxuguei as lágrimas, olhei para eles e disse-lhes que tudo ia ficar bem. Meus pais parados no portão me olhavam. Nessa hora eu pedi ao meu Anjo agradecer a Deus pelos pais que eu tenho. Sempre me ajudando nas horas difíceis.  Fomos para dentro de casa.
Meu Anjo me avisou quando meu marido desceu de um carro carona, na beira da Dutra. Eu fui para o portão e vi meu marido chegando. Abracei-o e o olhei de baixo para cima. Vi marcas que não posso descrever; vi que um pouco da luz de seus olhos havia se apagado. Nesse momento eu orei para que o Anjo da Guarda dele acendesse essa luz novamente.
Com essa greve o trabalhador brasileiro passou de 48h para 40h de trabalhos semanais, e o direito de reajuste nos salários afetados pela inflação. Sei o quanto isso custou para minha família. Trabalharia oito horas a mais, semanalmente, para garantir a liberdade, pois ela não tem preço. 




Fotos: Dentro da GM durante a greve, essa cabaninha branca era o chiqueirinho onde mantinham em cárcere privado os mensalistas. Do lado de fora do alambrado familiares procurando pelos trabalhadores desaparecidos, do lado de dentro os grevistas não davam informações.
DICA: Diante de uma injustiça peça ajuda ao seu Anjo. Ele lhe dará condições emocionais para seguir adiante, acreditando na força do bem. Na verdade é com essa fé que o bem irá vencer; ele depende de você. Peça ajuda aos familiares, eles são Anjos sem asas que sempre lhe acolhem para sarar as feridas abertas.
       CORA QUE ENCANTA A VIDA!

Foi em minha casa na Vila Tatetuba, em São José dos Campos, pela televisão, que eu vi as imagens do sepultamento de Cora Coralina, no jornal da Rede Cultura. Fiquei fascinada pelas imagens, pois era minha primeira televisão colorida, e me encantou a imagem da arquitetura da cidade de Goiás. As ruas com calçamentos de pedras, os casarios coloridos, as lindas igrejas, fizeram crescer no meu coração uma vontade muito grande de conhecer a cidade berço da poetisa que há alguns anos eu venerava, guardando as entrevistas dela, publicadas em revistas, jornais e redes de televisão.
Dos seus livros, eu conhecia apenas Meu Livro de Cordel e, os outros, eu desejava ardentemente a leitura.
No ano seguinte à sua morte, em 1986, li no jornal Valeparaibano  a respeito do ‘Concurso Nacional de Revelação Feminina de Conto e Poesia Cora Coralina - Prêmio Cora Coralina'. Resolvi participar.
Lembro-me que munida de minha máquina de escrever Olivetti, coloquei o papel na máquina, ajeitei a fita para que ficasse no vermelho (prestando homenagem à enigmática Cora Coralina), escrevi um poema, depois outro e outro. Saíram assim... em um passe de mágica, doze poemas. Datilografei a carta de apresentação pessoal onde no último parágrafo constou: ‘Gosto muito de escrever, me identifico dessa forma, sentindo enorme prazer ao colocar no papel meus sentimentos’. Deixei os poemas e a carta em decantação, por algumas semanas. 

No dia de enviá-los para o concurso, li e os reli, com muita atenção; não mais gostei do que escrevi; achei tudo ridículo, incapaz de chegar aos pés de Cora Coralina. Perto dos poemas dela, aqueles eram mesmo poemas ridículos. Guardei-os. Aliás, eu os tenho guardados até hoje.
Meu amor por Cora Coralina é maior do que minhas faculdades mentais. Em todas minhas exposições fotográficas, sempre existe uma citação de Cora Coralina. Desde essa época, eu a denominava ‘santa’, e explicava aos meus amigos e parentes que ela fazia milagres. Pois, tudo que eu pedia para ela... inexplicavelmente, acontecia. 
DICA: Recorde-se de uma pessoa pública que você tenha afinidade; peça ao seu Anjo que lhe ajude a orar por essa pessoa e descubra a razão de gostar dela. Agradeça a Deus pelos bons ensinamentos que essa pessoa lhe passou ou passa.
       O AMOR CRESCE, FLORESCE E FRUTIFICA!

Mês de férias. Nada melhor do que voltar às raízes. Lá estava eu... em Santa Rita do Sapucaí, revendo parentes, passeando na praça, indo à igreja. Fim da missa. Vinha descendo a rua em um calmo dia de domingo. Rua deserta, a não ser por um homem encostado em um carro perto da casa de meus pais. Passei por ele. Ouvi: ‘Rita Elisa?’
- Eu mesma. Quem é você? – indaguei.
Ele se aproximou...
- Num se lembra de mim?! Também faz tanto tempo... quase dez anos... tente... olhe bem...
Eu olhei, olhei e olhei novamente para a figura dele. Nada... ‘Sinto muito, não me lembro’.
       Ele sorriu sem jeito:
- É... seria bom demais... – se recompôs – mas, já é bom ver você. Num imaginava encontrar você aqui. Vim dá uma olhada na cidade. Passei pra ver sua casa e...
Cortei a conversa:
- Minha não, dos meus pais... – falei pausadamente.
- É mesmo... me lembro quando encontrava com eles, naqueles domingos que eu vinha te ver...
Fiquei surpresa, mantive distância, não conseguia encaixar aquele rosto em alguém do meu passado. Vasculhei minha memória. Ele parece que pressentiu minha inquietação e resolveu me ajudar:
 - Sabe... quando eu estava indo embora da FEBEM, você me deu uma camiseta de presente. Eu chorava, lembra?! Você falou que eu tinha futuro. Que era pra eu perdoar minha mãe. Estudar. Fazer um SENAI, enfim... virar gente. Pediu pra eu ter coragem. Coragem de recomeçar.
 Meu coração estava aos pulos, querida sair pela boca, ele continuou:
 - Sabe... Rita... eu tentei morar com minha mãe. Mas, ela bebia demais. Arrumei emprego e ela gastava o dinheiro com bebida. Queria estudar e ela falou que era perda de tempo. Até que saí de casa. Estudei. Fiz curso técnico. Hoje sou torneiro mecânico. Trabalho numa fábrica de automóveis em São Bernardo do Campo. Casei-me e tenho dois filhos pequenos. Tenho uma casa... inté um carro. Sempre me lembro de você. Você acreditou em mim...  olhe só... acho que deu certo! -  disse se mostrando arrumadinho, com roupa limpa, sapato engraxado e usando óculos com grau.
Enquanto ele falava e se mostrava, eu automaticamente, fui me posicionando a frente dele. Eu o encarei no fundo da alma! E, foi somente esse olho no olho, que me reavivou a memória. O passado se fez presente... sabia perfeitamente quem ele era. Eu o abracei. Choramos. Sussurrei:
- Eu acreditei em você, mas o melhor foi você ter acreditado em si mesmo. Parabéns. Você venceu!
Ele não quis entrar em casa. Atravessou a rua, andou mais uns 50 metros, entrou em um carro não tão novo; porém, limpinho e reluzente; deu partida no carro e saiu devagarinho. Abanou a mão ao passar por mim... então, vi o sorriso largo de sua esposa, com um neném nos braços, e o aceno de uma criança no banco traseiro. Era tanta alegria que eu não parava de rir. Fui para um quarto, fechei a porta, me ajoelhei e agradeci meu Anjo pelo acontecimento e, principalmente, pelo aprendizado.
Quando jogamos sementes num vasto campo, mesmo que levem algum tempo, algumas hão de brotar. Mesmo que não voltemos para presenciar o desenvolvimento das plantas. Mas elas irão: crescer, florescer, frutificar e gerar sementes. E, quem sabe, depois deste crescimento, dessa maturidade, um dia uma dessas sementes será trazida pelo vento e... pousará à nossa frente. O sol, a chuva e o frio podem acabar com as flores, mas nada podem contra as sementes.
       Como disse Edgar Guest:A coragem deve vir da alma interior. O homem deve enfrentar com a vontade de vencer’.
DICA: Olhe em sua volta quando estiver caminhando pela rua, supermercado, shopping, parque, escola, enfim... lugar povoado. Peça que seu Anjo esteja presente com você e a cada pessoa que passar perto, ou mesmo somente olhando de longe (o Anjo vai direcionar seu olhar) agradeça a Deus pela presença dessa pessoa e faça uma oração de paz, de amor e de saúde por ela.
        O SILÊNCIO DE UM ANJO!

       Aquele carro era o que nos conduzia para todos os lados, atividades escolares, ao trabalho, nossos passeios. A maioria o via como uma ‘lata-velha’, era um carro Variant que tinha alguns (bem grandes) pontos de ferrugem à frente, do lado direito e no assoalho (quando passava em uma poça d’água eu levantava os pés, pois inundava o que ainda tinha de piso no carro).
       Era um pouco desgastado, mas era o que tínhamos e valorizávamos o veículo.
       Mesmo sendo tão judiadinho, certa manhã, ao estacioná-lo em frente ao portão de casa, ele fora roubado. Foi um alarme geral. Alertamos os parentes, os amigos e, os conhecidos, para nos ajudarem à procura.
       Meus pais vieram de Minas Gerais para nos auxiliar.
       Andamos pelos lugares mais estranhos, onde nos diziam que ‘desovavam’ carros roubados, nada de o encontramos.
       Fizemos B.O. (Boletim de Ocorrência) e a polícia passou a procurar o carro, também.
       Na segunda-feira, logo cedo, eu fiz minhas orações diárias. Minhas conversas com meu Anjo da Guarda criou certa intimidade que me levou a questioná-lo no que eu não entendia; nessa época eu era impulsiva, por isso, apelei para a frase: ‘Eu rezo todos os dias a Deus, aos meus santos favoritos e, converso com você... meu Anjo. Você podia ter evitado esse roubo. Sabe o quanto precisamos desse carro. Ele é velho... mas é tudo o que temos para nos transportar. E, até agora, não achamos o carro, faça sua parte, acha o carro para nós, aposto que o carro estará inteirinho’. O silêncio foi a resposta.
       Eu preferia que meu Anjo dissesse algo, pois quando surge o silêncio da parte dele é por que eu não soube dar mais atenção à minha parte espiritual e, sim, à parte material.
       Nesse mesmo dia, a polícia nos ligou, dizendo que encontraram o nosso automóvel e que, ele estava em certo pátio. Resolvemos ver o carro, na expectativa de trazê-lo para casa e voltarmos à nossa vida normal. Estávamos prontos para ir ao pátio, ao entrar no carro de meus pais escutei nitidamente meu Anjo: ‘Volta e pega a máquina fotográfica’. Sorri. Ele não estava chateado comigo (sempre tive medo de um dia magoar meu Anjo e de que ele me deixasse). Voltei a casa e peguei a máquina, fui questionada pelos que estavam me esperando no carro. Apenas eu disse: ‘Vou registrar um mistério’.
       Até hoje eu comento esse episódio com minha mãe, pois ao chegar ao pátio só havia a carcaça do carro e, dentro dela, o câmbio. Que tristeza! Eu procurei pelo menos o Terço e a medalha com a imagem de Nossa Senhora Aparecida, que ficavam dependurados no espelho retrovisor; não os encontrei... nem mesmo tinha espelho retrovisor. Saí de dentro daquela carcaça e me posicionei atrás do carro; peguei a máquina fotográfica e bati algumas poses (não ia gastar o filme com uma cena tão triste). Falei ao meu Anjo: ‘Pronto, fiz o que me pediu’.
       Encontrar a carcaça do carro nos levou a um enorme prejuízo. A cada dia que o carro ficava no pátio, que não era o da polícia e, sim, um local particular, cobram por dia a estadia do veículo e ainda tivemos que pagar caro o guincho que levou o carro para o pátio. Além de não sabermos o que fazer com o que restou do automóvel, pois nem mesmo o ferro-velho o queria. Conseguimos vender o câmbio para um amigo, o que nos ajudou pagarmos um pouco da dívida com o pátio onde levam veículos roubados, resgatados. Entendi, que ‘não era para encontrarmos o carro’. Nessa época, eu não sabia ler as entrelinhas do silêncio... de meu Anjo.
        Passado o sufoco eu levei o filme para ser revelado em um laboratório na Rua Sete de Setembro, centro de São José dos Campos (tempo dos filmes de películas negativas). Quando fui pegar as fotografias me dei conta de que o ‘mistério’ era maior do que eu poderia entender. Registrada em apenas uma foto, dentro do carro, apareceu uma enorme imagem da Basílica de Aparecida do Norte.
       No momento em que vi a imagem, me dei conta de que meu Anjo havia me livrado de um mal muito grande; e que eu jamais deveria duvidar da sua guarda. Se eu me entrego a cada dia sob a proteção do Anjo, não posso questionar as adversidades da vida.
DICA: Sente-se ou deite-se, depois relaxe a mente. Peça a presença de seu Anjo e faça uma linda saudação a ele. Lembre-se de algo que lhe atormentou e lhe deixou triste, peça ajuda do Anjo para curar essa lembrança, entenda que se foi permitido é porque existia um aprendizado.  Mostre para ele que você entendeu a lição. Agradeça ao Anjo e peça para ele agradecer a Deus por esse acontecimento.
        QUALIDADE QUE SE FAZ VIDA!

Criei tal empatia com meu Anjo da Guarda que converso com ele logo de manhã, às vezes às 3h da matina, para começar bem o dia e, assim, conservar-me bem-humorada.
Houve uma época, quando morávamos na Vila Tatetuba, que eu me divertia em ganhar promoções feitas pelos radialistas. Acredito que isso acontecia (ainda acontece), por causa de minha alegria em viver.
Nessa época, meus filhos eram pré-adolescentes e eu ficava por conta da educação deles, sem trabalhar fora de casa. Não me arrependo de me dedicar tempo integral à educação de meus dois filhos, ao contrário. Dar educação aos filhos é uma das tarefas mais importantes de uma mãe. Não existe honradez maior do que filhos educados. Não existe soma de dinheiro que pague esse carinho, essa atenção... esse amor; por isso, não se deve cobrar algo dos filhos ou do marido, depois dos filhos já grandes. Não há quantia em dinheiro que pague todo o suporte de amor incondicional de uma mãe para com seus filhos.
Os gastos com os estudos de meus filhos e as prestações da casa eram grandes e, por isso, eu cozinhava, lavava, passava, arrumava a casa, acompanhava nas tarefas escolares e sobrava tempo para brincadeiras infantis, tanto na rua (sempre participei) ou dentro de casa (participava, também).
Ensinei meus filhos a rezar para seus Anjos da Guarda, íamos às celebrações nos domingos e, sempre, tivemos nossos santos prediletos. O Amor a Deus é nossa mola propulsora para continuarmos vivendo.
Com tantos gastos e só meu marido trabalhando, suprindo nossas necessidades, enquanto eu geria o lar, muitas vezes era através de sorteios que conseguíamos um presente diferente, uma surpresa para as crianças. Fomos muitas vezes sorteados para participar de  muitos shows de bandas e cantores famosos, chegando ao ponto de ganharmos participações exclusivas em shows ou almoços especiais com toda equipe e vocalista de bandas (muito famosas na época). Brinquedos, roupas, livros, LPs (ainda não existia CD), ingressos para o Playcenter, etc.
Por causa dessa ‘sorte’ toda, ficamos um pouco visados pelos amigos e parentes. Inclusive nas escolas, nos Bingos organizados para arrecadar dinheiro para formaturas, ganhávamos quase tudo e, éramos convidados a nos retirar; passamos a deixar algumas prendas para novamente concorrerem no Bingo, afinal não precisávamos de tudo o que ganhávamos.
Certa vez, na inauguração do primeiro grande shopping em São José dos Campos, uma rede de alimentação que vendia cachorro-quente fez uma promoção o ano todo, para cada dois cachorros-quentes adquiridos, o cliente tinha direito a um cupom, que era depositado em uma enorme urna de acrílico transparente; em cima dela, dependurada no teto do estabelecimento, uma bicicleta moderna, com várias marchas, vermelha, linda demais; seria sorteada. Meus filhos estiveram lá em épocas diferentes e receberam o cupom, queriam muito a bicicleta.
Dezembro, fim de ano, toca o telefone e a gerente da loja de cachorro-quente do shopping me informou que minha filha foi sorteada e que a bicicleta estava à disposição. Só precisávamos levar a identidade da Sabrina para retirar a bike. Eu e meu marido fomos até o shopping, a gerente ao nos entregar a bicicleta nos contou que, antes de sortear o nome da Sabrina, eles haviam feito outro sorteio. E que ela, a gerente, pegou a ficha do ganhador e foi para a casa dela tomar um banho, descansar um pouco (pois o sorteio foi cansativo) e, também, telefonar para o ganhador. Mas, nem bem chegou a casa, o telefone tocou, era um funcionário da loja avisando que um grupo de animadores estava na loja para fazer o sorteio... era norma do shopping fazer um megaevento. A gerente pediu que, pelo menos esperassem que ela levasse o cupom sorteado, para que o atual vencedor pudesse competir novamente. A informação recebida foi a de que não dava tempo, era para ela descartar aquele cupom.
Ao ouvir esse depoimento, eu fiquei constrangida, disse para a gerente que se ela soubesse quem era poderíamos vender a bicicleta e dividir o dinheiro com quem ganhou primeiro, era o justo. Então, ela pediu para que esperássemos, ia buscar o cupom. Subiu uma escada para o mezanino e voltou com um papel à mão. Ela nos entregou o cupom, o abrimos e lemos nele o nome de nosso filho: Max. Eu e meu marido rimos e a gerente nos informou que jamais tinha visto algo tão inusitado. Afinal... tinha na urna mais de 25 mil cupons. Ficou mais boquiaberta ainda, quando a informamos que eles participaram somente com um cupom cada um. O mais impressionante era que, o pedido deles de presente de Natal, era o de uma bicicleta nova.
Aprendi que essas delicadezas são dádivas de meu Anjo e dos Anjos de meus filhos. Um dia, me questionaram por que eu não pedia para ganhar na Loteria. E, foi daí que eu entendi, o que realmente é... uma vida perfeita! Não é a quantidade do dinheiro o que importa e, sim, a qualidade do que você tem e o uso correto dele. Essa é a verdadeira riqueza!
Não tínhamos dinheiro para comprar essas delicadezas, pagávamos as prestações da casa pelo Sistema Nacional de Habitação e as mensalidades escolares; nossos filhos ingressaram em ótimas escolas particulares, no centro da cidade. Assim que nosso poder econômico melhorou, começamos a comprar o que antes ganhávamos em sorteios. Quando estamos no caminho certo devemos dar um passo de cada vez, seja descalço, com sandálias ou sapatos de couro. O importante é prosseguir.
                                                                                                                                                                                                                                                                             DICA: Sente-se ou deite-se, depois relaxe a mente. Peça a presença de seu Anjo e faça uma linda saudação a ele. Converse com seu Anjo e entregue para ele tudo que você tem, seus bens materiais e espirituais. Pontue momentos de grande alegria em sua vida. Agradeça ao seu Anjo por ele cuidar de tudo. Peça para ele levar diante de Deus esses seus agradecimentos.
             LAYOUT DE UM FILHO!

       Era o começo da era da computação.  Quando Max completou 13 anos de idade o presenteamos com um computador Apple (primeiro computador pessoal popular no Brasil), amarelo, teclado integrado com CPU, tinha dois drives externos que usavam disquete de cinco polegadas.   
Economizamos durante seis meses para o dinheiro de entrada e parcelamos em 10 vezes o restante.
       Logo depois de cortar o bolo e soprar as velinhas, Max pegou seu presente e foi para o quarto, passei por lá e ele olhava a máquina com satisfação.
       Na manhã seguinte, eu levantei cedo, mais cedo do que o normal e resolvi olhar de perto o tão sonhado e caro computador. Ao entrar no quarto fiquei apavorada, no chão, o computador inteirinho desmontado. Max, dormia, sorrindo. Eu fechei a porta e voltei para meu quarto. Respirei fundo. Orei até conseguir ficar calma.
       Dali a pouco, abri a porta do quarto e, de longe, acordei o Max para ele ir à escola. Ao questionar o computador todo ‘destuído’ (foi essa a palavra que usei), Max me disse que ao voltar das aulas ia montá-lo novamente. Fechei a porta do quarto, sem poder entrar lá dentro, não tinha onde pisar no chão todo cheio de peças. Meu filho conseguiu sair e ir para a escola.
       Ao voltar da escola, Max se trancou no quarto; atento em seu objetivo por quase cinco horas. Eu fiquei agitada, andando pela casa e passando perto da porta do quarto dele, de 20 em 20 minutos. Até que ele saiu do quarto e me avisou: ‘Está pronto’. Corri lá. O computador estava mais bonito do que antes, foi usado durante alguns anos por nossa família, funcionou direitinho.
       O amor é a base mais sólida para relação entre mãe e filho; com ele podemos construir um castelo.  Luís Fernando Veríssimo diz que na verdade a gente não faz os filhos. Só fazemos o layout. Eles mesmos é que fazem a arte-final. Concordo plenamente.
DICA: Peça a ajuda de seu Anjo quando for repreender um filho, um amigo, um conhecido, um familiar; o discernimento humano é diferente do angelical. O pensamento do ato de bem que vier à sua mente, o primeiro dele, é o que deverá ser feito.
              
       SAPATOS BRANCOS COM ASAS INVISÍVEIS!

       Lembro-me como se fosse hoje. Max havia passado no vestibular em Minas Gerais e começava uma nova fase de sua vida, morando na casa dos meus pais. Numa tarde de verão, eu, Wilson e Sabrina, fomos nadar na represa. Deitada na boia, eu olhava o céu azul. Sabrina e Wilson nadavam com equipamentos de mergulho. Eram rápidos. Eu, devagar, ficava na contemplação. A minha concentração na natureza era uma oração. Daí a pouco minha pulseira arrebentou. Assim, do nada, eu senti o peso da prata ir escorregando e, antes que eu pudesse fazer alguma coisa, ela caiu, foi para o fundo da represa. Gritei socorro. Wilson e Sabrina vieram nadando rapidamente para ver o que tinha me acontecido.
Eles colocaram equipamento de mergulho e procuraram a pulseira por um bom tempo. Nada encontraram. Eu não queria me dar por vencida. Queria a medalha de Nossa Senhora das Graças que estava na pulseira. Era especial. Mas, não a acharam. Era fim de tarde, escurecia. Voltamos. No caminho eu comecei a ter uma enorme dor de cabeça. A dor era tanta que fomos para um Pronto-socorro. Lá eu tomei analgésico na veia e fiquei deitada em uma maca por meia hora. Depois que melhorei, fomos para casa.
Chegando a casa fui direto para o banho. Debaixo do chuveiro escutei a porta sendo aberta. Um homem encapuzado entrou e me ordenou que vestisse a roupa. Era um assalto. Ele disse ser profissional, não era para eu ter medo.  Vesti-me rapidamente. Fui levada para o quarto dos fundos. Wilson e Sabrina estavam lá, rendidos, amarrados e amordaçados. O mesmo aconteceu comigo. Ficamos deitados com o rosto colado no chão.
Quatro assaltantes, encapuzados reviraram a casa toda. Perguntaram por dinheiro. Wilson disse que não possuíamos dinheiro em casa e apanhou por dizer isso. Tiraram minha mordaça e fizeram a mesma pergunta para mim. Eu informei o lugar certinho onde havia um pouco de dinheiro. Encontraram, mas era pouco... não ficaram satisfeitos. Perguntaram-me por armas. Eu disse-lhes que não tínhamos. Acharam uma garrucha velha, pendurada na parede e nos ameaçaram dizendo que estávamos mentindo para eles. Exigiam a chave do carro para irem embora, porém eles não a acharam.
Já fazia duas horas que nos maltratavam. Estavam com fome e resolveram lanchar. Ordenaram que eu me levantasse; colocaram-me uma venda nos olhos e me levaram à cozinha. Cada coisa que eles pegavam na geladeira eu tinha de comer um pedaço primeiro. Eu comia sem nem saber o que eles colocavam na minha boca. Engolia tudo o que tinha na colher. Disseram-me que era precaução; podia ter alguma coisa envenenada. Como se eu previsse que haveria assalto (loucura, paranoia dos ladrões). Depois eu escutava o barulho deles comendo o que restava na vasilha.
Quando acabaram de comer, um dos ladrões me colou em outro quarto e me mandou deitar no chão com a cabeça embaixo da cama e saiu. De repente, senti uma respiração perto de mim. Alguém me mandou ficar de bruços olhando para o chão, agachou e tirou minha venda. Apareceu outro ladrão e os dois discutiram. Eu de nariz colado no chão sem olhar para eles. Um deles saiu e o outro me jogou um travesseiro para eu apoiar a cabeça e saiu. Foi ele sair, o outro retornou, me informando que ia me matar. Colocou a arma na minha cabeça e girou o tambor de balas. Eu sabia que essa era a tal brincadeira Roleta Russa, fechei os olhos e esperei. Escutei o apertar do gatilho e o som de passos entrando no recinto. A Roleta falhou e o outro ladrão ficou muito bravo com esse que brincada de me matar. Ele disse que era hora deles irem embora dali, que aquilo já tinha passado dos limites. Consegui ver os pés desse que ficou bravo, estava calçado com sapatos brancos. Os dois saíram do quarto.
Continuaram à procura da chave do carro. O tempo passava. Escutei o som de um carro saindo, pensei que estávamos livres deles. Sabrina rezava em voz alta. Wilson ficou em silêncio. Dali a pouco, dois deles voltaram e me pegaram novamente. Ordenaram que eu achasse a chave do carro. Posicionaram-se as minhas costas e colocaram o cano do revolver na minha nuca. Ameaçaram me matar se não achasse a chave ou se olhasse para trás. Sem a venda pude olhar a casa, estava uma loucura. Não conseguiria achar nem mesmo uma bola de futebol. Eles tiraram tudo dos armários, gavetas e jogaram no chão. O chão estava forrado com: fotos, roupas, bijuterias, sapatos, revistas, roupas de cama, panelas, garfos, facas, colheres, chinelos, panos de prato, bolsas, documentos, livros, etc. Como achar um molho de chaves ali? Nunca!... Procurei com toda vontade de meu ser... nada achei. Fiquei apavorada, o ladrão dizia a todo instante que ia me matar se eu não encontrasse as chaves do carro.
Pedi ajuda ao meu Anjo da Guarda, precisava daquela chave. Orei muito. Procurei novamente e... nada achei.
Levaram-me de volta ao primeiro quarto, e lá não mais estavam meu marido e minha filha. Avisaram-me que achariam eles mesmos, a chave; e que iriam levar minha filha, junto com eles. Eu tremi, fiquei encolhida num canto do quarto, imaginando o que seria dela, Sabrina estava na fase de pré-adolescente, dali a dois dias completaria 14 anos. A espera foi uma eternidade. Passou quase uma hora e voltaram, com a informação de que não encontraram a chave do carro. Levaram-me para o fundo do quarto e me amarraram com as mãos para trás, usaram uma faixa de cinto, dessa vez apertaram muito, porém não gemi de dor. Ainda com a cabeça baixa consegui visualizar dois pés calçando tênis preto, mas não vi os pés do outro ladrão. Saíram do quarto.  Pouco tempo depois, reapareceu o que usava sapatos brancos e afrouxou o cinto que apertava minhas mãos (tanto que eu podia me soltar). Eu só fiquei olhando para os sapatos sem falar, até prendi a respiração com medo de mostrar vida.
Ouvi a conversa deles; desistiram de procurar a chave do carro e chamaram um táxi. O táxi demorou, mas chegou. Escutei quando colocaram algumas coisas no táxi. Eu os escutei conversando com o taxista, falando que tinham de ir à rodoviária. O barulho do carro saindo me deu certo alívio, mas eu não sabia o paradeiro de minha filha e nem do meu marido. Onde será que eles estavam?! Continuei gelada, sem ter noção de horas ou mesmo se eu estava neste mundo ou em outro. Orei. Pedi ao meu Anjo que nos salvasse.
Depois de certo tempo de silêncio absoluto, Sabrina saiu do banheiro totalmente  desamarrada. Ela soltou Wilson e depois me desamarrou. Disse-nos que um ladrão ‘bonzinho’ , usando  sapatos brancos, tinha a desamarrado e mandou que ela contasse até 100 e saísse dali.
Como disse Charles Chaplin: ‘Se você continua vivo, é porque ainda não chegou aonde devia’. 

DICA: Relembre momentos em que o ser humano se fez de Anjo ou, o Anjo se fez humano... para lhe ajudar. Se não estiver conseguindo se lembrar, peça ajuda ao seu Anjo; mas seria bom que se lembrasse sozinho, como reconhecimento de amor! Depois de lembrar, agradeça a Deus pelo Anjo da Guarda que você tem, e agradeça seu Anjo por estar sempre perto de você.

       PERMITIR À VISÃO DO ANJO!

Depois do assalto, colocamos a casa à venda. Meu marido trabalhava de noite e eu ficava todas as noites vigiando, pela fresta da janela, para a casa não ser invadida novamente. Enquanto, Sabrina dormia em um colchão aos meus pés. Eu só ia dormir quando meu marido chegava, às 4h da manhã. Ele não dormia quando chegava, ficava de guarda até o dia raiar e, somente quando eu acordava, é que ele ia dormir.
Nessas noites em que eu ficava de guarda, eu travava uma verdadeira batalha de sentimentos. Fiquei entre o ódio e o amor. Ódio quando escutava alguém de madrugada passar mexendo na grade e no portão de casa (daí eu acendia as luzes mostrando que estávamos de olho), e amor quando olhava para baixo e via minha filha dormindo.
Comecei um processo de amorização, senão ia enlouquecer.  Através de minha irmã Letícia, recebi de Padre Alírio José Pedrini (com autógrafo especial) o livro ‘Autocura Interior’, onde ele ‘ensina a própria pessoa para que ela ore a favor de si mesma’ (Pedrini, 08). Comecei perdoando, cada um dos assaltantes e, perdoando Deus, por permitir que aquele assalto tivesse acontecido. Mas precisava perdoar meu Anjo.
Durante três dias eu deixei de conversar com meu Anjo. Na verdade, eu estava muito magoada com ele; não compreendia a razão de todo aquele sofrimento. Foi somente no quarto dia que eu disse a ele que o perdoava. Ele não ficou quieto, nitidamente me veio a interlocução dele dizendo que eu precisava perdoar mais ainda. Explicou-me, que as provações são etapas pelas quais devemos passar e que Deus era absoluto na Palavra. Abri a Bíblia bem na página onde estava marcado o Salmo 102 – 20: ‘Bendizei ao Senhor todos seus Anjos, / Valentes heróis que cumpris suas ordens, / Sempre dóceis à sua palavra’.
Todo o dia, eu me deitava no sofá, e fechava meus olhos. Reduzia ao silêncio, a mente rebelde que, assustada, pedia vingança. Ficava com o corpo e a mente, relaxados (pelo menos o quanto eu podia). Foi então, que resolvi me abrir à visão de meu Anjo. Ele me apareceu, em forma de um corpo de Luz; com um turíbulo incandescente na mão, se aproximou.  
 Eu peguei todos os fatos tristes, as dores, os ódios, as tristezas e os transformei em fichas pretas, depois, eu coloquei uma por uma, dentro do turíbulo incandescente. Cada uma delas se queimou... todinha. Para cada situação, que eu queimava, e perdoava; o Anjo me entregava uma ficha branca. Ao pegar essa ficha branca, eu visualizava momento de paz, de segurança, de saúde e de amor. Ofereci a Deus, meu sofrimento, para que houvesse redenção das almas mais aflitas. Fiz isso todos os dias, no mesmo horário, durante 30 dias.
O tempo foi passando e, depois de um mês, pensei que estivesse curada. Entendo que, cura, é quando as feridas se fecham; e mesmo que, cutucadas, não mais sentimos os antigos sintomas de raiva, de medo e de vingança.  
Em um fim de tarde, ao ver que arruaceiros picharam o muro de casa, convidei minha filha para arrumarmos aqueles nomes feios, escritos no muro. Pegamos tinta spray e, enquanto ajeitamos as palavras (para algo bom), um carro parou perto da gente. Um senhor, de meia idade, desceu, e perguntou por que pichávamos o muro. Explicamos nosso intuito. Ele se apresentou como agente imobiliário, na verdade, era dono de vários prédios de apartamentos. Ficou empolgado em comprar nossa casa e duas outras casas, vizinhas.
Eu precisava de um lugar seguro para morar. Esse mesmo empreendedor imobiliário tinha construído um prédio de apartamentos ali perto. Fomos ver o apartamento e para minha alegria era no prédio onde eu sempre sonhei em morar, passava por lá sempre que podia, e parava perto do edifício para imaginar o quanto seria bom morar ali. Com aquela paisagem magnífica do Banhado e o melhor, havia pouco acesso à rua.
Fechamos o negócio com o homem que, nos fez a proposta de compra da casa, pois era o dono da construtora; porém, o preço do apartamento era um pouco maior, íamos pagar  o restante durante alguns meses, através de promissórias. Fizemos a transação em cartório, assim que terminássemos de pagar a diferença de preço, a escritura sairia em nosso nome.
Já em segurança, morando no apartamento, o delegado me telefonou. Tinham achado um dos assaltantes, ele confessou o assalto, necessitavam que eu reconhecesse a pessoa. Não precisei pensar muito, no meu coração não havia mágoa. O perdão foi completo. Não fui. Pedi a Deus que regenerasse essa pessoa. Que tivesse Misericórdia dela. Minha lembrança foi para uma frase de Jorge Luis Borges... ‘Não odeies teu inimigo, porque se o fazes, és de algum modo seu escravo. Teu ódio nunca será melhor que sua paz’ (Borges, 60).
Perdoar me ajudou a seguir pela vida... sem muitos traumas.
As bênçãos foram grandes no dia do assalto. Nosso filho mais velho, Max, estudava em Minas Gerais, se no dia do assalto estivesse em casa poderia sofrer agressões e querer revidar; o ladrão que me encontrou no banheiro virou as costas para eu colocar roupa; a chave, logo depois que saíram, eu a achei em cima de uma pilha de livros, como se tivesse sido colocada ali há pouco, bem à vista. As amarras nos meus pulsos e tornozelos me feriram muito, mas a injeção de analgésico que tomei no hospital fez afeito. O revólver não funcionou durante a Roleta Russa. Ninguém morreu. Não machucaram a minha filha. Ela até falou: ‘Mãe tinha um ladrão bonzinho que me acalmava a toda hora; ele tinha sapatos brancos. Dizia ter uma filha. E não queria meu mal’.
O aprendizado foi que meu Anjo, o Anjo da Sabrina e o Anjo do Wilson intercederam junto a Deus por nós, para que não fraquejássemos perante a dor e não desanimássemos no caminho.  Acreditar no ‘Anjo que nos transmite a presença protetora de Deus e acalma as agressões que pretendiam devorar-nos’(Grün, 62) é fundamental para seguirmos sem nos desviarmos nem para a direita e nem para a esquerda dos ensinamentos divinos. É preciso ver bênçãos onde alguns só veem tragédias.

DICA: Sente-se ou deite-se, depois relaxe a mente. Peça a presença de seu Anjo e faça uma linda saudação a ele. Depois, peça para ele lhe ajudar a lembrar de incidentes em sua vida que precisam de cura, de perdão. Transforme a lembrança em uma ficha preta e a entregue ao seu Anjo, peça que ele a queime e que lhe dê uma ficha branca...de paz. Agradeça.
        A LUZ DEPOIS DO TÚNEL!

Primeiro dia no apartamento. Segurança total. Alegria. Tudo em seus devidos lugares. Nada podia nos atrapalhar. Mas eu entrei em combate com meu Anjo. Já havia perdoado os ladrões, porém ainda não havia realmente perdoado meu Anjo. Questionava-o, muito. Descontei nele toda minha raiva. Disse-lhe que eu estava arrasada. Tornei-me uma derrotada, desanimei meus passos à santidade que eu tanto procurava, escureci na Fé, criei barreiras e ainda pior, disse que Deus era cruel e havia tirado muito de mim. Parecia que eu regredia no que há poucos dias tinha andado pelo caminho da certeza. Entendi que eu tinha chegado a uma zona de conforto mental ao me ver protegida dentro de um apartamento, por isso abri a porta da revolta. Resisti aos maus pensamentos. Resolvi que precisava me acalmar, curar as dores, sossegar meus pensamentos; ou melhor, mudar meus pensamentos. Vale o ensinamento de que ao nosso lado está um Anjo que ‘nos defende, quando pessoas lutam contra nós, mas também quando nos encontramos em luta conosco mesmos’ (Grün, 73). Pedi perdão para meu Anjo e para comigo mesmo. E, principalmente... para Deus.
À noite assistíamos televisão: Sabrina, Wilson e eu. Na telinha uma cena de assalto, pessoas encapuzadas, arma na mão, rendendo uma família dentro de sua própria casa. Tentei mudar o canal. Sabrina estática; fitava tudo, apavorada. Começou a respirar ofegante, a passar mal. Fomos para o carro, corremos com ela para o hospital. No caminho, ela em meus braços alertava: ‘Estou morrendo, mãe estou morrendo!...’ Eu gritei para Wilson correr mais.
Chegando ao hospital ela foi atendida e medicada. Uma junta médica a avaliou. Foi levada à UTI (Unidade de Tratamento Intensivo). Fui para uma capela no hospital e ali fiquei orando. Pedi ajuda a Nossa Senhora, aos meus santos protetores e ao meu Anjo da Guarda para intercederem pela cura da Sabrina junto a Deus. Saindo de lá encontrei o médico que me avisou: ‘sua filha está em coma’. Olhei para Wilson, ele me disse que Deus sabia o que estava fazendo, que deveríamos aceitar.
Eu não aceitei. Corri para à Unidade de Tratamento Intensivo - UTI. Era noite. ‘Eu virei um caramujo, me encolhi todinha, sentei-me naquele chão frio e desumano, abaixei a cabeça’[1]. Fui Jacó. Lutei às escuras com um Anjo. Um Anjo que queria levar minha filha. Briguei com ele. Não deixei que ele desembainhasse a espada. Agarrei-me nele e não o deixei dar o golpe final. Orei, gritei, chorei. Acabada à luta ele me feriu. Eu me rendi à dor. Levantei-me e segurei a mão de minha filha. No mesmo instante ela abriu os olhos.
Quando Sabrina voltou à vida, segurou firme a minha mão e disse: ‘Mãe... eu  ia por um corredor onde havia muitas portas, cada porta que eu abria aparecia uma cena de minha vida. Tudo ia bem até que eu abri uma porta de onde saíram coisas horríveis, encapuzadas. Monstros tentavam me pegar, eu comecei a correr. Corri, corri muito. Nessa hora apareceu uma luz e me indicou o caminho. Os monstros faziam um barulho horroroso e chegavam perto de mim. Até que encontrei o fim do túnel. A luz me contornou e ficou tudo num silêncio total. Os monstros desapareceram. Parei. Não senti medo, raiva, nem mesmo senti dor. A paz que me envolveu foi algo que não consigo descrever. Nunca senti nada igual, mãe. Eu ia dar o primeiro passo para entrar com a Luz... daí eu ouvi você me chamando... olhei para trás... então, eu voltei, voltei com muito medo e dor. Que aconteceu comigo, mãe?
Abracei minha filha. Falei o quanto foi bom ela ter voltado. Ficamos horas assim abraçadas. Presas pelo cordão umbilical chamado amor.
 Lembrei-me do quanto fui cruel com meu Anjo, falando sem pensar, com palavras de desentendimento, fraquejei na Fé. Na verdade o que os ladrões me tiravam foram bens materiais, o mais importante é o bem da vida; estávamos salvos e foi quando eu quase perdi minha filha, que percebi que a dor pode nos cegar ao ponto de não vermos o bem da vida.
Fui à capela do hospital e me ajoelhei, orei em reparação aos pecados que eu cometi ao me revoltar contra Deus. Vi que meu Anjo me trazia um turíbulo de ouro, com brasas e incenso, coloquei ali minhas fichas pretas que logo se queimaram e desapareceram. Recebi do Anjo uma ficha branca e, com ela,  renovei minha Fé, orando o Credo.
Dali a três dias minha filha saiu do hospital. Os médicos, não entenderam como ela podia estar viva.
Eu lutei por ela. Não foi egoísmo, foi amor maternal. Até hoje não tivemos uma explicação lógica para o que aconteceu e não procurei resposta entre os homens; prefiro não olhar para trás, não fuçar nesse passado, não lançar olhar inoportuno. Não quero me transformar numa estátua de sal igual à mulher de Lot (Gn 19, 15-26). Olho para frente, mesmo quando o ferimento me dói... eu olho para frente.
DICA : Sente-se ou deite-se, depois relaxe a mente. Peça a presença de seu Anjo e faça uma linda saudação a ele. Continue queimando suas fichas pretas e pegando as fichas brancas. Não questione as visões que lhe aparecerem, apenas agradeça. Não se deixe invadir pela raiva e não crie pensamentos de vingança, apenas peça para seu Anjo agradecer a Deus por tudo o que você passou nesses momentos difíceis.
              A CRIANÇA E DEUS!

       Minha válvula de escape sempre foi escrever. Quando transporto meus sentimentos ao papel, em forma de palavras, é como uma catarse que lava tudo que era ruim e o transforma em ensinamento, em bondade.
       Para me purificar do que estava acontecendo com minha filha, a luta dela em fisioterapias, hospitais, consultórios, pronto-socorro e em casa, para ficar definitivamente curada, resolvi escrever. À noite, em guarda na cabeceira da cama dela, esperando a vez de dar os medicamentos e de fazer a inalação na Sabrina, eu escrevi um texto onde mostro meu discernimento de que a mãe pode ser um Anjo para o filho. 

https://www.youtube.com/watch?v=iW-tOW4loMI 
        Então, quando comecei a escrever crônicas para vários jornais, essa crônica foi uma das  mais elogiadas, ela foi publicada no jornal Visão Leste. Era tempo do advento da Internet, então esse texto foi compartilhado por e-mail e passou a ser lido nas escolas, no Dia das Mães.
       Assim a crônica passou à universalidade em um planeta que começava sua era da informatização, internautas fizeram algumas transformações no texto, porém o diálogo está íntegro. Até hoje, eu cedo direitos para que essa mensagem seja publicada em livros e revistas. Ela foi publicada, também, em meu livro Troféu.

                               A Criança e Deus

Uma criança pronta para nascer perguntou a Deus:
- Dizem-me que estarei sendo enviado à Terra amanhã... Como eu vou viver lá, sendo assim pequeno e indefeso?
E Deus disse:
- Entre muitos anjos, eu escolhi um especial para você. Estará lhe esperando e tomará conta de você.
Criança:
- Mas diga-me: aqui no Céu eu não faço nada a não ser cantar e sorrir, o que é suficiente para que eu seja feliz. Serei feliz lá?
Deus:
- Seu anjo cantará e sorrirá para você... A cada dia, a cada instante, você sentirá o amor do seu anjo e será feliz.
Criança:
- Como poderei entender quando falarem comigo, se eu não conheço a língua que as pessoas falam?
Deus:
- Com muita paciência e carinho, seu anjo lhe ensinará a falar.
Criança:
- E o que farei quando eu quiser Te falar?
Deus:
- Seu anjo juntará suas mãos e lhe ensinará a rezar.
Criança:
- Eu ouvi que na Terra há homens maus. Quem me protegerá?
Deus:
- Seu anjo lhe defenderá mesmo que signifique arriscar sua própria vida.
Criança:
- Mas eu serei sempre triste porque eu não Te verei mais.
Deus:
- Seu anjo sempre lhe falará sobre Mim, lhe ensinará a maneira de vir a Mim, e Eu estarei sempre dentro de você.
Nesse momento havia muita paz no Céu, mas as vozes da Terra já podiam ser ouvidas. A criança, apressada, pediu suavemente:
- Óh Deus!... se eu estiver a ponto de ir agora, diga-me por favor, o nome do meu anjo.
E Deus respondeu :
- Você chamará seu anjo de... MÃE!

Certa vez, durante a Semana Cassiano Ricardo em São José dos Campos, fiz questão de apresentar essa minha crônica no Espaço Mário Covas, enquanto no telão passava o vídeo com imagens de Anjos com a leitura na maravilhosa voz de ótimo locutor radialista[2], ‘eu passeava pelos espectadores... vestida de Anjo’[3]. Fiquei muito emocionada, pois era minha homenagem ao meu Anjo da Guarda. Muitas vezes eu vi essa minha crônica como o dizeres “autor desconhecido”.
DICA: Sente-se ou deite-se, depois relaxe a mente. Peça a presença de seu Anjo e faça uma linda saudação a ele. Se você é mãe, volte no tempo, visualize-se grávida e agradeça pela dádiva da gestação e do nascimento de um filho e ao mesmo tempo a presença do Anjo de seu filho desde a concepção. Se você é pai, visualize seu filho, desde o nascimento e agradeça pelo seu Anjo da Guarda. Se for filho (a), agradeça seu Anjo por ser companheiro do Anjo de sua mãe e de seu pai.
        APRENDER A ORAR COM O ANJO!

Peguei vários livros e matérias sobre a doença. Li, reli, tentei entender de todas as formas. Fiquei mais confusa ainda do que na minha ignorância. Alguns artigos falavam que ela era hereditária; outros, que era uma doença psicológica. Alguns, diziam que não tinha cura e, a maioria, afirmava que a cura acontecia.
Estudei o sistema respiratório todinho, me diplomei em pulmão; sabia o nome de todos os órgãos do aparelho respiratório e como se dava o processo da inspiração e da expiração. Tudo isso para melhor rezar. Para que eu dissesse certinho, o lugar que devia ser curado. Estava me embasando do canal para a cura. Precisava explicar a doença. Deus, certamente iria ouvir tanto empenho, tanta dedicação e tanto aprendizado.
Estraçalhada por dentro, resolvi que dependia de minha maneira de orar, para que minha filha fosse totalmente curada. Sabia que meu Anjo estava ali comigo, mas eu tinha de exercer meu papel de mãe e, como mãe, tinha o poder de pedir em favor da minha filha, não podia passar mais tanto encargo... ao meu Anjo; decidi que era uma responsabilidade minha, só minha. Resolvi que deveria mostrar ao meu Anjo da Guarda que eu sabia orar; ia atingir o Coração de Deus com minha oração e, Deus, não teria como escapar a esse pedido. Nesse intuito, eu pedi que meu Anjo me auxiliasse... sim; ele levaria a minha oração até Deus. Esse seria o encargo dele, o meu seria provar que eu aprendi a orar. Que eu tinha Fé.
Meu Anjo presenciou toda minha busca por saber orar, ele ficaria orgulhoso de mim e... ainda mais... Deus ia ficar ciente de que meu Anjo havia progredido no sentido de me ensinar a viver em paz e saber orar. Precisava dar esse presente ao meu Anjo.
Depois de vários dias, estudando enciclopédias, lendo artigos e decorando o sistema respiratório, era hora de colocar em prática todo conhecimento que adquiri.  Ia rezar com todo meu entendimento. Me ajoelhei diante do altar que fiz na sala de casa. Pedi ao Pai: ‘Senhor Deus Pai Todo Poderoso, mande o Espírito Santo curar minha filha; que sua Luz entre pela traqueia, desça até os pulmões direito e, também, o pulmão esquerdo; vá até todos os brônquios, os dois; penetre nos alvéolos, dissolva todo muco espesso, neutralize as bactérias, as faça saírem naturalmente...  e cure minha filha, para sempre. Amém!’
Acabei a oração, respirei fundo, não havia por onde Deus fugir, eu havia aprendido a orar e tinha controlado todas as variáveis a respeito da doença; tudo ia ficar bem. Daquele jeito eu não tinha deixado nenhuma dúvida. Afinal, fiz a oração da minha vida, rezei da forma mais coerente possível.
Não demorou nem um segundo e ouvi nitidamente a voz de meu Anjo: ‘Ritelisa, aprenda... para você acender a luz, não precisa dizer: energia entre pelo fio de cobre, vá pelo conduíte, chegue até a lâmpada, ligue os filamentos e a acenda. Você simplesmente aperta a tomada. Ritelisa, seja simples na oração. Deus só precisa que acione a tomada... e ela se chama Fé’.
Eu fiquei rubra de vergonha e, ao mesmo tempo, alegre, por ter recebido um ensinamento tão grande. Apenas respondi: ‘É que eu desejava saber orar direito’.
Com atenção ao meu anseio por saber orar, um dia após essa ‘tentativa’ de mostrar sabedoria, participei da Missa na Igreja de São Sebastião e, durante a Liturgia Eucarística, no oferecimento do Corpo de Cristo na espécie de Pão, meu Anjo três vezes fez a oração do Anjo da Paz de Portugal: ‘Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão por aqueles que não creem, não adoram, não esperam e não Vos amam’; e no momento do oferecimento do Sangue sob a espécie de vinho, eu o ouvi pronunciar outra oração... apenas uma vez. Guardei-as em meu coração. Logo depois, na Missa, eu ainda de joelhos, recebi de meu Anjo o conselho de sempre orar como ele fez durante a Consagração, pois é o momento sagrado em que Cristo se entrega ao mundo, perpetuando o Mistério Divino.
 Comunguei em reparação aos pecados cometidos contra o Sacratíssimo Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria, igual sempre faço, há dezenas de anos. Ainda mais na missa comemorativa aos 15 anos de nascimento de minha filha.
Outro ensinamento que o Anjo me fez é o de que existe uma falange de Anjos (sete) que louvam incessantemente diante do trono de Deus, dia e noite, noite e dia; por isso, quando na Missa eu for orar ou cantar o ‘Santo’ estarei unida ao coro desses Anjos. Desde esse dia, sempre que na Missa ou em casa (principalmente essa parte no exorcismo do Papa Leão XIII) vou entoar essa oração, eu me deixo levar pela alegria de estar cantando ou orando com os Anjos. 
Esses são ensinamentos que eu pratico até hoje. Desde, então, quando vou orar eu primeiro peço que meu Anjo me ajude a ter Fé. 
       O jesuíta Anthony de Mello, disse que ao orarmos, Deus olha para nosso coração e não para nossas fórmulas. Muitas vezes, as palavras do intelecto desconhecem, o que o coração diz, pois, a linguagem dos sentimentos, tem mais força do que as verbalizadas. 


          Foto: uma de minhas crônicas onde eu falo um pouco a respeito dessa experiência.
DICA: Sente-se ou deite-se, depois relaxe a mente. Peça a presença de seu Anjo e faça uma linda saudação a ele. Depois peça para ele que ajude você a orar com Fé em Deus que tudo acontecerá para o bem de sua vida.
        A MEDALHA DOS MILAGRES!

Um ano depois do assalto, no exato dia, eu recebi correspondência de um amigo seminarista, amigo de infância... Emmanuel. Dentro do envelope havia uma medalha de Nossa Senhora das Graças. Uma linda medalha.
Esse meu amigo não sabia que aquele era o aniversário do assalto. Nem sabia, o quanto eu queria uma medalha como aquela. Mas, meu Anjo da Guarda sabia. Pedi uma medalha a ele várias vezes. Eu podia comprar a medalha. Porém, queria ganhá-la... e a ganhei.
E, ainda mais... dali alguns meses meu marido esteve em Paris, foi à Rua Du Bac, visitou o Santuário da Medalha Milagrosa. Voltou com centenas de medalhas as quais distribuímos para os amigos, para os parentes e para os desconhecidos.
Martin Claret escreveu que ‘a função derradeira das profecias não é de predizer o futuro, mas a de construí-lo’. Mesmo que a construção seja dolorida, é o jeito de sermos moldados.
       Nessa época, compreendi Elizabeth Kübler-Ross ao dizer que o sofrimento é parecido com o Grand Canyon. “Se eu dissesse ‘é tão bonito que é preciso protegê-lo do vento e da tempestade’, ele jamais poderia ter sido esculpido pelo vento, e você nunca apreciaria sua beleza. Essa é minha resposta a respeito do sofrimento. Se você não sofrer, não crescerá. É preciso passar pela dor, pela perda, pelas lágrimas e pela raiva” (Jovanovic, 266).


 Foto: Medalha de Nossa Senhora das Graças que me enviaram pelo Correio.

DICA: Sente-se ou deite-se, depois relaxe a mente. Peça a presença de seu Anjo e faça uma linda saudação a ele. Continue, todos os dias, no mesmo horário, orando junto com seu Anjo, pedindo o dom da Fé.
        MARCA DA LUTA COM O ANJO!

A marca que o Anjo me deixou foi grande. Só compreendi isso um ano mais tarde. É que, na noite anterior em que a minha filha foi internada na UTI, eu tive um sonho. Sonhei com Nossa Senhora de Fátima, chorando. Ela me olhava e as lágrimas escorriam naquele rosto de pureza. Acordei assustada. Dormi novamente e tive o mesmo sonho. Acordei mais assustada ainda. Orei. Contei o sonho para o meu marido.
No dia seguinte, enquanto a Sabrina era atendida, fui à capela no hospital e lá encontrei uma estampa de Nossa Senhora... igualzinha a que sonhei; só faltavam as lágrimas, as minhas começaram ali. O nome do hospital?! Nossa Senhora de Fátima. Isso me deu força para continuar firme na Fé.
Um ano se passou, Sabrina fez 15 anos e foi celebrada, pelo Padre Djalma, uma Missa em Ação de Graças pelo dom de sua vida. Max voltou a estudar em São José dos Campos, foi uma bênção, sentíamos muita falta dele. 



 Wilson foi despedido do emprego que se dedicou durante mais de 17 anos. Isso doeu muito nele. Tínhamos passado pelo assalto, a internação da Sabrina e, naquele momento, a perda do emprego. Estávamos passando por um período difícil... Espalhamos currículo para as empresas no Vale do Paraíba. Mesmo assim, fomos procurar emprego em outra cidade, em outro estado. Quando lá estávamos eu sonhei com um contrato de trabalho para meu marido; tinha até o nome da firma. Falei de meu sonho para Wilson. Ele não acreditou. Queria ficar ali, tínhamos acabado de chegar, era domingo. Insisti para voltarmos. Voltamos. Wilson contrariado saiu de casa cedinho na segunda-feira. Não acreditava.
E, eu? Eu em casa aguardava... O telefone tocou; tudo certo. Wilson chegou. Contei-lhe que a entrevista ficou marcada para aquele mesmo dia. E ainda, fui mais longe... avisei-o que iria viajar para a Europa como sempre quis. Isso tudo estava no sonho, um pedido que fiz ao meu Anjo. Realmente, dali alguns meses a firma o mandou trabalhar na Europa.
Daí por diante, eu pensei que a coisa seria fácil: sonhar e prever o futuro. Comecei a gostar e a me aprofundar nisso. Comecei a prever... acidentes de carro com parentes; ataques cardíacos de primas; acidentes com padres amigos. Em tudo eu agradecia a Deus através do mensageiro: meu Anjo da Guarda. Eu sabia quais os sonhos eram profecias, eles se repetiam; eu tive a compreensão, através de meu Anjo, de orar pelo que eu sonhava.
Passaram-se alguns meses eu comecei a ficar assustada. Alguns dos meus questionamentos ao meu Anjo não encontrei respostas: Sonhando ou não aquilo aconteceria? Até que ponto minhas orações seriam intervenções? Eu conseguia, através da oração, modificar alguma coisa? Era vaidade minha?
Fiquei quase em pânico, logo depois de conversar com uma prima para a qual eu previ o falecimento da irmã dela, que aconteceu em poucos dias. Senti-me muito mal. Senti-me impotente, frustrada e maldosa... Fiquei no meu quarto, peguei a Bíblia, orei muito pedindo que Deus me desse um discernimento. Desabafei com meu Anjo dizendo que era muita responsabilidade... eu sofria a dor do saber. Resisti. Pedi trégua ao meu Anjo. Não queria mais saber daquilo. Fiquei com medo daquele sentimento de poder que me invadiu. Porém, a voz de meu Anjo veio rápida e suave: ‘Saiba usar esse dom’. Não era o que eu queria ouvir, relutei, me fechei por completa. Eu tinha medo até de dormir, não queria mais sonhar. Fiquei várias noites em claro, lutando com meu Anjo, dizendo para ele me livrar dessa tortura.
Até que, certa noite, eu não aguentei ficar acordada e dormi. Não deu outra... sonhei... sonhei que eu entrava numa sala escura e havia uma pessoa perto de uma mesa rústica de madeira (dessas de açougue), e em cima estava uma criança deitada. Tentei segurá-la. A pessoa me informou: ‘Não adianta, essa já está morta, pegue a outra e a salve’. Ela se virou e colocou um recém-nascido na mesa. Nisso eu acordei. Orei, orei muito. Voltei a dormir e tive o mesmo sonho. Era o sinal. Contei o sonho para o meu marido, que me tranquilizou e saiu para o trabalho.
Ajoelhei-me e orei, pedi discernimento ao meu Anjo, se eu devia ou não aceitar esse sonho como uma missão a ser cumprida ou eu devia esquecer o sonho. Silêncio. Entendi que essa era uma questão que somente eu podia decidir. A lei do livre-arbítrio, em certas ocasiões, torna-se um poço escuro onde temos de nos lançar, de vez em quando, sem avistarmos a luz ou ouvir a voz do Anjo. Entendi o silêncio de meu Anjo. Pensei e repensei, pesei meus sentimentos. O peso maior ficou para a questão: ‘Quero ser útil a Deus’. Então, ajoelhada e ciente de que podia enfrentar novos desafios, me ofereci em prol do bem a ser feito. Com  vontade de servir, sem restrições. Esse foi meu discernimento, poder ajudar com tranquilidade.
A resposta me veio rápida; na mesma manhã, uma pessoa que eu nunca tinha visto antes, bateu à minha porta e me pediu socorro. Ela tinha tomado uma caixa de medicamentos para dormir; queria morrer. Resolvi levá-la ao melhor médico psiquiatra de São José dos Campos, Dr. Vitti. A caminho do consultório eu pedia a Deus que ela fosse salva. Nem bem chegamos à clínica ela vomitou todo medicamento, isso a salvou. Fiquei com ela por alguns dias. Ela melhorou e contou-me que estava grávida; queria abortar, por isso tinha engolido tantos comprimidos. Mas, tinha mudado de ideia... ia levar aquela gravidez até o fim,  pois já havia feito um aborto e isso muito machucou a sua alma. Dali alguns meses, ela teve uma linda criança, uma menina.  E eu?!.. eu aprendi a lição: humildade, caridade e amor caminham juntos. Não precisamos entender... precisamos dar o ‘sim’, e sermos canal de graça; mesmo que isso requeira de nós uma luta constante.
Continuo com meus sonhos, são sazonais. Hoje entendo um pouco mais, sei que meu sonho é minha ferida. Quando sonho eu fico lutando novamente. Lutando pela vida de alguém. Lutando pela felicidade. Sofro; envolvo-me, rio, choro; algumas vezes entendo, outras vezes nem procuro entender. Na maioria das vezes as pessoas se distanciam depois que as coisas ficam resolvidas, na verdade 80% das vezes as pessoas se vão e nunca mais me dão notícias. Até hoje eu não entendo a razão. Talvez porque eu as vejo como realmente são; talvez porque tenham medo que eu desvende algum segredo... como se eu fosse vidente ou tivesse magia. Não sei. Só sei que sou humana e não tenho entendimento sobre isso, nem controle. Deixo-me ao comando de Deus, tendo um Anjo como mensageiro. Deus quando dá a vontade... dá também a realização.
Eu já havia estudado os termos de Jung: ‘Não nos atrevemos a dizer que o sonho tenha uma previsão profética; mas podemos supor com razão que há neste material subliminar, combinações de ventos futuros que são subliminares, simplesmente porque ainda não atingiram o grau de clareza suficiente para se tornar consciente’. Mas, viver isso, realmente é uma outra questão.
DICA: Ofereça-se para fazer o bem sem programar a quem. Para isso, peça ajuda de seu Anjo, se disponha a atender ao chamado para ser um elo na corrente do bem. Agradeça a Deus pelo dom da sua vida e pela oportunidade de ajudar.
        LIGA DE METAL FORTE!
      
       Max, sempre inteligente, bonito demais (sou mãe coruja, mas que ele é bonito isso é), desenvolveu uma aptidão para a computação. Sentimos muita falta dele quando foi estudar eletrônica em Minas Gerais, ainda bem que ele descobriu que o queria mesmo, era estudar programação de dados... em São José dos Campos. Demos para ele um computador mais atual do que o Apple que usava. Novamente ele desmontou e montou o computador em algumas horas.
       Nessa época meu marido se matriculou no SENAC para aprender programação BASIC e levou Max junto. Com o passar das semanas o professor Airton ficou muito encantado com o Max, permitindo um tempo exclusivo para conversarem depois da aula. Até mesmo foi em casa nos dizer que o Max não podia receber o diploma (pois exigiam idade mínima de 18 anos), mas que eu e Wilson devíamos saber que nosso filho era inteligentíssimo. Aliás, Airton para  aprender um pouco mais de computação com o Max, começou a frequentar nossa casa.
       Max rapidamente dominou a linguagem de BASIC (na época um desenvolvimento revolucionário) e as peças do computador, isso é... ele entendia tudo de Software e de Hardware. 
 
       Sempre conversei com o Anjo da Guarda de meus filhos e por isso entendia a condição de cada um. Educar não é fácil, amar é o amalgama para que a liga torne o metal forte como o aço. Já sondei a alma de meu filho através de nossos Anjos da Guarda, para tentar desvendar essa dimensão de inteligência dele e vi que a questão é hereditária. Devo me conformar em não conseguir entender tudo que vejo; algo que vai além de minha percepção humana. Fiquei satisfeita e nunca mais questionei, sei que é um dom que o Max possui.   
DICA: Deite-se, ou mesmo sentado, relaxe a mente e peça ao seu Anjo para lhe dar alguns instantes de plenitude divina. Se tiver filhos peça que seu Anjo ajude você a entender seu filho nas questões físicas, psicológicas, intelectuais, religiosas, espirituais e sentimentais.
        VER ALÉM DA VISÃO

Linda cidade de São João del Rey... sempre que vou para lá eu encontro detalhes novos. Um muro de pedras, um lampião, uma fachada de casa, o tom das flores, pedras no riacho; e no telhado as plantas ignoram o solo.
Fim de ano, eu ali em São João. Planejei durante vários dias a viagem. Economizei, fiz o roteiro. Pousada, compras, visitas aos museus, ir de Maria Fumaça até Tiradentes e, é claro... fotografar tudo. Meu sonho.
Tudo transcorreu as mil maravilhas, a viagem de carro, a pousada, as igrejas, museus e cemitérios... só que... chovia. Chovia demais. Fotografar?!... só em lugares fechados. Lugares planejados. A natureza, céu, montanhas, riachos, bosques, estavam cobertos por uma cortina de chuva.
Mesmo assim, coloquei o filme na máquina e cliquei mesmo que embaixo de chuva. Tentei puxar o para-sol da lente e torná-lo para-chuva, mas os pingos vinham de todos os ângulos. Limpei os pingos na máquina, não dava conta, ia perder o equipamento. Desisti. Fui para o carro... fechei os vidros e fiquei ali quietinha. O limpador de para-brisa funcionava o tempo todo. Os vidros laterais inundados de gotículas que escorregavam festivas até a lataria. Que tristeza... queria tanto fotografar. Quase chorei (sou chorona, sim...) de decepção.  
O calor dentro do carro, o barulhinho da chuva, me deu vontade de dormir. Recostei, estava frustrada demais para relaxar. Viajei centenas de quilômetros e agora essa... tempo chuvoso. Os dias anteriores estavam tão sequinhos, ensolarados, por que essa chuva agora, bem no dia em que eu me programei para passear? Que triste! Não poderia viajar tanto só para dormir no carro por causa da chuva. Ao mesmo tempo, havia aprendido tanto com meu Anjo, tanto que, eu fiquei com vergonha de meu pensamento, e não quis questioná-lo a respeito de minha frustração. Quando cheguei a esse entendimento, me acalmei.
 ‘Em um segundo eu me ajeitei no banco do carro. Esqueci minha frustração, fixei os olhos nos pingos. Relaxei o olhar... em cada pingo que caía no para-brisa eu pensava na palavra amor... de pingo em pingo eu fui compondo um poema úmido, translúcido, vertical, sonoro, tecido com a palavra Amor. Fiquei alguns minutos nesse estado de letargia e êxtase. Até que eu via apenas pingos... pingos... pingos...  e... eureka!!! Como não pensei nisso antes? Peguei a máquina, mirei e cliquei.’[4]


Dali a pouco a chuva acabou, o sol surgiu, parecia que nem havia chovido. Eu gostei tanto de mudar minha maneira de olhar o mundo. No chão a água ainda tornava as pedras um convite a um caminhar diferente. Tirei os sapatos, desci do carro e andei pela rua para sentir que aquela chuva acontecera e, através das poças d’água, eu libertei a criança que existe em meu coração; dancei. Ri ao me lembrar das vezes, em Santa Rita do Sapucaí, em que eu saía na chuva para me deliciar na enxurrada. Tempo em que eu era Ritelisa.
Ao revelar o negativo, encontrei bem mais do que eu imaginava, a fotografia ficou um espetáculo. As gotículas ficaram em primeiro plano e, atrás, a fachada colonial: duas grandes janelas azuis e, no meio, uma porta amarela. Ampliei a foto. Consegue-se ver até a fechadura. Tem pessoas que passam a mão na foto tentando secá-la.
Depois de tantos anos eu compreendi o que o Anjo levou tempos me ensinando: ‘Não podemos desistir de nossos sonhos, nossas vontades, só porque acontece algo que não estava programado, só porque fomos pegos de surpresa. Basta colocarmos nossa atenção no inusitado acontecimento. Não lutar, e, sim, amar. O amor transforma.'   
O que às vezes nos parece ruim, pode tornar-se nosso aliado; e algo exclusivo acontece. Somos condicionados a saber de antemão os acontecimentos. Não queremos ser surpreendidos.  Quando surpresas acontecem somos sacudidos, acordados para a realidade. Saímos do sonho. Queremos o que conhecemos, sem sensibilidade para as diferenças, para as mudanças. É tão simples... basta aceitar e abandonar-se ao momento, como ele é. Nossa sensibilidade dará um olhar diferenciado, irá encaixar a situação ao sonho. Haverá inovações. Sem murmurações.
E assim, minha foto ficou esplêndida e, minha alma, aprendeu a lidar com o fato consumado, sem me sentir fracassada; resistir ao fato é loucura. Na hora em que parei o carro, eu decidi... ou me abandonaria ao acontecimento ou ficaria irritada. Não podia parar a chuva, mas tornei-a minha aliada.

DICA: Quando o sentimento de impotência lhe ocorrer, seja por fatores da natureza ou pelo humano, aceite sua limitação e, junto com seu Anjo, agradeça a Deus pelo acontecimento. Relaxe a mente e olhe além do acontecimento. Encontrará a solução.
       A MENINA NA FOTOGRAFIA!

Juracy, minha amiga das letras, me pediu material para preparar uma aula de foto-poema. Ela necessitava de fotos. Eu fiquei horas e horas separando as melhores e selecionei sete fotografias. Sempre que vejo fotos, procuro encontrar algo diferente nelas, tento vê-las como se fosse a primeira vez; por isso, demoro tanto para escolhê-las. Gosto de relembrar os lugares, sinto o cheiro do local fotografado, sei dizer em que época do ano foi tirada e ainda me vem à lembrança os sentimentos que me fizeram clicar a cena.
Em cada foto, eu assino no canto direito, igual um pintor que assina sua obra. Ao invés de tintas e tela, eu uso caneta sem tinta. Têm fotos que devem ser clicadas em um segundo, para não perder o movimento da cena. Já, em outros casos, eu estudo o ângulo, crio as condições e procuro emoldurar a cena. Eu me delicio em brincar com os efeitos dos filtros e com o diafragma da máquina.
Bem... minha amiga Juracy, amou as fotos. O resultado foi tão bom que houve uma exposição desses trabalhos na Casa de Cultura Chico Triste, em São José dos Campos.
Fui visitar a exposição. Tudo bem arrumadinho, as fotos com moldura e, escrito em baixo, o poema mínimo, tipo haicai. Em cada obra havia o nome do aluno. Fui olhando cada uma e tive duas grandes surpresas.
A primeira foi a respeito da foto que tirei em São João Del Rei, cidade histórica, mineira. Impressionou-me os calçamentos das ruas da cidade, são do tipo ‘pé de moleque’ (calçamento de pedra). Em determinado momento, depois de já ter andado muito (vamos assim dizer... clicado três filmes), eu tirei os sapatos e, aproveitando o despojamento, andei descalça pela rua. Depois de enquadrar vários ângulos, hora de fotografar... me agachei no meio da rua (quase fiquei deitada para tirar a foto). No primeiro plano fotográfico ficaram as pedras e, no último plano, aparecem as pontas dos campanários da igreja. O que me surpreendeu foi o poema inspirado através da fotografia: ‘Na rua deserta / fotógrafa feliz / massageia os pés’. Até mesmo a sensação da massagem nos pés que tive ficou gravada na foto e foi captada pela sensibilidade de um poeta, além da minha alegria. 


O caso da outra foto, também me surpreendeu. É uma fotografia que tirei em Santa Rita do Sapucaí. Estava passando pela avenida beira-rio; junto com minha sobrinha. Eu ia fotografar um recém-grupo de rock, Jota Quest, no hotel da cidade; era dia de festa, festa de Santa Rita. Dirigia feliz, cantarolando, quando freei com força. Minha sobrinha até se assustou. Desci do carro e, corri, para não perder a cena. Num casarão antigo, inabitado há vários anos, com porão de pedras, fachada desgastada, havia uma menina debruçada numa das janelas. Ela estava vestida igual uma dama antiga, com chapeuzinho e tudo mais. Lembrei-me do tempo de criança, de quando eu ia à procissão de Santa Rita. Aquela menina era eu, e não perderia aquela cena por nada no mundo. Procurei um jeito de emoldurar a foto, com os galhos de uma frondosa árvore. A menina nem se moveu, parecia de outro mundo. Ainda hoje, quando olho esta foto fico arrepiada.
O melhor foi o poema que compôs a fotografia: ‘Tal casarão, quase em ruínas, ainda da janela se avista Ritelisa’. Eu fiquei em estado de choque por alguns segundos. O poeta Felipe captou na foto até mesmo o meu apelido de criança ‘Ritelisa’. Até hoje o casarão está lá. Mas, a janela onde apareceu a menina foi desmanchada; sem vestígios. Ficou a fotografia para contar a história e, meu Anjo... para me sorrir.

Isso me serviu de lição. Os dias em que estou triste, eu abro minhas gavetas de fotos, tiro as mais alegres. Relembro cada minuto, cada lugar, cada sentimento. Deixo-me ser tragada pela luz da fotografia. Esqueço os problemas e sonho. Elevo minha alma a Deus e peço que meu Anjo da Guarda me ajude a lembrar dos momentos bons impregnados em cada registro daquelas imagens. E, depois, quando guardo todas as fotos, sem esforço algum, aparecem as resoluções dos mais variados problemas. Até parece coisa boba, brincadeira de criança. Pois é ser criança mesmo; abandonar-se junto ao Anjo protetor e acreditar que ele gosta de ver fotografias comigo. Afinal, sempre há uma criança escondida em cada um de nós. Eu, deliberadamente, sempre que posso, deixo essa criança aparecer.
Entendi J. Campbell quando disse que há mais realidade em uma imagem do que em uma palavra. Têm dias, que eu fico apenas com as imagens, e me esqueço das palavras.[5]

Foto: uma de minhas crônicas onde eu falo um pouco a respeito dessa experiência.
 DICA: Tudo que fizer, faça com toda alegria na alma, seja desde uma tarefa simples ou a mais complicada. Seja trabalhando ou no lazer. Aprenda a olhar com os olhos da alma. Seja sensível para as mais sutis evidencias de algo surreal, não perca tempo duvidando, ao contrário, acredite e tire um tempo para apreciar o inusitado.
       MÚSICA PARA ALEGRAR UM ANJO!

Minha intimidade com meu Anjo me levou a querer agradá-lo, já que ele sempre me dá toda atenção e carinho em todos os momentos de minha vida. Eu sempre busco uma estátua de Anjo que seja digna dele e jamais encontrei uma que fizesse jus à sua beleza, à sua Luz.
Na juventude eu sempre cantava várias vezes esse pedaço de uma música: ‘Quem me vê assim cantando, não sabe nada de mim. Dentro de mim mora um Anjo, que tem as asas pintadas, que tem as unhas pintadas e passa horas a fio, no espelho de um tocador’, achava lindo sussurrar essa música como se fosse um segredo meu e do meu Anjo. Apesar de dizer que as asas e as unhas eram pintadas; parecia que agradava meu Anjo. 
Aprendi com o tempo, agradecer a Deus por me presentear com um Guardião tão maravilhoso e, ainda, me permitir o discernimento de fomentar diálogos com meu Anjo durante toda minha existência. Sei que esse agradecimento faz meu Anjo feliz, ou devo dizer... satisfeito.
Senti necessidade de algo mais, de mostrar ao meu Anjo que ele era especial. Foi quando me veio o sentido de que ele gosta de música, aliás, creio que todos os Anjos gostam de música.  Eu me lembrei dos Sete Coros de Anjos que cantam diante do trono de Deus. Sim... era essa a resposta que eu precisava.
A oração que eu faço desde que me entendo por ‘gente’ é a do Santo Anjo da Guarda, diariamente a pronuncio.  Com alegria, eu procurei uma forma de musica-la e, de torná-la mais harmoniosa com meu sentido de gratidão. Foi só pensar na procura e, em um minuto, me veio à música, como se eu a estivesse cantando com a mais incrível orquestra filarmônica do mundo... acompanhada de violinos, flautas, tambores, baixos, saxofones, piano, clarinetas, violoncelos e muitos mais instrumentos que, tocavam no compasso de minha oração. Cantei tão alto!... acho que meu vizinho Fabinho escutou, pois em questão de minutos ele começou a tocar sax no apartamento ao lado.
Esse arranjo musical que deu ritmo à oração, eu já ouvi quando criança, talvez em uma participação escolar, quem sabe em alguma rádio, ou mesmo em um LP de meus pais. Tenho certeza que sim, mas já fazia mais de três décadas, que eu não ouvia essa música, tocada em algum instrumento eletrônico. Eu incorporei a melodia à oração ao meu Anjo da Guarda. Gosto desse exercício diário, principalmente quando estou dirigindo, porque eu posso cantar bem alto sem que vizinhos me olhem assustados (afinal... não sou tão afinada).
Depois desse ‘agrado’ ao meu Anjo da Guarda me veio uma vontade muito grande de saber o nome dele. Jamais havia me importado em saber, mas a vontade me veio assim de repente, causando-me um nó na garganta. Precisava saber e tratá-lo pelo nome, seria mais digno. Orei a esse respeito e pedi a ele, que no tempo certo, me desse essa satisfação... se eu merecesse.
       Durante todos esses anos, aprendi que uma das funções de meu Anjo é me corrigir quando saio do caminho certo e procuro atalhos. Sei que toda correção não é ligada a castigo e, sim, à lembrança da minha identidade mais profunda... o amor! Ele jamais falou bruscamente ou se impacientou comigo; mesmo durante uma correção, sua voz é melodiosa... ou simplesmente se cala e deixa que eu ouça minha música interior.[6]


                            Foto: crônica que escrevi a respeito da música interior.
DICA: Ao orar peça a presença de seu Anjo; coloque uma música suave, um violino, flauta, piano, harpa ou o que mais você apreciar, o que lhe dá paz. Durante vários dias, use a mesma música. Agradeça a Deus por tudo. 
       NA MIRA DO OLHAR FOTOGRÁFICO

Sempre que passava pela Dutra, na região do Vale do Paraíba, havia um acampamento do grupo MST – Movimento dos Sem-terra, perto de Roseira. Fora assunto nos jornais para um mês. Até que se esqueceram deles; mas, eu não.
Fui até lá. Pedi autorização para fotografá-los. Houve uma reunião entre os homens e me deixaram fotografar só as mulheres e crianças (homens, não!). Era a ordem. Ok!... lá fui eu ficar com as mulheres. Benditas mulheres, não largaram de seus afazeres para fazer pose ou sorrir. Fogão de terra batida; chapa de ferro, panelas amassadas, lenha cortada. No barraco a cama era uma vala no chão, coberta por um encerado, para não pegar umidade. As colunas eram bambus e, as paredes eram plásticos negros. A cozinha... comunitária. Só as camas eram individuais, os outros aposentos eram de usufruto de todos.
As crianças brincavam, se divertiam com bonecas e carrinhos. Quando eu direcionava a máquina para o lado delas, corriam e pulavam de alegria.

 
 Hora do almoço, a galinha era depenada com água quente e os legumes descascados em trabalho comunitário.
Fotografei bastante.
Meus olhos notaram um menino distante; solitário. Tentei chegar perto dele e fui impedida. De longe continuei a olhar o menino mesmo sem que as pessoas percebessem meu interesse. Orei, pedi ajuda para meu Anjo, pois algo me dizia que eu tinha de ver aquele menino, o sussurro do Anjo quando sopra no coração da gente, mesmo que silencioso, revolve sentimentos e nos deixa inquietos na vontade de fazer valer o que desejamos.
Desde que tenhamos vontade e, que ela seja para o bem, tudo acontece. Parece que é a chave mestra para que o Anjo haja em nós. Minha resolução foi instantânea. Troquei a lente por uma teleobjetiva 300. Fiz mira em várias direções e soube aproveitar o momento exato para ficar com o garoto no visor e clicar rapidamente. Tive de ser rápida, pois me vigiavam. Deu tempo para uma foto em close (foi o que bastou).
Passei o resto do dia com os Sem-terra e, depois, fui convidada a me retirar. Bati as últimas poses, rebobinei o filme, o tirei da máquina e o coloquei no estojo térmico.
Voltei à minha casa e, no dia seguinte, fui ao laboratório do Josino e da Neusa; amigos para quem eu trabalhava com fotografia. Ao revelar a foto, me admirei com o olhar do garoto. Ampliamos a foto. Os olhos dele transmitiam uma tristeza profunda. Uma fragilidade absoluta. Uma dor sem cura. Exagero? Pode acreditar que não. Ampliamos um pouco mais.
Na mão dele havia um radinho de pilha ligado a um fone no ouvido. A música por mais triste que fosse não poderia ser a causa de tanta dor. Afinal... era apenas uma criança... Quem sabe até ouvisse música infantil e alegre. Seja como for, seus olhos expressavam uma tristeza profunda. E as manchas no pescoço? Por causa do que seriam? Ampliando mais um pouco... Marcas de esfolamento!  Do que seria?!  Impossível ser de queda. Não daquele jeito e naquele lugar.
Daí eu comecei a avaliar a fotografia. Por que a blusa amarela de lã se o dia estava tão quente? Dava para ver que ele estava doente, o muco saindo do nariz vinha quase até a boca. Dava para ver que tinha deficiência física, o dedo indicador era do tamanho do dedão. 



Analisei muitas coisas visíveis. Mas, nos olhos ficou o enigma de uma dor tão grande que era impossível suportar olhar a foto por muito tempo. Fui para casa e orei pelo menino. Pedi para que meu Anjo da Guarda falasse com o Anjo da Guarda do menino e o ajudasse a ter momentos de amor, de paz, de carinho, de alegria. Minha tristeza era grande e, ainda por cima, nem mesmo sabia o nome do menino; queria muito saber.
Sempre que oro para meu Anjo não preciso ficar o dia inteiro batendo na mesma tecla, eu oro e acredito que ele fará o que for possível e pronto. Não peço mostrando o que é possível ser feito, pois sempre me surpreendi com os resultados, pois o possível para o Anjo vai além de minha capacidade de imaginação. Para ele não existe a palavra impossível.
Dali alguns dias saiu em matéria de primeira página no jornal Valeparaibano: ‘Fogo destrói acampamento dos Sem-terra’. O acampamento virou cinza. E, o que restou fora a bandeira do MST. A bandeira que cliquei várias vezes tremulando no mastro de bambu. A surpresa ficou com a foto que ilustrava a manchete. Ele, o garoto... sentado em cima da bandeira, focado em close, sorrindo, com olhos expressivos, parecia que tinha alma nova. Em baixo da foto, com letras garrafais o nome do menino.
Liguei para a redação do jornal e conversei com o fotógrafo e amigo Pedro Ivo. Conversamos sobre o menino Sem-terra.  Ele me explicou que, dentre todas as crianças, esse menino foi o que mais lhe chamou a atenção porque havia nele, algo de maduro demais para uma simples criança. Pedro concluiu: ‘Ele parecia ser um Anjo entre as crianças’. 
Alguns meses mais tarde, eu enviei a fotografia do menino para o amigo Rubem Alves e ele me respondeu mostrando seu sentimento sobre a foto: ‘me comoveu na imagem desse menino, seu triste olhar’.  
Ainda hoje, quando vejo essa fotografia, sempre me vem os versos de Mário Quintana: ‘Meu Deus, o que esse menino tem?... / Já suspeitavam desde eu pequenino / O que eu tenho? É uma estrela em desatino... /  E nos desentendemos muito bem!’ (Quintana, 102)
DICA: Tudo o que fizer, faça com plenitude de amor! Faça sua oração ao Anjo da Guarda e fique sempre com portas e janelas da alma abertos para visualizar novidades. Ao enxergar algo além, confie na sua intuição, provavelmente é seu Anjo lhe mostrando além do que é normal para os olhos humanos, invista sua atenção e compreenda a visão.
       A LUZ QUE BRILHA DENTRO DE NÓS!

Sair sem rumo no fim de semana faz bem ao corpo e a alma. E, naquele domingo, eu e minha filha ganhamos estrada; sem lenço e sem documento; fomos para a Serra da Mantiqueira. Chegamos a Campos do Jordão, cidade linda e fria, a Suíça brasileira. Arquitetura europeia, chalés para todo lado. Os canteiros bem cuidados, hortênsias floridas em tonalidade azul, rosa e amarela. Os plátanos se despiam, as alamedas ficaram forradas de folhas. Esquife do verão. Outono. A cor ocre predominava. Nem precisei usar o filtro sépia para fotografar. Fiquei extasiada. Nem senti o tempo passar.
Minha filha me fez companhia. Ela apontava detalhes que eu não via enquanto dirigia. Ela passou a ser os meus olhos, procurávamos imagens a serem registradas. Ela apontava: um velhinho sentado sob uma árvore, uma árvore no meio do jardim, um jardim florido, uma flor ainda botão salpicada de orvalho, o orvalho... o nevoeiro. Tudo era dádiva, em cada detalhe havia luz divina.
Não há fotografia sem luz.
Passamos o domingo fotografando. A temperatura caiu. Fim de tarde. Frio. Frio mesmo... 3º C. Hora de levantarmos a âncora, sairmos de cena e voltarmos. A escuridão ia engolindo tudo. O vento frio soprava. Levantamos as golas dos agasalhos e colocamos as luvas. O vento era incessante. Paramos para tomar um chocolate quente com canela para esquentar um pouco nosso corpo e depois seguir viagem.
Pronto, estávamos a caminho. Na estrada, as rubras pinceladas no céu eram engolidas pela escuridão. Descer a serra sempre é mais fácil do que subir. Em alguns trechos a neblina dava um toque mágico, depois ela ficou espessa. Até que a neblina aumentou demais. Sabrina pediu para que eu parasse o carro no acostamento. Percebi a inquietação dela, mentalmente orei para meu Anjo da Guarda falar com o Anjo da minha filha, para que ela tivesse confiança de que tudo ia dar certo. Tentei acalmá-la:
 - Não fique nervosa filha, veja!... há olhos de gato margeando a pista. Posso ver para onde dirijo o carro. Calma, se eu parar o carro será pior, temos de passar o nevoeiro; vamos em frente. É só a conta de atravessarmos o túnel.
Ela ficou quieta. Observei que rezava.
Realmente, foi só passarmos o túnel e a neblina dissipou. Lá de cima a escuridão deixava à mostra as cidades do vale, luzes brilhavam iguais joias numa caixa de veludo preto, era fenomenal! Abri o vidro do carro. Minha filha respirou fundo, nada melhor do que o ar das montanhas. Ela declarou: 
- Mãe, não é que você tinha razão?! Não podíamos parar. Se não estaríamos no nevoeiro até agora. Sabe o que eu notei enquanto rezava?... notei que os olhos-de-gato estão sempre ali para marcar o caminho e nos conduzir para um lugar seguro. Notei mamãe que, para que eles brilhem... é preciso que haja luz em nós. Assim também é o caminho de nossa vida, para termos segurança é preciso que exista luz em nós, e essa luz eu a encontro na oração.
Ela nem viu que meus olhos se encheram de lágrimas. Sem dúvida, essa foi uma das realizações da minha vida. A empatia entre o meu Anjo da Guarda e os Anjos dos meus filhos, sempre foi e é grande. Eu não descuido dessa amizade.
       Merlin Carothers escreveu que: ‘Dentro da nuvem era impossível saber a direção certa pelos sentidos. Só se podia galgar a escada pela fé’.[7]     
DICA: Não desanime ao passar por uma tempestade ou pelo nevoeiro, invista na sua capacidade  de sair dali, não fique sentado com dó de si mesmo, lembre-se que existe uma Luz maior por detrás das nuvens, ande devagar... mas, ande. Confie no seu sexto-sentido para tudo que for fazer, esse é o sentido que o Anjo age na sua vida.
CONDICIONAMENTOS ÀS ALEGRIAS... LEVAM À PAZ!

Todos os dias, ficamos sabendo de notícias tristes. Os telejornais cavam várias notícias, aliás, 68% delas são terríveis. Nenhuma com resolução dos problemas, pelo contrário, mostram trágicas notícias para digerirmos no café da manhã como se fossem alimentos. E pensamos que já nos acostumamos com isso.  A televisão, o rádio, o jornal, os amigos, os parentes... todos estão bitolados às catástrofes humanas. É o que dá ibope e passou a ser motivo para conversas. Tem pessoas que gostam de velórios, de assistir as pegadinhas na TV e rir dos apuros humanos, gostam de aumentar as catástrofes e querem ser os primeiros a dar notícia ruim.
Foram condicionados a isso. Como isso é possível?! Simples, se você pegar uma cobaia, vamos lá... um ratinho de laboratório e, ao colocar comida para ele, dar também uma descarga elétrica (um choquinho), isso diariamente, no mesmo horário; dali alguns meses o ratinho só comerá se levar choquinho. Se não... pode apostar que ele morre de fome. Ele ficou condicionado a comer somente quando existe a dor, só come se levar choque. O choque para ele virou prazer, vem junto com a satisfação de matar a fome.
E, assim, várias pessoas almoçam assistindo tragédias na TV. Os noticiários diariamente passam as piores cenas no horário do almoço e jantar. E os ratinhos humanos ficaram condicionados à tristeza, a dor alheia passou a ser o prato do dia. E o pior... as crianças, também, estão condicionadas. Mesmo que não entendam a notícia, mas a visão das tragédias vale mais que as palavras, marcam mais. E, por isso, desde cedo gostam de mórbidas brincadeira, gostam da maldade.
Eu nunca tive TV na cozinha e minha família nunca assiste o noticiário enquanto se alimenta. Felizmente existem poucas redes de televisão que exibem boas notícias durante o jornal da hora do almoço, mesmo assim almoçamos antes, ou depois do noticiário.
O bom mesmo é assistir um bom filme. Bom mesmo. Daqueles que só passam ensinamentos para a alma, coisas boas. E até vai bem... uma pipoquinha. Não podemos nos esquecer do poder da palavra, pode ser até uma só, mas seu poder é grande.


Meu Anjo me ensinou que existe técnica especial para captar coisas boas. Para receber bênçãos. Sei que toda hora, todo instante, em algum lugar do mundo; alguém, um grupo, uma comunidade inteira; faz suas orações. No mundo atual existe novos Gandhi, Madre Tereza de Calcutá, Santo Padre Pio, São Francisco de Assis, que oram pela humanidade inteira. Eu me aproveito disso. Eu ergo os braços ao céu, posso estar dentro de casa ou no quintal, às vezes na rua ou viajando; não importa, só sei que sinto a necessidade disso. Eu ergo as mãos e louvo a Deus por tudo que vejo, depois peço para receber as graças concedidas pelas orações dos fiéis do mundo inteiro. Peço para ser agraciada com essas dádivas. Sempre há alguém orando pelos pecadores, e eu me enquadro nesse grupo. Afinal... somos todos pecadores.
Assim como a TV emite uma frequência negativa, as orações transmitem energia positiva. E, basta conectarmos a ela para sermos aspergidos de bênçãos.
       Mahatma Gandhi disse: ‘Posso fazer eco a sua prece, para que eu realize a paz  e me encontre em mim mesmo. Trata-se de tarefa difícil, mas estou procurando efetuá-la. Oh! Deus! Conduzi-me da escuridão para a luz!’
        Meu Anjo me ensinou a aceitar as pessoas do jeito que são. As condicionadas às tragédias, só conseguem enxergar o lado negro e dão força para as tristezas. As que se condicionaram às alegrias transmitem paz, mesmo que em tempo de carestia. Já para as outras... não existe a paz.
       Ele me ensinou também a confiar. Sair da zona de conforto que é a desconfiança. Sim, desconfiança é conforto porque ela nos aprisiona em uma gaiola de ouro e deixamos a porta sempre fechada, olhando o mundo através das grades, felizes em termos alimento e água, limitados em espaço, pois temos que controlar todo o entorno e, para isso... quanto menor for esse espaço... melhor. Desconfiar de tudo para poder viver bem é uma regra que o mundo capitalista impõe ao ser humano.
       Porém, precisamos sair dessa regra e... confiar.
       Confiar é abrir o coração sem reservas. ‘Essa é uma lei natural que muitos conhecem. Quem tem confiança em alguém sabe disso. Só confiamos em quem nos estendeu a mão e disse que tudo ia passar e as coisas iam melhorar... e pode ter certeza que tudo melhorou mesmo. Confiamos em amigos que ofereceram seus ombros para chorarmos e deles ouvimos que tudo daria certo.
       Confiamos em parentes que nos beijou a face e nos disse que depois do vendaval vem a bonança. Precisamos de pessoas assim. Precisamos confiar. Tudo isso tem efeito placebo. A palavra placebo vem do latim, é uma conjugação do verbo placere, quer dizer agradável.
      Ajudar é um condicionamento de milhares de anos e, cá para nós, ajudar é tão bom quanto ser ajudado. Ouvir palavras de incentivo, de superação... faz bem.
       No meu entorno eu posso e devo ajudar; dar uma palavra de incentivo, um beijo, abraçar, elogiar e sorrir. Estas são atitudes de confiança. Confiança de que o mundo pode ser melhor, basta agirmos agradavelmente para com as pessoas que estão em nosso redor: família, trabalho, escola, vizinhos, conhecidos. Isso certamente irá encadear o efeito placebo na humanidade. Pensamentos bons geram harmonia, e o bem, é uma corrente com elos de paz.[8]



Foto: uma de minhas crônicas onde eu abordo a respeito do Placebo.

DICA : Tente não assistir cenas que dão tristeza, medo ou angústia quando estiver se alimentando. Ao contrário, procure locais agradáveis para se alimentar. Sempre peça a presença de seu Anjo.
         CORAÇÃO SANTO... TODO DIA!

       Restaurava uma imagem sacra; uma linda e grande estátua do Sagrado Coração. Olhos de vidro, base de madeira e corpo de gesso. A pintura toda descascada deixava a mostra pinturas antigas. Faltando o dedo da mão direita, logo o dedo que indicava o Sagrado Coração.
Como todo trabalho de restauração era preciso paciência e habilidade.
Levei uns vinte dias para deixar a imagem com novo aspecto. O dedo foi o que mais deu trabalho. O que me deixava inebriada era o coração de Jesus. Aquele coração exposto, vermelho, gotejando sangue, lanceado, me deixava amargurada. Via ali toda miséria humana e também, toda Misericórdia Divina.
O coração precisava de nova pintura. Preparei a tinta e o pincel. Ao começar a pintura escutei meu Anjo: ‘Ore enquanto pinta, ore para que a Misericórdia esteja presente nos corações humanos’. Olhei no relógio, era exatamente três horas da tarde. Comecei a orar. Pintei o coração de um vermelho vivo, com uma tinta vitral que parecia sangue.  Dei o acabamento com um presente meu... algo singular.  Parecia que o coração tinha vida.
Coloquei a imagem em cima de um pedestal, na sala de casa. Todos os dias eu olhava o coração ensanguentado e pensava na Misericórdia Divina. Dias bons. Mas (é claro) eu tinha de entregar a imagem. ‘A César, o que é de César’ e... levei mais de dois meses para entregar a imagem para a dona Antônia, na paróquia São Sebastião.
Depois que entreguei a imagem, ficou em meu coração uma vontade latente de ter em minha casa um Sagrado Coração de Jesus, igual aquele que eu pintei, queria um por causa do coração tão vivo; tão ardente. O tempo passou... a vontade não; ela continuou.
Alguns meses depois, numa sexta-feira, fui às compras do mês. Em uma prateleira bem escondida perto da porta de emergência no supermercado havia um saco de estopa, lacrado. Ele me chamou atenção, eu o peguei e senti que estava cheio de pedras. Não sabia quantas e nem a cor das pedras que havia ali. Embaixo dele uma plaquinha informando que era promoção do dia, com preço irrisório. Não estava na minha programação comprar aquelas pedras, mas senti uma satisfação muito grande em pegar o saco de pedras e colocá-lo no meu carrinho de compras. E pela primeira vez eu comprei pedras. Ao colocar as compras no carro matei minha curiosidade, abri a boca do saco e coloquei a mão lá dentro. Pedras lisas, a maioria do tamanho de um ovo de galinha. Lindas. Devia ter mais ou menos umas trinta. 
Chegando a casa deixei o saco de pedras fechadinho em cima da mesa e fui guardar as compras.  Depois de tudo em seus devidos lugares... eu teria tempo de sobra para as pedras. Dito e feito, a cada pedra tirada do saco, meus olhos sorriam; diferentes cores e formatos. Deixava cada uma na mão até que esquentassem de tanto serem admiradas. Às vezes fechava os olhos, enfiava a mão no saquinho de estopa, pegava uma pedra e tentava adivinhar a cor e formato dela. O formato, tudo bem, era fácil de adivinhar. Mas, também a cor... eu acertava. E, foi numa dessas que, meus olhos fechados não acreditava no que os meus dedos viam, apertava e apertava a pedra, depois passava o dedo bem de mansinho, cheguei a cheirar a pedra e a batê-la devagarzinho em meus dentes para sentir se era pedra mesmo. Abri os olhos. Era o que eu tinha imaginado. 
 
Um coração de pedra. Não um coração qualquer. Era um coração vermelho, tangendo sangue. Um coração lanceado; do tamanho e cor do coração da imagem que pintei. Eu chorei! Acredito que esse coração é um presente de meu Anjo para mim. Fiquei inebriada, agradecida pelo grande gesto de amor para minha pequenez. Ajoelhei-me e fiz o propósito de sempre orar pedindo a Misericórdia de Deus para com os homens.
Michelangelo extasiado diante de um enorme bloco de pedra desabafou: ‘Estou vendo o meu Anjo’. Deu forma ao mármore, criou o ‘Anjo’. Um Anjo que só faltava voar. Eu extasiada, com uma pequena pedra, segurava um coração... que só faltava pulsar.
Santa Faustina escreveu em seu Diário que as graças da Misericórdia podemos colher com um único vaso, que é o da confiança.

Foto: Pedra em formato de coração que encontrei no saquinho de pedras.
DICA:  Pelo menos durante 30 minutos por dia,  limpe sua mente, seja qual for o seu pensamento tem de ser para o momento atual, para sincronizar-se com os ponteiros do relógio de Deus. Não se detenha com o passado e nem tenha ambições futuras, apenas viva o agora.
Peça ajuda ao seu Anjo da Guarda, diga para ele que você está conectado ao amor e que o momento presente é de pura alegria.
       OUSADIA PELA NATUREZA!

Sou apaixonada pelas árvores, desde a infância subo em árvores com a maior facilidade, sei o nome de várias delas, colho sementes para plantá-las e cuido para que germinem e cresçam. Então, eu as transporto para um espaço maior, que possam espalhar suas raízes.
Por causa desse amor e ver na cidade de São José tantas árvores belíssimas escrevi um projeto para fotografar todas as árvores importantes da cidade. Quando acabei de escrevê-lo me veio o dilema: ‘E agora? Fica muito caro comprar os filmes, revelar e ampliar os registros que eu fizer dessas árvores. Como vou fazer isso meu Anjo?’
A resposta veio certeira: ‘Fale com o prefeito, ele vai gostar da ideia’.
Engoli minha segunda pergunta a seco: ‘Será que ele vai aceitar?’ Não a pronunciei, pois aprendi que ‘ou eu confio ou... eu confio’ no que meu Anjo dizia e ponto final.
No outro dia, logo de manhã, lá estava eu no gabinete do Prefeito Emmanuel Fernandes entregando o meu projeto. Não demorou muitos dias para que eu tivesse a resposta de que meu projeto foi aprovado. A exposição ficou marcada para a época da Semana do Meio Ambiente, na Biblioteca Pública Cassiano Ricardo.
Fiquei alguns meses gerando a exposição Estações Joseenses. A pesquisa sobre as árvores e jardins da cidade me levou a uma descoberta sensacional... havia em São José dos Campos várias árvores protegidas por lei municipal: Árvores Imunes de Corte.
Investi nessa descoberta. Pesquisei na Fundação Cultural Cassiano Ricardo, na prefeitura e com amigos. Árvores de variadas espécies: palmeiras, copaíbas, jequitibás, figueiras, angicos, abricós, macaúbas, paus-brasil e guapuruvus, foram catalogadas. Todas ganharam o título de ‘Imunes de Corte’. Pela lei, essas árvores não podem sofrer danos e quando morrerem deve-se plantar uma da mesma espécie no local.


Árvores especiais. Cada uma tem uma história toda sua, me encantei com elas. Raridades. O jequitibá à beira da estrada velha, em Eugênio de Melo, com mais de 500 anos, símbolo da chegada dos portugueses (sempre tive vontade de morar perto dessa árvore), a única da espécie remanescente da floresta da região. Ponto de parada dos tropeiros. Idolatrada por muitos. E, com isso acendem velas no interior de seu tronco, num buraco ocasionado por um raio. Mal sabiam que as velas queimavam  o jequitibá por dentro... foi preciso alertá-los.
As três figueiras de mais de 25m cada... cresceram encostadas no muro do cemitério. Do lado de fora. Diz à lenda, que eram três ciganas que morreram e não fora permitido serem enterradas dentro do cemitério. Monumentais ciganas. Marginalizadas pela sociedade e abençoadas pela natureza.  
Outra espécie que me surpreendeu foi o guapuruvu (Schizolobium parahyba) a única árvore conhecida no mundo inteiro como originária do Vale do Paraíba.  E o abricó? A flor é linda! Maravilhosa! As praças, o paisagismo da Avenida Fundo do Vale, o Parque Roberto Burle Marx, tudo eu fotografei. Foi uma bela experiência. Uma exposição só dá certo, quando aprendemos com ela.
Passados alguns meses depois da abertura da exposição, em um dia de chuva intensa com rajadas de vento, Max pediu socorro: ‘Mãe, caiu um galho de árvore no meu carro. Venha até aqui’. Fui até lá. O carro fora atingido por um enorme braço de árvore. A centenária figueira não aguentou a tempestade, ficou pesada por causa da água. O vento veio forte e a chacoalhou. Um galho cedeu, quebrou, caiu... bem em cima da linda picape de meu filho. O galho era tão grande que bloqueou o tráfego da avenida mais movimentada da cidade.
Os bombeiros chegaram, fizeram o boletim de ocorrência. Meu filho se queixou da perda: os amassados na lataria do carro. Depois, ele me abraçou... sabia o quanto eu estimava aquela árvore. Eu olhava para cima e lamentava a perda: a quebra de um galho tão lindo, de mais de quatro metros, cheio de bromélias. Não havia o que fazer... o que engessasse tamanha perda. Max me beijou na testa e me disse que logo logo tudo ia voltar ao normal. Eu agradeci meu Anjo pelo filho que tenho.
A reconstituição ficou por conta da natureza, da própria árvore. O carro foi só pintar, questão de poucas horas! A árvore para cicatrizar a ferida é questão de muitas horas, anos. Isso sem contar... a próxima tempestade. 
DICA: Procure na natureza qual o tipo dos reinos que mais lhe deixa em paz, se é o mineral, o vegetal ou o animal. Muitas vezes podem ser dois ou mais reinos. Selecione os itens e procure encontrar a razão dessa empatia. Faça uma oração, junto com seu Anjo, agradecendo a Deus por ter criado o Universo.
                   
       ANJOS SEM ASAS DESENVOLVIDAS!

Noite de lua cheia. O ar iodado do mar soprava quente. Meu marido e eu resolvemos ir à praia. Não uma praia qualquer, era a nossa praia. Há vários quilômetros de Caraguatatuba. Entramos no carro, ganhamos estrada. O silêncio não era quebrado. Sempre é assim, quando vamos fazer algo prazeroso, ficamos quietos. Cúmplices. Tantas vezes íamos àquela vila de pescadores, só pela simplicidade do lugar. Casas rústicas à beira da praia, barcos ancorados, pessoas felizes. Uma antiga igreja com o marco em forma de cruz. Paz. Estávamos novamente a caminho.
A noite abafada ansiava por água. Janeiro, mês das chuvas, das enchentes. O carro deslizava no lençol de piche. Só um ônibus, bem adiante nos fazia companhia. Íamos devagar. Mais à frente o ônibus parou. Desceu um homem que foi colocado no chão. Ele estava só. O ônibus seguiu caminho. Nós passamos pelo homem. Ele se arrastava no acostamento, pois não tinha as pernas. Provavelmente morava por ali, seguimos em frente.
O vento soprou forte. A umidade estava no ar. Trovões, a lua desapareceu. Desencadeava-se uma tempestade de verão (pelo jeito seria daquelas terríveis) apertamos o passo... corremos. Passamos o ônibus. Mais alguns quilômetros e estaríamos na aldeia. Não passaram cinco minutos e a nuvem desabou em água para todo lado. Os pingos repicavam na lataria do carro. Eu e meu marido nos olhamos e falamos juntos: ‘O homem à beira da estrada!’
Meia volta, resolvemos voltar e procurar o homem. A tempestade aumentou, não conseguíamos ver nada; o limpador de para-brisa, em vão, tentava nos dar visão. Seguimos devagar, procurávamos. Quem sabe ele já chegou a casa... ou alguém o socorreu?!... Mas, não!... logo à frente o homem se arrastava. Meu marido parou o carro perto dele, o trouxe no colo, enquanto que eu passava para o banco do motorista. Wilson colocou o homem ao meu lado, no banco do passageiro. Não havia lugar para meu marido ir conosco na frente, a picape era pequena e estreita; só havia dois lugares. Wilson pulou para a carroceria descoberta, a chuva inclemente chicoteava o corpo dele, que ficou encolhido, ensopado.
Olhei o homem ao meu lado; ele não tinha as coxas e nem as pernas; as nádegas eram protegidas por uma espuma desgastada de tanto ele se arrastar. O rosto moreno tinha traços de sofrimento, vincos em volta da boca, dos olhos e da testa. A boca torta dava um ar de demência. Unhas pretas e grandes. Os braços musculosos eram suas pernas (alavancas para se movimentar). O homem tremia, não sei se de susto ou se de frio; estava totalmente molhado. O cheiro que ele exalava era tão ruim que eu tive de abrir um pouco o vidro para respirar melhor, era insuportável aquele odor de urina, fezes e suor. Ele segurou no painel e me olhou.
Wilson bateu na lataria avisando que era para sairmos dali. Perguntei ao homem: ‘Onde o senhor está indo? Diga onde é... pois vou levá-lo!’. Ele balbuciou alguma coisa inaudível. Perguntei de novo. Nada de resposta. Vi que precisava se acalmar. Falei para ele que estava tudo bem, nós éramos amigos e só queríamos ajudá-lo. Ele tentou por umas duas vezes falar, mas nada saía. Até que, depois de alguns minutos de silêncio, ele se controlou e murmurou: ‘Irmão... casa amarela... muro grande...’ Isso foi o que eu presumi, a voz era um sussurro. Meu marido, encharcado, ouvia tudo pelo pequeno vão na janelinha, atrás do motorista.
Dirigi pelo acostamento procurando o lugar. O homem foi relaxando e soltando a língua, falando devagar, pausadamente, queria ser compreendido. Falou seu nome: Maciel; falou também que morava no Vale do Paraíba e procurava o irmão que há muito tempo não via. 
Avistei um muro grande, amarelo, deduzi que era ali. Meu marido abriu uma velha porteira, seguimos pela estrada de terra (lama). A chuva diminuiu um pouco e chegamos a um acampamento com barracas grandes por todo lado; casa mesmo, nenhuma. Uma luz foi acesa dentro de uma das barracas. Wilson informou: ‘Ciganos’. Da barraca saiu uma mulher. Perguntei a ela se conhecia o Maciel. Ela disse que não e deu um grito. Começou a sair ciganos das barracas, todos mal encarados. Eu acelerei o carro, foi barro para tudo quanto era lado. O carro patinou, mas conseguimos sair dali. Nem olhei para trás. Maciel grudou no painel. Meu marido chacoalhava para todo lado.
Só diminui a marcha do carro quando chegamos à rodovia. Respirei fundo e seguimos caminho. A chuva abrandou e podemos ver melhor. Foi quando Maciel apontou para um muro logo à frente. No fundo do terreno um barraco que há muito tempo havia sido pintado de amarelo. A chuva parou. Fomos até lá.
Maciel batia as mãos com alegria. Cachorros latiram e do casebre saiu uma mulher. Meu marido desceu do carro e conversou com ela. Depois da conversa ela pediu para que esperássemos e sumiu para dentro do casebre. Demorou alguns minutos, tempo que parecia não passar, Maciel ficou amuado. Quando saiu um homem do barraco, Maciel deu gritos de alegria. Era o seu irmão.  
O homem nos agradeceu. Pegou Maciel no colo e saiu o xingando: ‘Você não devia ter vindo... não queremos você aqui... eu disse para mãe não deixar você vir... você só dá trabalho’. Ficamos pasmos. Nossa vontade era de pegar o Maciel de volta, porém o homem entrou com ele na casa e fechou a porta.
Mudei de banco, chegou a hora de meu marido dirigir, todo ensopado. Voltamos para casa, devagar; calados. Tivemos de lavar o carro, por fora e.... por dentro. Tomamos um bom banho e dormimos.
No outro dia, logo de manhã conversamos preocupados: ‘O que será de Maciel?... Ele deve estar arrasado pela forma que o irmão o tratou’. Não deu outra, entramos no carro e fomos até lá. Parados no acostamento e vimos Maciel numa cadeira, tomando sol. Ele brincava com os cachorros. Estava feliz, sorria e balbuciava uma canção. Ele nem nos viu. Saímos, mas ainda em tempo de escutar uma gostosa gargalhada. Ficamos felizes, também. Eu agradeci ao meu Anjo pela oportunidade de conhecer o Maciel.
       Mário Quintana escreveu: ‘As costas de Polichinelo arrasa / Só porque fogem das comuns medidas? / Olha! Quem sabe não serão as asas / De um Anjo, sob as vestes escondidas...’(Quintana, 36).
       Verdade... devemos quebrar nosso paradigma sobre Anjos... bonitos, bem vestidos, rostos radiantes, perfume suave, palavras proféticas... Anjos assim existem, sim!... e são fáceis de ser reconhecidos...  porém, existem Homens-Anjos que nos salvam de nós mesmos.
Naquele dia, eu me questionei que jamais havia visto o rosto de meu Anjo, mesmo que, na época, há mais de 30 anos eu tivesse colóquios com ele! Logo após o questionamento, chacoalhei a cabeça e pensei: ‘Não me importa que eu não veja o rosto de meu Anjo. O que me importa é que as nossas conversas se tornaram minha salvação, depositei minha confiança nele e se ele mandar, eu pulo no abismo’.
Minha reação foi dizer em alto e bom som, (como se precisasse disso para meu Anjo me escutar): ‘Não preciso vê-lo, pois eu sinto sua presença através da Paz que se apodera de mim e me dá total alegria quando escuto a sua voz. Essa Paz é traduzida em Amor incondicional. ’
Aquele episódio com Maciel me levou ao entendimento de que não devemos julgar as aparências e, sim, sondar a alma. A frase bíblica: ‘Alguns, às vezes, sem saber, hospedamos Anjos’ (Hebreus, 13-2) faz muito sentido para mim. Maciel foi um Anjo para nós. Toda vez que Wilson e eu nos vemos em apuros logo dizemos: ‘Olha o Maciel...’  e damos uma gargalhada e enfrentamos o problema. Como se estivéssemos na praia olhando o imenso oceano do Amor de Deus.

DICA: Tenha em mente que as pessoas têm seus Anjos da Guarda e que devemos olhá-las além das aparências. Os mais necessitados, os que quase não conseguem se comunicar com o mundo exterior, possuem a força angelical mais forte dos que são considerados normais. Pense nisso e, ao andar pela rua, procure sentir a presença angelical nas pessoas especiais.
        EXAGERO NÃO FAZ BEM!

Quando preparo uma exposição fotográfica procuro controlar as variáveis, para não haver surpresas desagradáveis. Projeto tudo nos mínimos detalhes. Faço um croqui dos quadros, do modo que serão colocados em exposição e, um, da exposição em si.
Aprendi, às duras penas, que a Lei de Murphy, sempre vigora.
Véspera de inauguração da exposição Estações Joseenses... em minha sala, eu dava os últimos retoques nos quadros. Limpava os vidros dos maiores. Os menores estavam limpos, empacotados e colocados em lugar estratégico (perto da porta que sai para o elevador).
Em cima da mesa eu polia mais uma vez o quadro que mais admirava. A foto de um eucalipto centenário refletido na água de uma lagoa. Polia o vidro pela quinta vez. Sempre achando que tinha uma sujeirinha aqui ou ali. Nervosa, eu queria que o quadro ficasse impecável. Ouvi claramente a voz de meu Anjo: ‘Ritelisa, você está exagerando’. Mas, eu queria limpar só mais um pouquinho. Não parei e, por causa de meu nervosismo, coloquei um pouco mais de força na mão e... o vidro estilhaçou. Quebrou-se todinho.
Compreendi a lição: ‘Cuidado demais às vezes machuca. Temos que saber a hora de parar de bajular, polir e adular a cria. Tudo tem um limite e eu tinha extrapolado os limites naturais’.
Fiquei pasma! Respirei fundo. Fui até a cozinha peguei um balde e um pano. Enquanto catava os cacos e os colocava no balde minha cabeça fervia procurando uma solução para aquele desastre. Do quadro só sobrou a fotografia, a moldura e o Eucatex. Na manhã seguinte teria de montar a exposição. A inauguração seria à noite. Aquele imprevisto não poderia me atrapalhar. Não ia desistir, afinal compreendi a lição, criei ânimo, ia arrumar uma solução.
Colei a foto do eucalipto no Eucatex. Corri ao quarto, peguei um sulfitão que sobrou do passe-partout e amassei-o com vontade, enquanto cantava para meu Anjo.  Depois colei o papel amassado em volta da foto criando uma nova moldura; ficou linda. Deixei tudo secando. A música cessou... eu fui dormir.
No outro dia montei a exposição.   




Fotos da exposição 'Estações Joseenses' no Shopping Colinas - SJC, no centro da parede azul da terceira foto o quadro 'Reflexo de Fênix'.
O quadro, que denominei ‘Reflexo de Fênix’, era o que mais chamava a atenção. E, foi um dos primeiros a ser elogiado. Contei a história do quadro para quem o elogiou. Ela me disse: ‘Eu sabia que esse quadro tinha algo diferente, não sei explicar, ele me encantou desde que o vi, esse papel branco em volta tem a forma das asas de um Anjo’. No meu interior eu ri demais.


Foto: matéria a respeito o período em que a exposição 'Estações Joseenses' ficou na Biblioteca Pública Cassiano Ricardo - SJC, em destaque a direita da matéria o quadro 'Reflexo de Fênix'.
Aprendi que na vida temos de transformar as tragédias em bênçãos. Temos de agir rápido, no mesmo instante que vem a dificuldade, há uma dádiva divina ao nosso alcance. Precisamos acatar o que nosso Anjo nos sopra ao ouvido e jamais ir em frente quando o momento é de parar.
Eu consegui adestrar minha percepção para escutar meu Anjo, porque continuo aquela criança que foi até o portão de lata durante uma noite escura. Ainda mais, quando estou trabalhando com fotografias. Quando se ama o que faz, voltamos a ser criança. Acho que aí está a chave da frase: ‘O reino do Céu é das crianças’. E o melhor ainda é aprender com nossos erros.  Concordo com Paulo Coelho quando diz que a vontade quando mostra um problema, traz junto uma solução.
Fotos: algumas notícias a respeito da exposição 'Estações Joseenses'. Essa exposição percorreu diversos estados brasileiros.
DICA: Enquanto estiver preocupado em ser perfeccionista jamais atingirá o ponto máximo da perfeição, pois ela só cabe a Deus. Jamais chegará lá. Por isso,  toda vez que precisar executar uma tarefa com perfeição, não exija demais de sua capacidade mental e/ou física, relaxe a mente e o corpo, o trabalho ficará belíssimo. Peça a ajuda de seu Anjo para essa tarefa
        REALIZAÇÕES PARA UM ANJO!

       Vontades eu sempre trago no meu coração ou devo dizer... sonhos. Por isso eu me mostro por inteira ao meu Anjo, para que ele me ajude a realizar esses sonhos.
       Ás vezes eu penso que esses sonhos são carências de meu Anjo. Explico... não é que um Anjo seja carente, mas... um Anjo se realiza através de seu protegido.
       Sempre tive atenção especial aos golfinhos e às baleias, inclusive passava um tempo escutando fitas cassetes onde estavam gravados os sons das baleias jubarte, sem entendê-los, mas me faziam viajar em pensamento para um lugar muito tranquilo. Outro som que eu gosto e sempre escuto é o do golfinho. E o que tenho receio é de barbatana de tubarão.
       Fim de semana, eu e a Graziela, colega de escola de minha filha, fomos passar alguns dias, em Caraguatatuba, litoral norte do estado de São Paulo.
       O dia estava um pouco nublado e não havia muitos banhistas na praia Martim de Sá. Nós duas entramos no mar que, agitado, nos derrubava com ondas acima do normal.
       Prestávamos atenção no mar, para não sermos mais derrubadas, ao passarmos a quebrada das ondas, quando em águas mais tranquilas, boiando, algo se moveu a nossa frente. Era um homem que vinha nadando desesperado, passou por nós gritando: ‘Tubarão, fujam’
       Um pouco mais longe vimos a barbatana do peixe que vinha velozmente em nossa direção. Graziela é bem maior do que eu, a cada braçada dela eu tinha de dar duas, e eu não venci o espaço de chegar a praia. Vi Graziela já de pé, na quebrada das ondas e eu nadando apressada.
Foi quando a barbatana chegou a uma velocidade assustadora, orei. Meu Anjo sorriu em brisa mansa. Senti algo passar por mim, roçar minhas pernas como se fosse um sabonete bem liso. Não me assustei, ao contrário, me passou alegria, como se fosse carinho com cócegas.
      Dali a alguns segundos, bem na minha frente um golfinho se levanta e começa a brincar comigo fazendo evoluções acima da água.
       Graziela ficou olhando, pasma, alegre, imóvel. Mesmo assim ela preferiu ficar na praia. Eu fiquei no mar brincando com o golfinho. Não sei como aprendi, talvez fosse somente um insight de quem vê muitos filmes sobre golfinhos; eu fiz movimentos com as mãos por baixo d´água enviando ondas que eram captadas pelo golfinho que ia e vinha brincando comigo.
       Fiquei bastante tempo com ele e só fui embora quando a chuva se tornou forte, raios e trovões cortavam o céu.
       No outro dia, eu fui à busca de meu golfinho e não mais o encontrei.
       Voltamos para São José dos Campos e, ao assistir o noticiário, fiquei triste com a notícia do golfinho que foi morto na praia, por causa de um garoto que colocou um palito de sorvete no respiradouro do meu bondoso amigo golfinho.
DICA:  Seu Anjo conhece você muito bem. Ele sabe o que gosta e uma das missões dele é manter você feliz. Por isso mantenha os diálogos com ele. Você terá insights angelicais, através dessas colocações, seu mundo começará a mudar.

       O LUGAR CERTO... NA HORA CERTA!

       Aparecida... fotografar essa cidade é uma mistura de alegria e tristeza. Ainda mais se for num domingo. E, naquele domingo resolvi ficar até tarde. Sozinha, fui para lá fotografar as excursões religiosas. Entrei no santuário, orei. Vi tantas pessoas orando, pedindo... e tantas outras entregando ex-votos, agradecendo. Nesse momento eu agradeci a Deus pela minha vida, pela minha família e pelos meus amigos. Todo santuário é sagrado e as orações nele realizadas são levadas como perfume de incenso até Deus... levadas pelos Anjos.
Depois fiquei sentada na escadaria da entrada da basílica; na sombra, pelo menos até o sol baixar um pouco. Ali eu observei o vai e vem constante dos romeiros, fotografei bastante até não ter mais rolos de filmes na caixa térmica (eu sempre tinha pelo menos três filmes, ASA 200 de 36 poses, prontos para o uso). No fim da tarde, os ônibus se alinharam à saída. Em uma hora o pátio ficou vazio de veículos e de pessoas. Só restos de alimentos marcavam o chão. Continuei sentada vendo a poluição que os romeiros deixam por todos os lados. Conversei com meu Anjo, disse a ele que não havia mais alguém ali e eu sentia um vazio muito grande, queria muito ter feito uma obra de caridade, ter ajudado alguém no sentido físico. 
Em questão de segundos uma mulher apareceu e passou por mim; depois ela parou, olhou-me fixamente e continuou o caminho. Eu fiquei no mesmo lugar, sentada no degrau da escada. Dali a pouco a mulher voltou, subiu os degraus e parou à minha frente. Perguntou-me se eu podia ajuda-la, pois ela precisava inteirar o preço de uma passagem. O ônibus dela foi embora antes dela retornar da igreja velha (mostrou-me os documentos), explicou-me onde morava (em São Bernardo do Campo). Deu-me um número de telefone para eu ligar se quisesse constatar o que dizia (naquele tempo o celular não era acessório, era artigo de luxo, meados da década de 1990); eu precisaria comprar um cartão para usar o telefone do orelhão, mas não me importei em verificar se ela falava verdade ou não. Ela explicava tudo, de cabeça baixa, com vergonha, quase murmurando. Eu a ajudei com o que ela precisava, ela agradeceu e começou a descer a escada.
Há apenas alguns degraus abaixo de onde eu estava ela parou e me disse:
- Eu estava com medo de falar com você. Mas, vi a medalha de Nossa Senhora das Graças na sua corrente e soube que era a pessoa certa. Sou devota dela e, sempre que necessito de algo, é ela quem me socorre. Mãe é mãe! Eu pedi que meu Anjo da Guarda intercedesse por mim, junto à Mãe.
Eu dei um pulo e fui até ela:
- Vou lhe dar um presente (abri a bolsa e peguei uma medalha). Tome... é sua. Veio lá de Paris, do lugar onde houve a aparição de Nossa Senhora das Graças. Está benta. Essa medalha é sua.
A mulher não coube em si de contente. Agradeceu. Pegou a medalha e saiu dizendo: ‘Quem sabe foi para receber essa medalha que eu perdi o ônibus’. Sorri e pedi para meu Anjo agradecer ao Anjo daquela mulher pelo dom da confiança. Meu Anjo ficou calado; eu sempre respeito o silêncio do Anjo. Calei-me, também. Então, a mulher virou-se a abanou com a mão e, depois, abriu os braços em forma de asas e fez movimentos como se estivesse voando. Depois parou, virou-se e foi embora calmamente.
Eu fiquei ainda algum tempo parada, olhando o céu que já começava a ser tela de pintura dos Anjos, os tons de alaranjado e amarelo eram pinceladas marcando o fim do dia. Não tive mais poses na máquina para registrar o magnífico pôr do sol. Porém, ficou marcado em minha memória de um jeito que jamais o esquecerei, vale mais que uma fotografia.
DICA: Fique sempre atento, o Anjo poderá lhe enviar tarefa de ajudar uma pessoa que você não conhece ... não se preocupe e não fique na defensiva, com medo de tudo. Quando ajudar alguém, peça ao seu Anjo que cumprimente o Anjo da pessoa que você ajudou. O amor cria laços até entre os Anjos.
       DIA DE SORTE NO SEMÁFORO!

       Tirei o dia para ir à linda cidade de São Paulo. Aproveitei que a previsão meteorológica avisou que o dia seria ensolarado; afinal, com chuva é impossível passear em Sampa. Saí de madrugada; feliz, dirigindo, sozinha... eu disse sozinha?!... ah!... não!... eu ia junto com meu Anjo da Guarda.
       Minha primeira oração do dia foi entregar minha viagem às graças de meu Anjo. Ia gastar dinheiro, e isso sempre me faz repensar nas pessoas que não têm poder aquisitivo. Sempre que dirijo tenho uma maneira peculiar de orar e isso me faz ficar dentro do limite da velocidade permitida na rodovia. Viajei rezando. Minha oração foi a de pedir a minha proteção e a de que, se eu pudesse, ajudaria alguém mais necessitado do que eu.
       A rodovia Presidente Dutra parecia um tapete, onde o carro deslizava suavemente. O fluxo de carros era mínimo, apenas alguns caminhões.  Chegando à metrópole parei em um posto de gasolina para completar o nível do combustível. Ao pagar, saquei de uma nota de cem reais, para desespero do frentista que lamuriou:
       - Dona, eu não tenho troco, não. Nem bem o dia amanheceu... o caixa está a zero. São só nove reais.
       Pronto, não teve como trocar a nota de cem reais, equivalente a um salário mínimo. Procurei na bolsa e achei uma única nota... felizmente era de dez reais. Paguei, recebi o troco, guardei-o dentro da bolsa e continuei meu caminho; afinal, precisava estar no centro antes que a cidade acordasse (se é que São Paulo dorme). Demorei mais do que o normal (realmente a cidade não dorme). O sol inclemente anunciava efeito estufa.
       Em um dos semáforos da Rua 25 de Março havia um guri vendendo água. Um menino magrelo corria de carro em carro oferecendo o tão desejado líquido. Buzinei, ele olhou; gesticulei o chamando; daria de tudo por um bom gole d’água...
       Ligeiro ele chegou até o carro. Perguntei:
       - Quanto é a água?
       - Um real, moça.
       Felizmente era o que eu tinha de trocado. O sinal abriu. Enfiei a mão dentro da bolsa, puxei a nota e a entreguei para o menino, que ao mesmo tempo, me entregava a água. Foi questão de milésimos de segundos; mesmo assim, os motoristas que esperavam buzinaram e xingaram.
       Estacionei o carro à Rua Barão Duprat, e fui direto às compras. Escolhi uma loja onde eu pudesse comprar a maioria do que precisava. Comprei tudo o que eu precisava e fui para a fila do pagamento, minha certeza era de que ali teriam troco para minha nota de cem reais. Sabia que era uma nota muito alta, pois o salário mínimo era a quantia de 130 reais; poucos estabelecimentos teriam troco se a compra fosse pequena.
       Paguei minha compra e esperei meu troco. O homem do caixa, vendo minha calma, indagou se eu não ia pagar toda a compra. Eu argumentei que era ele quem precisava me dar o troco, pois a compra ficou em 65 reais e teria de me retornar 35 reais.
       Daí ele sacou da nota que eu lhe dei e me mostrando (quase grudada ao meu nariz), me informou (e a todos que estavam à fila): ‘Essa nota aqui é de um real. Como posso lhe dar troco? É a senhora que está me devendo e não eu!’
       Fiquei gelada; um calafrio percorreu minha espinha. Realmente a nota era de um real. O pessoal na fila começou a ficar incomodado. Eu paguei com cheque, depois de apresentar todos meus documentos e de pedir desculpas.
       Peguei minhas compras e saí determinada em ir até o semáforo; ali perto, dali a três quarteirões. Falaria com o guri e lhe daria uma gorjeta... ele entenderia minha situação e me devolveria a nota de cem reais. Chegando lá procurei o menino e não o encontrei. No lugar dele outro garoto, mais velho. Fui logo perguntando:
       - Cadê o menino que estava aqui há pouco? Ele é mais novo do que você. Usava um boné azul... magrinho... bem magrinho.
       - Ah!... a senhora tá falando do Leandro?! Ele foi embora para casa. Ganhô o dia. Vim ficá no lugar dele.
        O sinal de trânsito fechou. O menino sentou-se em cima da caixa de isopor cheio de garrafas com água. Me explicou: ‘Ele ’tá magro me’mo. É que o pai dele tá duente, di cama. E a mãe – pobre muié – tá catan’o papelão puraí. Ele veio iscondido da mãe... de’xô o pai sozinho e veio vendê água pra ganhá uns trocado. Sabe cumé, né? Comprá remédio pro pai. Nem rango tem naquele barraco mais... pur’isso, ele tá magro! Acho que o pai ’doeceu por farta de comida, miséria me’mo. Essa coisa de ficá comen’o bolinho de papelão, num enche barriga de ninguém, não! Dá é dor de barriga. ’Inda mais quando num frita direito. Mais hoje, foi diferente... hoje ele acordô disposto. Contô que sonhô cum Anjo qui dava cumida pra eles, teve inté sobrimesa:  bulacha de chocolate!’
       Fiquei sem palavras, perplexa. Ao me estabilizar emocionalmente, exclamei como se fosse um desabafo: ‘Meu Deus!’. O menino, levantando de cima da caixa de isopor (por causa do sinal de trânsito que logo abriria) teve tempo de me dizer:
       - É iss’aí, dona. Deus mandô um Anjo. Ele veio de carro e intregô pro Leandro uma nota de cem paus. Sabe lá o que é isso? Cem real! Ele vai podê comprá a cumida que quisé. Cum direito de bulacha de chocolate... inté chocolate inte’ro... remédio pro pai... Ô dona; eu só ’creditei quando Leandro mostrô pra mim a nota. Sabi... nunquinha tinha visto uma. Aposto qui nem a sinhora viu uma nota iguar! 
       Saí devagar, levando meus pacotes de compras, que pesavam mais do que antes... murmurei: ‘Vi... vi sim...’
       Ao longe ainda o menino gritou: ‘Que sorte, heim?’
       Fiquei sem saber de quem era a sorte maior... a minha, ou a do Leandro!
       Voltei para casa, dirigindo, calada, em estado de graça. Ao chegar ao meu apartamento, a primeira ação foi orar em agradecimento. Se durante a viagem de ida a São Paulo, na minha oração, eu havia me colocado para ajudar os mais necessitados... não devia me queixar das circunstâncias. Depois, abri a Bíblia e a passagem marcada: ‘Bendizei ao Senhor todos os seus Anjos / Valentes heróis que cumpris suas ordens / Sempre dóceis à sua palavra’ (Salmo 102: 20).[9]
DICA: Quando colocar-se à disposição de seu Anjo, ao mostrar essa intenção, lembre-se que ele não tem nossas limitações e nossas ‘misérias’. Por isso, cuide bem do que fala, do que se propõe a fazer. Muitas vezes o nosso tudo é nada para ele, e outras vezes o nosso nada é tudo para ele. Na verdade somos nós que damos o limite e quando pensamos que estamos prontos para ultrapassá-lo nos vemos diante de uma quebra de paradigma.
       ESSÊNCIA PARA A ESCRITA!

Ao sondar minha alma, no direito de uma oração ao meu Anjo, vi que minha essência era mesmo a de escritora. Investi nessa percepção. Se tivermos um dom ou uma vontade devemos aprimorá-lo. Por isso, decidi que era hora de escrever um livro. Para isso eu necessitava estudar mais. Participei de vários workshops, oficinas e cursos literários. Apurei minhas ideias. Comecei a escrever crônicas e, Karen Schmidt, me estimulou a continuar com esse estilo literário, publicando-as no Vale Viver, caderno sociocultural, do jornal Valeparaibano; também fui convidada por Júnior e Cleusa para ser colunista do jornal Visão Leste.
Precisava escrever meu livro. Sempre fui adepta aos diários e os tenho guardado desde a época da juventude. Porém, eram somente para meu deleite (e agora, algumas partes, para quem lê esse livro).
Meu Anjo sempre paciente comigo, não se importava em esperar. Desde os meus 19 anos ele me comandava à escrita e me incentivava a escrever meu livro.
Durante quatro anos eu participei com meus filhos de um grupo de internautas que se encontravam em shoppings, festas e clubes para conversarem a respeito da nova tecnologia e principalmente, para se conhecerem (naquela época não havia webcam e nem telefone celular com câmera e muito menos WhatsApp ou Messenger), havia o Chat; a Internet era discada através do telefone e só podíamos usá-la à noite por causa dos impulsos telefônicos. Eram muitas novidades e meu Anjo me aconselhou a acompanhar meus filhos mesmo que, algumas vezes, eu tivesse que ficar no carro, olhando de longe, mas não os perdia de vista. Dessa forma fiquei amiga de todo o grupo e escrevi um livro baseado nessa experiência. Uma inovação para a época.
Queria a publicação do livro e teria que ser por meus próprios meios. Eu já trabalhava com fotografia, porém não havia retorno suficiente para a edição de um livro, o mais simples que fosse.
Orei... orei muito. Pedi discernimento de como iria conseguir realizar esse meu sonho. Foi quando vi no jornal a respeito da LIF (Lei de Incentivo Fiscal) de São José dos Campos; senti que meu Anjo sorria, um silêncio se apoderou de minha alma.
Porém, com o passar do dia veio um turbilhão de ‘nãos’ em minha mente. É muito ‘difícil’ entrar na LIF, você ‘não’ sabe fazer um projeto, ‘não’ tem patrocinador, ‘não’ terá tempo para escrever por causa da faculdade, ‘não’ conseguirá lugar para lançamento... Eu sabia de tudo isso e me permitia que os nãos me dominassem.
Até que dali a uma semana, eu entrei no meu quarto, me ajoelhei no chão e pedi que meu Anjo me ajudasse; que pelo menos me dissesse se eu conseguiria ou não! A resposta veio como uma brisa que acalma o mar... ‘Só consegue quem tenta, e a tentativa já vale como vitória’.
Era esse incentivo que eu precisava. Fui à luta, consegui patrocinadora (ICONET), editora (ComDeus), ilustrador (Ismar), o projeto foi aprovado pela LIF-2000 e ainda consegui ótimo lugar para o lançamento (Salão Bassi). O título do livro ficou: 'Ciber@migos Pontocom', com o 'i' ao invés do 'y' na palavra 'ciber' porque na época o Congresso Nacional estipulava uma lei que aportuguesava algumas palavras estrangeiras, era o começo da era da informática.
Minha alma se aninhou às asas de meu Anjo. Vivi... e vivo... de momentos de pura magia literária.

                                  Fotos: Lançamento do livro Ciber@migos Pontocom.
 DICA: Ao encontrar sua essência terá total apoio de seu Anjo para tornar sua vida um sucesso, com  alegria, paz, amor, fraternidade. Procure em seu íntimo aquilo que gosta de verdade, pense na sua realização pessoal, sem se preocupar com o retorno monetário.
 
       ETERNIZAR A CRIANÇA!

       Na passagem do ano 2000 houve uma grande enchente em Santa Rita do Sapucaí, até foi denominada como ‘Bug do Milênio’. Época em que minha filha cursava Faculdade de Administração de Empresas - FAI, e morava com meus pais.
       Foi de madrugada que ela me ligou, avisou que o rio transbordou e que a rua estava alagada; iam passar à noite vigiando as águas.
       Logo de manhã novo telefonema, Sabrina me disse que as águas subiram muito passando a altura do porão e inundava os aposentos mais altos da casa. Ela e meus pais foram resgatados para a casa da vizinha Edna e, depois, para a casa de minha irmã, em Pouso Alegre.
       Eu fiz minha mala, peguei o carro e imediatamente fui para lá.
       Vi muita tristeza.... ‘O mar visitou Minas e Minas virou Mar. Essa foi a visão que tive quando lá cheguei.



       Dali alguns dias as águas baixaram e eu ajudei a colocar a casa em ordem. A luta era contra a lama. O odor fétido impregnou na cidade. As pessoas voltavam para suas casas e lutando expeliam os pertences. Como em uma doença o corpo expele a parte podre, assim a cidade vomitou podridão.




      Fotos: enchente em Santa Rita do Sapucaí-MG, 2000.
       O assoalho da casa era de madeira corrida e se desprendeu da base de madeira tendo de ser trocado por piso frio. Dessa forma o porão foi aterrado.
       Foi ali, no porão, 35 anos depois, que encontraram minha ovelhinha de estimação, corroída pelo tempo, escuro, grudento por causa da lama da enchente, mas mesmo assim era meu lindo carneirinho que brinquei na minha bela infância, sempre com a presença de meu Anjo.
       Não me importei.
       Sempre que preciso de uma válvula de escape, procuro a criança que existe em mim. Eu ando na chuva e chapisco as poças d’água; ao passar por um túnel, abro a janela do carro e dou um grito; deito-me na grama, olho as nuvens... procuro meu carneirinho e resgato a minha infância. Como se meu Anjo fosse o fio condutor entre a criança Ritelisa e a adulta Rita Elisa. Faço pelo menos um momento criança por dia, nem que seja na hora de dormir.
       Dessa maneira meu carneiro passou mais tempo entre as nuvens do céu, do que enterrado no porão de uma antiga casa. O peso que dei à minha fantasia é tão grande que até hoje vislumbro minha ovelhinha entre as nuvens.[10]  
DICA: Sempre que puder, vislumbre cenas de sua infância que lhe dão paz e peça ajuda ao seu Anjo para estampar na sua alma os sentimentos de alegria dessa lembrança. Resgate a energia do bem e a potencialize no seu interior.
        À PROCURA DE UM CAMINHO!

Problemas aparecem sempre, precisamos ter força para resolvê-los e seguir adiante. Parar no caminho é sempre mais perigoso do que caminhar. Porém, em certa época eu parei... parei para decidir qual era o rumo que eu devia seguir. Tempos desgastantes, por mais que eu tentasse não conseguia entender o autoritarismo. Mesmo com tantos ‘nãos’, eu apostei no ‘sim’.
Precisava de um tempo para meditar, para mudar, ou para continuar a mesma. Precisava reencontrar alguma parte minha que estivesse perdida na caminhada.
Eu questionei meu Anjo a razão dele não me socorrer em certos momentos tão difíceis, ou melhor, de deixar que eu sofresse punições no corpo...  no meu entendimento eu não merecia as penalidades. Eu queria e não conseguia entender a razão dele ficar calado. Sabia que poderia ser dolorosa demais essa decisão e, mesmo assim, eu...  Parei!
Engano torturante dizer que a gente para, ou pensa que para. Mas as pessoas não param para nos entender e, se precisamos de auxílio pedem explicações que nem mesmo a gente tem. E se tiram um tempo para nos ouvir temos de dar satisfação de algo que é só nosso; cair na grande armadilha chamada sobrevivência humana é angustiante.
O tempo exigiu decisão.
Resolvi conversar com meu Anjo. Mesmo que eu ainda estivesse machucada com toda erosão em minha alma, mesmo que meu grito parecia não ser escutado por ele. Mesmo que me parecesse que meu Anjo me abandonara. Eu me coloquei em postura de batalha, uma guerra travada entre o que eu acreditava e o que as pessoas queriam que eu acreditasse. Não sosseguei até que escutei a voz de meu Anjo me instruindo como obter ajuda. Eu estava tão magoada que não quis escutá-lo. Era meu Anjo falando e eu tapando os ouvidos; até que não consegui mais fingir que não era comigo que ele falava. Nesse mesmo dia, peguei um livro a respeito de Padre Pio (ele ainda não era canonizado nessa época, mas eu rezava pedindo intercessão dele há muitos anos) e abri logo na página onde ele disse que, certa vez, o seu Anjo não atendeu seu chamado de socorro, então Padre Pio ficou muito zangado.  Logo depois, o Anjo apareceu para consolá-lo e explicou que Jesus nos permite sofrer assaltos do inimigo para que compreendamos, pelo menos... um pouco, o que Ele passou no Deserto, no Jardim de Getsêmani e na Cruz (Carta I, 113). Eu fiquei um tempo pensativa, tentando entender o significado daquelas palavras, pois por mais que eu sofresse, jamais chegaria a uma mínima porcentagem do que Jesus sofrera. A resposta me veio rápida: ‘o mínimo para Deus é muito’. Sorri. Meu Anjo disse que a minha ajuda, humana, estava em ficar um tempo em Deserto.
Aceitei a ajuda... fui procurar meu Deserto. Mudar requer abalo sísmico na alma e todos meus alicerces despencaram. O que eu achava injusto era apontado como justo pelos que desejavam minha submissão. Tentei entender e a resposta veio sonora, através de meu Anjo fiquei ciente de que minha Cruz devia ser carregada por mim... e não deixada de lado; que tudo tinha um propósito maior para o bem. Porém eu estava cansada e nada mais importava a não ser parar e repensar os valores da vida. Saí em busca de uma resposta justa... pelo menos uma que me deixasse em paz.
Alguns dias depois procurei um retiro religioso. Fui para Campinas-SP, ficar junto às irmãs do Instituto das Irmãs Missionárias de Jesus Crucificado. Entidade Religiosa que tem como fundador Dom Francisco de Campos Barreto que foi bispo em Campinas.  Fui para lá porque tenho grande afinidade pela vida de Irmã Amália de Jesus Flagelado e foi nesse instituto onde ela viveu durante alguns anos.  Muito me alegrou ao ler sua biografia que ‘no dia 11 de maio, naquele tempo dedicado a Nossa Senhora Aparecida, receberam o hábito azul as primeiras noviças, entre elas a querida Irmã Amália’(Franco,18). 
Eu sabia que a Irmã Amália de Jesus Flagelado fora agraciada com o fenômeno dos sagrados estigmas de Nosso Senhor Jesus Cristo e teve várias contemplações da Virgem Maria  a quem denominou Nossa Senhora das Lágrimas, isso aconteceu em 1930, comunicando muitas mensagens de oração e penitência, também ensinou-lhe o Terço das Lágrimas. No dia 8 de abril revelou à irmã Amália, a Medalha Nossa Senhora das Lágrimas e pediu-lhe que a difundisse pelo mundo inteiro, pois através dela seriam realizadas grandes conversões e muitas almas seriam salvas. Já conhecia a história da Irmã Amália há muitos anos e sempre eu rezava a Coroa das Lágrimas, tinha algumas estampas e medalhas da época em que Irmã Amália era viva, mandada fabricar por ela.
Eu precisava de paz e melhor local não havia para recuperar minha alegria. A Irmã Maria da Glória me reservou um quarto no segundo andar onde eu pudesse ficar tranquila.
Deixei minha mala no quarto e fui à capela, a mesma onde houve a aparição de Nossa Senhora à irmã Amália. Lugar sagrado. Fiquei horas e horas em oração. De vez em quando eu via uma irmã entrar em um cômodo atrás do altar, depois voltava feliz. Ia visitar as relíquias de Santa Cristina.
Passei a fazer jejum, porém a irmã Maria da Glória me alertou que eu não deveria fazer tanto jejum, deveria comer algo pelo menos nas principais refeições, comer pouco, mas comer. O verdadeiro jejum é soltar as amarras dos prisioneiros, ela me disse.
Eu pedi autorização para ir à capela durante a noite e me informou que o acesso era somente de dia, à noite ficava fechada.
Então, depois de passar parte da manhã e da tarde em oração na capela, eu passeava pelo pátio do mosteiro.  À noite eu ficava no quarto, orando, ajoelhada. Certa noite eu disse para meu Anjo da Guarda que meu desejo era ir à capela durante a madrugada e ficar quieta, sem nem mesmo orar, apenas libertar-me das amarguras na alma. Ele ficou quieto. Eu me ajoelhei no chão e fiquei rezando o Credo, depois passei para a oração da Coroa das Lágrimas. Senti cheiro de rosas e dormi.
Acordei no chão, um passarinho estava na janela, cantando. Lembrei-me que aquele era o dia de aniversário de meu pai e, também, me lembrei de São Francisco de Assis. Levantei-me, sorri, peguei um papel e escrevi um poema para o pássaro sonoro. Senti a minha alma leve, liberta do rancor, desejava apenas a justiça.
Fui ao refeitório e me alimentei um pouco. Depois a irmã Maria da Glória me levou para uma sala especial onde constam alguns pertences da irmã Amália do Jesus Flagelado, inclusive alguns hábitos, devocionários, imagem de Jesus Manietado e alguns terços e medalhas. Ela pediu que eu abrisse a mão e depositou uma antiga medalha, que tem a desgastada figura de Nossa Senhora das Graças. Peguei a medalha e olhei-a atentamente enquanto a Irmã me informava: ‘Essa medalha foi muito usada pela Irmã Amália, por isso está gasta desse jeito. Ela agora é sua’. Fiquei tão feliz que não consegui expressar meu contentamento, jamais haveria de pensar em algo tão maravilhoso como foi aquele presente. 



                                Foto: Irmã Maria da Gloria, Campinas-SP.
DICA: Quando você passar por problemas e não conseguir compreender a razão de tanto sofrimento, quando se sentir ultrajada e não entender a punição indevida, não se deixe dominar pelo ódio; peça para que seu Anjo afine seu pensamento com o bem, com a paz, com o poder da Luz Divina. Faça esse exercício até que sinta que perdoou.
       RETIRO DE SILÊNCIO!

Eu gosto do silêncio, gosto da solidão. Já se foi o tempo em que eu precisava de uma explicação para esse sentimento. Simplesmente, sou assim.  Na verdade, na minha solidão eu ganho mais do que perco, escrevo, leio e penso na vida. As respostas para minha vida... só as encontro no silêncio. Aprendi a praticar meu deserto.
Depois de alguns anos, precisava de mais respostas. Então, desejei conversar com alguém que fosse ermitão...  verbalizei meu desejo.  A resposta veio rápida, no mesmo dia fiquei sabendo de um padre que vivia numa montanha no sul de Minas. Soube o nome dele: padre Valeriano, e onde morava... no alto de morro na fazenda, e que ficava em oração pelas pessoas que precisavam. Só que ele era inacessível.
Novamente meu Anjo me atingiu com golpe certeiro no coração, me disse para orar a noite inteira à mesma frase, bem simples, se apresentando ao padre Valeriano e dizendo que precisava conversar com ele. O meu Anjo ia entrar em contato com o Anjo da Guarda do padre.
Lembro-me bem... já era noite, fui para o quarto, sentei-me na cama, fechei os olhos, relaxei, respirei fundo, pensei... ‘Padre Valeriano meu nome é Rita Elisa e preciso falar com o senhor’.  Repeti essa frase à noite toda. Não é exagero, não!...
 Lá pelas 5h30, levantei-me decidida em ir a Itajubá-MG, falar com o padre Valeriano. Fui guiando e repetindo em voz alta aquela mesma frase. Cheguei quando o dia amanhecia. Parei perto da porteira, fui até uma casinha branca, olhei pela janela, lá dentro uma mulher lia um livro. Perguntou-me o que eu queria. Respondi: ‘conversar com o padre Valeriano’.
 Ela veio até a janela e, sorrindo, me informou que ele era anacoreta, não descia da montanha há vários meses, não sabia quando ele apareceria. Desde que ele ficou viúvo fez daquela fazenda um lugar para seus amigos viverem em paz, com casa, horta e criação. Construiu para ele um abrigo no alto da montanha, uma casa simples, passava a noite toda orando, de manhã dormia um pouco na rede, plantava, colhia, cuidava de tudo sozinho. Ninguém tinha permissão para subir a montanha.
Olhei dentro da casa e vi um interfone, ela leu meus pensamentos... ‘isso ali serve para ele se comunicar conosco, nós nunca ligamos para ele, só em caso de emergência, pra você ter uma ideia a família dele esteve aqui dia desses e não ligamos pra ele’.  Eu, resignada, agradeci e saí bem devagar. Quase chegando à porteira ouvi um ‘psiu’, olhei para trás, a mulher gesticulava me chamando. Voltei. Perguntou o meu nome. Respondi. Ela saiu da janela. Esperei um pouco. Retornou: 'espera um pouco, padre Valeriano acabou de ligar, perguntou se havia alguma Rita Elisa aqui... ele vem te ver'. Meu coração bateu mais forte.
Na minha pequenez algumas dúvidas: como ele ia saber quem eu era?!...  aonde eu deveria esperá-lo?!... como ele era?! Aquietei meus pensamentos, não deixei a ansiedade tomar conta. Respirei fundo. Enchi minha alma de paz.  Fui para a sombra de um enorme jequitibá. Sentei-me no chão. Fiquei ali por quase uma hora, depois levantei-me e fui para a capela. Afinal o padre Valeriano iria conversar comigo na capela, era o mais correto. Num lugar santo.
Fiquei na porta e, depois de mais de hora, escutei uma voz ao meu lado: 'Rita Elisa...' Olhei, quase fiquei sem fôlego. Um homem alto, de certa idade, não posso dizer que sua veste era uma batina ou um hábito. Toda encardida, a barra surrada, desfiada, um cordão marrom de tanto barro, amarrado à cintura. Usava um chapéu de palha com abas largas, preso com barbante. Descalço, pés empoeirados. Olhei-o nos olhos. Ele sorriu e mostrou-me o jequitibá : 'vamos sentar-nos ali, é melhor, a natureza é um Santuário’.  Mordi o lábio, envergonhada em mostrar minha alegria.
 Chegando à sombra, ele tirou o chapéu, a cabeça queimada de sol. Ele ungiu minha testa e minha nuca com óleo, junto uma oração em latim. Falou algumas coisas que iam me acontecer, se eu tomasse essa ou aquela decisão.  Conversamos mais um pouco e depois nos despedimos. Ele completou brincalhão: 'agora posso dormir um pouco... fiquei a noite inteira incomodado, o seu nome toda hora vinha na minha cabeça. Menina... você não deu trégua'. Beijou-me  as mãos, colocou o chapéu e saiu devagar. A sensação de paz que me envolveu foi tão grande que até hoje a uso para sossegar minha alma.
Nunca mais vi o anacoreta. Nem sei se continua lá. Tudo que ele falou me aconteceu, inclusive ele me disse coisas que ri na hora, e depois, muito depois, chorei ao passar por elas. Uma coisa é certa, devemos ter cuidado com o que falamos. Devemos nos calar mais do que falar. Também aprendi que, ao orarmos, podemos ficar num estado de euforia tão grande que oferecemos sacrifícios, dizendo um tudo aguento como se fosse um tudo posso. Somos humanos, nem tudo aguentamos; nem tudo podemos. E, Deus, não precisa de sofredores, precisa de vencedores, cada um deve saber até onde pode ir. Cabe a nós escolher a direção. E... de que forma seguir. Namastê!
A missão do Anjo não é a de nos preservar de sermos lançados na fornalha ardente de nossas emoções, mas se temos fé, o Anjo nos preserva de sermos queimados. Eu entendi o recado.[11]


DICA: Se conhece uma pessoa de Paz que possa ajudar você em momento de crise existencial, mesmo sabendo da dificuldade em conversar com a tal pessoa, não desista. Peça ajuda para seu Anjo entrar em contato com o Anjo dessa pessoa. Fique um bom tempo mentalmente repetindo uma frase onde você se apresenta e pede ajuda para essa pessoa. Geralmente o melhor horário é de madrugada. Nunca use palavras de ódio, de maldade, ou de ameaças, tudo que disser voltará a você.
        VOLTA AO CAMINHO!

       Eu soube o que fazer e, também, qual o caminho devia trilhar, o amor tem um limite chamado dignidade. As palavras do anacoreta me perturbaram durante cinco meses cruciais dessa volta ao caminho, inclusive ele me disse que minha família ia aumentar e realmente, nasceu meu lindo neto Seishum. Quando fui vê-lo no hospital, eu pedi para o meu Anjo, ser amigo do Anjo da Guarda dele. Assim, criei uma empatia com meu neto, que ninguém pode destruir. Mesmo que distante.  
       Foi uma época de aprendizado onde encontrei todo tipo de problemas. As dívidas eram tão grandes que ficamos sem luz em casa; sem pagar outras contas do condomínio e sem comprar comida. Meu filho e meu marido desempregados. Não tínhamos alternativa a não ser vender o apartamento. Fomos ao cartório e quando pegamos o registro do imóvel estava no nome de outra pessoa. Sim, mesmo depois de pagarmos todas as promissórias e de assinarmos a legalização da escritura, fora tudo um golpe de quem nos vendeu o imóvel. O apartamento não estava no nosso nome. Não podíamos nos dispor dele.
       Eu consegui junto aos meus amigos Josino e Neusa alguns freelances de fotógrafa. Mesmo assim o que entrava de dinheiro não dava para pagar todas as contas e os credores telefonavam, mandavam cartas, batiam à porta de nosso apartamento.
       Tínhamos que, pelo menos, pagar a conta de luz, pois estávamos no escuro. Assim, o dinheiro que ganhei, eu quitei a conta com a companhia de eletricidade. Meu filho e meu marido procuravam empregos. A fase da carência financeira me ensinou a humildade de procurar ajuda, e aprendi que, nem sempre, ela virá de quem a gente espera. Bati em várias portas de amigos que se colocaram como inimigos. Aprendi que a necessidade do ser é motivo para o afastamento de alguns que se diziam amigos. Perguntei ao meu Anjo qual era o motivo para os amigos me tratarem com tanto desprezo. Ele não me respondeu. Silêncio de um Anjo é sinônimo de que aquela parte de meu aprendizado ainda não havia terminado; na verdade a lição estava apenas começando.
       Não desisti de pedir ajuda, queria e podia trabalhar; o casal Josino e Neusa, durante quatro meses me doou uma cesta básica. O padre Djalma, da igreja São Sebastião, me ajudou com dinheiro para pagar o gás de cozinha. Eu agradecia a Deus, todos os dias, por me mostrar meus amigos de verdade. Lembrei-me que o padre Valeriano me alertou que tudo isso ia acontecer e que, mesmo com tanta dor, era o melhor a ser feito; ele me disse: ‘não desista, minha filha, vocês vencerão’.    
       Na minha vã filosofia, eu tinha todos os motivos para desistir. Até perdi na rua o chaveiro com as chaves do apartamento. Foi uma fase difícil, eu emagreci muito de tanto jejum que fazia e, às vezes, desmaiava por causa disso. Eu pedia proteção ao meu Anjo todos os dias, quando me levantava e quando eu saía para trabalhar. Fotografei muitos casamentos e batizados (fazia plantão nos cartórios e nas igrejas), também fui contratada para fotografar Primeira Comunhão.
       No final de três meses, consegui vários contratos em escolas infantis para álbum de fim de ano. Mas, eu não tinha o equipamento de estúdio: tochas, sombrinhas, disparador automático, painel de fundo e suportes.
       Naquele mês, eu trabalhei dobrado, e consegui um dinheiro extra, precisava comprar esses equipamentos. Sabia que teria de fazer plantão pelo menos mais dois fins de semanas para completar a quantia para comprar os equipamentos, eu havia procurado novos e eram caríssimos, busquei nos classificados de usados e encontrei um, pela metade do preço e, mesmo assim, era caro demais para eu pagar.
       Certo dia, depois de sair da casa do casal Josino e Neusa, onde entreguei os negativos de um trabalho fotográfico em uma escola, fui para casa dirigindo o velho Passat. Mesmo que em meio a tantas tribulações, eu senti necessidade de cantar para meu Anjo... eu que há vários meses não cantava... deixei-me mover pelo Amor. Cantei.
       Quando cheguei à Vila Industrial, ouvi nitidamente a voz de meu Anjo: ‘Passe no supermercado’. Eu acatei a mensagem, fui lá e comprei pão e leite; provavelmente era essa a razão do pedido para eu passar pelo supermercado, sentir alegria por ter algum dinheiro para comprar alimentos. Passei pelo caixa e, bem à frente, no painel de recados fixado à parede, havia um recado que parecia um letreiro luminoso. Fui até o painel e li: ‘Vende-se material para estúdio fotográfico’. Embaixo tinha o telefone e o preço... exatamente a quantia que eu tinha conseguido guardar para essa compra, até mesmo os centavos. Entrei em contato na mesma hora, receosa de que fosse anúncio antigo ou que já tivesse vendido. Fechei a compra por telefone e no outro dia paguei e peguei o equipamento.
       Abri minha máquina de costura e fiz roupas de formatura e de Papai Noel para fotografar as crianças nas escolinhas.
       Naquele fim de ano eu fiz álbuns de alunos e internos em dezenas de escolas e creches. Meu marido me ajudou, ele maquiou e vestiu as crianças. Usei todo equipamento do estúdio, foi uma bênção. Eu fiquei ciente da necessidade que as crianças têm de receber uma lembrança fotográfica escolar. Agradeci a Deus através de meu Anjo, a oportunidade que tive em comungar com os alunos, momentos tão significativos de amor.

 

                                                            Foto: Seishum dormindo no meu colo. 


DICA: Para espantar a tristeza, para seguir em frente quando parece que o mundo lhe diz “não”,  diga “sim” ao amor e cante para seu Anjo louvando a Deus pelo dom da vida. 



[1] Fragmentos: Valeparaibano, outubro de 2008.
[2] In: recantodasletras.com.br/audios/mensagens/17246
[3] Fragmentos: Visão Vale, novembro de 2010.
[4] Fragmentos: Visão Vale, fevereiro de 2008.
[5]  Fragmentos: Valeparaibano, maio de 2006.
[6] Fragmentos: Valeparaibano, agosto de 2007.
[7] Fragmentos: Valeparaibano, outubro de 2008.
[8] Fragmentos: Valeparaibano, junho de 2008.
[9] In: TROFÉU, 2001.
[10] Fragmentos: Visão Vale, outubro de 2009.
[11] Fragmentos: Valeparaibano, agosto de 2008






OS ANJOS NÃO ENVELHECEM

 
                                                                 PARTE III
                                                             Cidade de Goiás-GO



O  LUGAR DA GELADEIRA!

Foi logo depois da grande enchente na cidade de Goiás, que meu marido foi trabalhar na cidade de Faina, estado de Goiás.  Eu ainda em São José dos Campos, trabalhando com fotografia, tinha de escolher, ou ficava ou ia para o estado de Goiás. Eu fui!... com a determinação de morar na cidade de Goiás e conhecer a sinestesia vilaboense, transportada para os poemas de Cora Coralina. Eu estava desistindo da escrita e, através do incentivo de Lucimara Nascimento (editora do caderno Vale Viver), me apoiando e publicando minhas crônicas no jornal Valeparaibano, que continuei escrevendo.
Foi nessa época que entendi o ensinamento de mestre Eckhart, quando disse que gostava muito mais do desapego do que do amor, pois o que há de melhor no amor é que ele nos força a amar Deus; enquanto que o desapego força Deus a nos amar. Com o desapego eu dou espaço para que Deus entre mais intimamente em mim.
Quando fui à linda cidade de Goiás, levei comigo em um Passat velho apenas: uma dúzia de facas, de garfos e de colheres. Uma televisão à válvula, poucas roupas, minha máquina fotográfica, um antigo computador, meia dúzia de panelas, copos e pratos...  e dezenas de livros. Dei de presente meu estúdio fotográfico para o Josino e a Neusa; pois eles mereciam bem mais do que isso. Meu filho ficou morando e trabalhando em São José dos Campos. Eu e meu marido alugamos uma pequena casa, em um dos becos de Goiás.
Foi nas lojas da cidade de Goiás, com uma ajuda de custo da mineradora que compramos: uma cama de casal e colchão; duas de solteiro e colchões; um baú, uma escrivaninha, um fogão, um botijão de gás, um armário de cozinha, uma mesa e seis cadeiras; um sofá e uma poltrona; alguns desses móveis eram usados e os outros adquirimos em pequenas lojas de produtos baratos, mesmo assim... faltou comprar a geladeira. Depois que os moveis novos chegaram, eu muito satisfeita agradeci a Deus através de meu Anjo. Aproveitei e disse que precisava de uma geladeira que coubesse no orçamento e na casa (ela não era tão grande e havia limitação de espaço), tanto que a cozinha era tão grande que improvisei um jardim, com um enorme tronco retorcido, bromélias, orquídeas e vasos com plantas.

Passaram-se os dias e eu não encontrava uma geladeira boa, pois restava pouco dinheiro. Até que fui a uma loja (atrás do Banco do Brasil), que vende móveis usados, e vi uma geladeira amarela, feia, pintura gasta, com ponto de ferrugem em cima. Perguntei o preço... ainda era cara demais. Barganhei a compra e aceitaram minha oferta. Negócio feito!
No outro dia, logo de manhã, a charrete puxada por um belo cavalo levou a geladeira em casa. Os dois homens foram perguntando aonde eu queria que colocasse a geladeira. A casa tinha três níveis e, no do meio, era a copa. Pensei em colocá-la ao lado da mesa, na copa, mas não havia espaço suficiente. Não tive alternativa, apontei para a parede, que fazia divisa da cozinha com o banheiro e disse: ‘coloque-a bem ali’.
Os homens sorriam zombeteiros. Provavelmente não estavam de acordo com minha decisão. Mesmo assim, colocaram-na lá. Explicaram-me que era para eu esperar pelo menos algumas horas antes de ligá-la para que o gás estivesse estável novamente. Antes de se retirarem da cozinha, parado no degrau que dá acesso à copa, um dos homens se virou e me disse assim: ‘cuida de trocar aquela telha ali (mostrou apontando para o telhado em cima da geladeira), pois ela está quebrada’.
Imaginei a bondade de um coração, ele havia visto uma telha quebrada onde eu nem imaginava. Antes de descer todos os degraus, o homem finalizou: ‘olha aí em cima da geladeira, aquela ferrugem é dessa goteira! Esta geladeira eu comprei do antigo morador desta casa...’; saiu rindo enquanto eu subia em uma cadeira, olhava a ferrugem e a telha quebrada.

DICA: Quando pedir algo com a ajuda de seu Anjo, fique aberto à surpresa... sempre existe a possibilidade do inusitado acontecer.

       CASA COM ENTERRO DE OURO!

A casa era na esquina entre dois becos, atrás do chafariz, muito confortável e arejada, não tinha forro, o que ajudava a suportar o calor. Porém, tive problemas demais com meus amigos joseenses que iam visitar-me e tinham muitos pesadelos, logo no primeiro dia em que dormiam em um dos quartos... amanheciam com as malas prontas, do lado de fora da casa. Sentados na calçada, prontos para ir embora, diziam que uma pessoa aparecia no ‘sonho’ deles dizendo para irem embora dali. E, por mais que eu insistisse para que ficassem, eles iam embora. Eu, também, sonhava com essa pessoa, ela sempre me dizia que havia um pote de ouro enterrado na casa. Então, pedi ajuda ao meu Anjo, ele me disse para orar pela alma dessa pessoa que tinha morado naquela casa, fiquei a par do nome. Orei e mandei celebrar 30 missas em intenção à alma dessa pessoa, conforme me instruiu o Anjo; e os sonhos cessaram. A respeito do ouro eu não me interessei pelo assunto!
O que me apavorou mesmo, na casa... foram os escorpiões. Eram tantos que, certo dia, para eu chegar ao banheiro tive de matar 75 deles na parede da cozinha. Nas roupas que eu tirava do armário havia ninhos de escorpiões e nos calçados, também. Foi quando eu pedi ao meu Anjo da guarda para me ajudar; eu precisava me mudar daquela casa.
‘Você sabe que casa quer?’ A pergunta me pegou de surpresa, pois geralmente quem fazia as perguntas era eu. Dessa vez foi meu Anjo quem questionou. Bem, se era para sonhar... resolvi sonhar alto (esse foi um ensinamento que meu Anjo me passou ao longo dos anos). Se eu não sabia passei a saber... de imediato. Peguei uma branca folha de sulfite e nela desenhei o que eu queria, rabisquei uma casa ímpar (com um diferencial) e os detalhes de minha satisfação. Tudo o que não tinha na casa onde eu morava eu coloquei em sonhos no papel: uma enorme área verde (pois naquela casa não havia um cantinho sequer onde eu pudesse plantar), uma garagem (nosso carro dormia na rua por falta de garagem), vários quartos (na casa atual eu tinha apenas dois quartos), uma área externa para receber os amigos e até um lugar onde eu pudesse armar uma piscina de plástico para poder me refrescar do calor vilaboense. Ao terminar o desenho eu o coloquei junto à Bíblia e anunciei: ‘Pronto meu Anjo, aí está à casa que eu quero’.
No outro dia, logo cedo, ouço batidas na porta de casa. Meu marido tinha acabado de sair para o trabalho em Faina; pensei que fosse ele voltando, pois ainda não tinha uma cópia da chave da porta da sala. Destravei a porta e um homem, de olhos azuis, grisalho, me perguntou pelo meu marido. Eu respondi que meu marido não estava em casa. O homem me disse que estava vindo pelo beco, ao lado da casa, e encontrou a identificação de trabalho de meu marido.
Mostrou-me o crachá.
Depois de feitas as apresentações (ele se chamava Rogério), ele me perguntou se eu estava gostando da cidade. Eu disse que muito, mas que eu pretendia morar em outra casa. Ele me disse que tinha uma casa para alugar e se eu podia vê-la. Perguntei se era muito longe, pois já me afeiçoara com aquela parte da cidade, atrás do belo chafariz; queria morar ali perto mesmo. Ele sorriu e me disse que era só atravessarmos a rua. Era mesmo... fomos até lá!
A casa era linda, maravilhosa, tão grande que meus móveis ficariam escondidos, tão linda que fiquei sem palavras. Tinha duas garagens enormes (em cada uma dava para colocar um trator); quatro quartos sendo um deles enorme suíte (com guarda-roupa embutido na parede); um grande banheiro e outro de empregada; duas salas, sendo que uma delas era tão grande que se eu quisesse podia andar de bicicleta lá dentro; um escritório junto à varanda; uma área externa para receber amigos perto da cozinha com vista para o parreiral; uma cozinha gigante; um terraço onde o ponto focal era uma árvore de guatambú; uma linda piscina com direito à cascata, com acesso exclusivo pela escada que vinha da varanda e mais um quarto na parte debaixo, onde havia uma enorme pedra que completava o ambiente (a casa era construída em cima de uma enorme pedreira). E ainda havia uma casa de caseiro, onde morava o Mané sorveteiro.
Vi tudo aquilo e logo percebi que o preço seria exorbitante. Então, Rogério me perguntou se eu havia gostado da casa, eu disse que sim, mas que provavelmente não poderia pagar o aluguel de uma casa como aquela. Daí ele me disse assim: ‘A senhora paga o mesmo que está pagando na casa onde mora agora... e pronto!’
Lembrei-me na hora de agradecer ao meu Anjo, meus olhos se encheram de lágrimas quando senti uma brisa leve passar por mim. Senti que era importante, para meu Anjo, que eu me mudasse para aquela casa. Dali a três dias, eu e meu marido nos mudamos para essa linda casa[1].  
Foto:  a casa à direita de quem olha de frente é a primeira em que morei, do outro lado da rua, à esquerda, o muro e portão são da segunda casa onde morei.


                                          Foto: vista da segunda casa, piscina, jardim, pomar...

DICA: Ao desenhar um desejo para seu Anjo, ultrapasse o limite racional da sobrevivência humana, lembre-se que o amor não tem limites. Se é para o bem... acontecerá.

        ALMEJADA PEDRA VILABOENSE!

Minha fixação por pedras já me levou a fazer loucuras. Durante viagens com amigos gritar: ‘Parem o carro!’ Eles paravam assustados. Eu abria a porta e desesperada saía correndo, voltando com minha colheita... uma pedra. Por isso, quando vou viajar com pessoas que ainda não me conhecem bem, eu levo um livro ou uma revista, desvio minha atenção para a leitura.
       Em Goiás procurei uma pedra. Uma em especial. Tinha de ser a que eu queria. Eu que já me via como uma especialista em pedra tinha de farejar aquela. Sabe... aquela que a gente almeja cada dia mais?! Eu esperava encontrá-la e, cada dia mais, o sonho da pedra... virava pó.
Durante um mês eu procurei a almejada pedra. Ela tinha de ser grande, robusta, ter uma base triangular, ser bem rústica, sem interferência humana; de cor clara e principalmente... eu tinha de achá-la.
Passou-se um tempo, eu já tinha perdido as esperanças. Apelei, fui para as casas especializadas em pedras. E nada... nem lá eu encontrei a tal pedra. Quando voltei, entrei no quarto, suspirei e, com muita calma, conversei com meu Anjo e mostrei a ele como era a almejada pedra. Na minha cabeça era tão fácil ver a pedra; tão nítida. Ainda mais que o motivo era nobre... ser berço para São Francisco de Assis (uma imagem de cerâmica queimada).
Os dias foram se passando e a pedra não aparecia, por todos os lugares onde eu passava, dirigia, visitava; eu procurava a pedra. Até que, certo dia, eu desisti de procurá-la; mudei meu foco. Falei para o meu Anjo: ‘Pode deixar, eu vou colocar a imagem de São Francisco em um pedaço de madeira, num tronco bonito, bem rústico, com casca... aposto que vai ficar lindo!’
Fui para a madeireira na beira da estrada, à procura de um lindo pedaço de madeira. Achei uma tora de pau-Brasil de um vermelho intenso; igual eu queria, com casqueiro, toda rústica. Aplainaram um lado para que eu pudesse colocar o santo.
Pronto!... tudo no carro, ajeitadinho. Procurei um jeito mais fácil de sair dali, choveu muito e era lama para todo lado, resolvi dar a volta por detrás da madeireira. Foi quando eu vi, bem atrás do barracão, uma pedra enorme, linda, triangular, robusta, enfim... era ela; a mesma que eu sonhava encontrar, há mais de um mês.
Não deu outra, parei o carro, desci e corri para perguntar:
_ Ei moço, essa pedra é de alguém? – perguntei emocionada.
_ Não senhora, ela está aí há muito tempo. Caiu da pedreira logo ali atrás.  E aí ficou... – respondeu mostrando desinteresse à pedra.
Sem receio, fui logo querendo:
_ Posso levá-la para mim?
_ Sim, é um favor que nos faz! – disse sorrindo.
Foi assim que consegui a tão sonhada pedra. Três homens a colocaram no carro e outros três a tiraram dali.
O melhor foi que a imagem de São Francisco coube certinha nela; agradeci meu Anjo. Ainda hoje quando olho a pedra, parece-me que a imagem foi feita para aquele lugar, parece que foi planejada. Vai ver que foi mesmo.
Em Goiás, a pedra ficava no quintal junto com outras pedras, vasos, ninhos e gaiolas de bambu (sem pássaros é claro, aves... só as que estão livres). Todo fim de tarde havia um ritual, a Bolinha (sempre coloquei esse nome em minhas cadelas), o gato Nilsen, as duas galinhas d’angolas, o galo, a galinha garnisé e os lagartos, compareciam diante da imagem de São Francisco de Assis e, ali ficavam, até o sol se por. O galo era muito exibido e gostava de ficar em cima da pedra, como se fosse um chefe. Por muitos anos, acompanhei esse ritual feito pelos meus bichinhos de estimação.  
As pedras precisam de nossas mãos para voar daqui para lá e... de cá para lá. A não ser, é claro!... que caia de uma pedreira! Bendita pedreira! Quem será que derrubou, apenas, aquela pedra de lá de cima?!
Na verdade, quando procuramos algo é porque ele existe. A vontade é a mola propulsora para a realização. 




DICA: Não desista do que pretende ter se for algo que enaltece o ser humano, pode demorar um tempo, você pode até mudar de opinião, mas... seu Anjo não muda, jamais.

        RADARZINHO... O ANJO DE CORA!

Minha pesquisa a respeito da vida e obra de Cora Coralina me levou a vasculhar, na cidade de Goiás, os arquivos da diocese, dos museus e particulares... dos meus amigos.
Certa vez, eu desejei ter em mãos pelo menos um livro primeira edição, escrito por Cora Coralina. Orei em minha capela (sim, eu fiz do escritório uma capela) pedindo ao meu Anjo da Guarda que me desse entendimento, que me ajudasse a conseguir o que eu queria ou me tirasse àquela vontade do coração.
Ainda naquele dia, eu tive a certeza de que deveria ir aos sebos, em Goiânia. Um chofer ‘Goiânia Urgente’ (táxi que leva e traz cliente de Goiás a Goiânia) me ligou e me perguntou se eu não sabia de alguém que queria ir a Goiânia na quinta-feira, pois tinha um lugar sobrando. Era minha confirmação. Precisamos ser sutis para entender esses sinais do Anjo da Guarda, eu sempre tive um olhar diferenciado para entender esses pequenos tesouros (na minha fragilidade eu não iria, pois era um gasto a mais no orçamento apertado).
        Na quinta-feira, às 5h da manhã, em um táxi ‘Goiânia Urgente’ fui à procura de um sonho. O chofer do táxi me aconselhou a procurar o livro nos sebos da Rua Quatro.  Passei o dia inteiro nessa garimpagem. Na primeira loja que eu entrei, procurei na estante: Literatura Goiana. 

Achei um livro, segunda edição, Poemas dos Becos de Goiás e Histórias Mais. Abri-o e as duas primeiras páginas estavam coladas. Olhei na contraluz e meu coração disparou – era a letra de Cora Coralina. ‘Mas... por que as páginas coladas?’ Só fui entender alguns anos mais tarde.



Feliz e com uma vontade enorme de desgrudar as páginas, olhei mais uma vez tentando me certificar que era mesma a letra de Cora. Suspirei fundo, reservei o livro e agradeci meu Anjo. Continuei a minha procura. Fui de estante em estande ainda procurando. Até que vou até uma pilha de livros que ainda não estão catalogados, mexi nela e encontrei uma primeira edição de Vintém de Cobre. Meu coração voltou a acelerar e ao abrir o livro vi a letrinha de Cora Coralina. Tremida, com poucas palavras, ofereceu e assinou, com o registro da data: 15/08/1983. 



Comprei os dois livros por apenas vinte reais. Era a quantia que eu tinha na carteira.
Saí do Sebo Feirão do Livro cantando e dançando, igual uma criança que ganhava um doce.
Passei o dia inteiro na Rua Quatro.  A rua é imensa, são vários quarteirões com lojas de sebo dos dois lados. Estava tão feliz que nada mais poderia ser ruim. Caminhando no sentido à Avenida Paranaíba, encontrei a capela de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa, Reitoria Nossa Senhora das Graças; entrei, ajoelhei-me e pedi ao meu Anjo que agradecesse a Deus pelo dom da vida de Cora Coralina, pelos registros biográficos que ela nos deixou como legado de paz e bem. Senti muita alegria. Quando o agradecimento é pleno, traz a satisfação imediata e nos abrimos para as dádivas divinas.
Voltei de ‘Goiânia Urgente’, segurando a sacolinha com os dois livros perto do coração.
Devorei em apenas dois dias o livro Vintém de Cobre – Meias confissões de Aninha e as palavras saciaram minha fome do saber coralineano. Foi com enorme alegria que li no poema ‘Cigarra cantadeira e formiga diligente’ a respeito da ajuda de Radarzinho, sempre atento ao tacho de doce, não deixando as abelhas pousarem; apagando o fogo; maneira toda dele de ajudar a doceira Coralina... ‘Meu Anjo da Guarda, Radarzinho’ (Coralina, 40). Ela conversava com seu Anjo e o chamava pelo nome.
Pedi ao meu Anjo entrar em contato com Radarzinho e, através dele, apresentar a Cora Coralina a minha estima por ela e alinhavar nossas vidas com fio de amizade. E, também, pedir a bênção de Deus para nós. Uma das maiores lições que meu Anjo me passou é a de que, nem todos se definem dentro de uma religião; porém, a religiosidade é um elemento que dá estrutura para a existência humana.
 

DICA: Crie um canal de amizade entre seu Anjo e o Anjo de uma pessoa que você muito admira, mesmo que essa pessoa esteja falecida. 
       COM O VINTÉM NA MÃO!

Minha amiga do coração, Paula Inêz, passou alguns dias comigo em Goiás, quando eu ainda morava na primeira casa, onde ela viu aqueles ‘fenômenos’ interessantes e não se amedrontou, ficou uma semana. Depois de alguns meses, ela voltou para conhecer a minha nova moradia, a casa do outro lado do beco. Ela nem bem chegou e eu a levei ao Museu Casa de Cora Coralina.
Paula sempre soube de minha admiração pela poetisa maior de Goiás. Declamei para minha amiga, alguns poemas de Cora, os quais eu tinha mais afinidade (hoje, tenho afinidade por todos), ainda mais os de Meu Livro de Cordel.  Expliquei para ela que eu estava, também decorando poemas do livro Vintém de Cobre – Meias Confissões de Aninha’, divaguei a respeito do subtítulo. Qual seria a razão das ‘meias confissões’? Por que não inteiras?
 Andamos pela casa, depois fomos ao quintal e ficamos sentadas em uma mureta. Ali eu expliquei para a Paula o quanto eu gosto de Cora Coralina e que o livro ‘Vintém de Cobre abrange a fase lúdica de Aninha, a menina feia da Ponte da Lapa, máscara lírica de Cora Coralina’. Depois ficamos em silêncio. Um silêncio estranho... parecia que o mundo estava parado, que as árvores não mais cresciam, que os pássaros desistiam de voar, que o rio Vermelho havia estancado suas águas e que o vento tinha sido tragado por um imenso buraco. Silêncio bom de sentir, exortação à plenitude divina.
Eu estava munida de uma máquina fotográfica profissional, mexi nela para quebrar o silêncio. O jardineiro passou varrendo bem onde estávamos sentadas. Levantamos o pé para dar espaço para ele varrer. Aproveitei e tirei uma foto dele varrendo, quando já estava mais longe.
Assim que voltei o olhar para o chão, grudado no meu pé direito, em cima da sandália, vi o que parecia impossível... uma enorme moeda. Sim; jamais em meus sonhos mais impossíveis eu pensei em ter um vintém igual aquele.  Minha reação foi agir com prudência, relaxei minha mente e me coloquei à disposição do bem. O mundo pareceu que parou por alguns instantes; eu estava em um misto de euforia e de paz; todos meus cinco sentidos pareciam desligados, eu não ouvia, não tinha olfato, nem paladar, não sentia o tato e só enxergava a moeda no meu pé. Esse estado de dormência física deu lugar ao crescimento de minha parte espiritual, pareceu-me que precisava disso para decidir o que ia fazer... Então, de repente, sem medo de que ele caísse do meu pé, em câmera lenta, abaixei-me e colhi a moeda em minhas mãos; meus sentidos voltaram potencializados, eu suspirei. Paula, que tudo via, ficou de queixo caído. Ela ria e não sabia o que falar. Senti uma brisa suave, como se o mundo voltasse a existir e a natureza dissesse: Amém!
Em casa, com o vintém na mão, abri o livro Vintém de Cobre e li: ‘Sentir a presença daquele vintém/ pobre da minha infância, tão procurado, tão escasso!...’ (Coralina, 29) foi uma das mais lindas sensações que já experimentei. Aos poucos fui me acalmando, respirei fundo, não queria chorar, não precisava chorar!
Voltei meu olhar para aquele vintém, na palma de minha mão, senti o peso da moeda, passei os dedos pelo gasto número 40; então não consegui mais conter a emoção... chorei! Lembrei-me que, um dia antes, eu havia lido o poema ‘O Cântico de Aninha’ onde a Menina Feia da Ponte da Lapa, Aninha, descreveu a emoção de segurar um vintém: ‘Vintém de Cobre... / Antigos vinténs escuros. (...) / Ainda o vejo, / Ainda o sinto, / Ainda o tenho, / na mão fechada./  (...) Quarenta vintém derréis...’ (Coralina, 19-20). Era muita emoção para meu coração. Agradeci ao meu Anjo, beijei o vintém e o guardei no oratório, ao lado da imagem de Nossa Senhora das Graças.
Minha amiga não questionou o aparecimento do vintém, assim do nada. Ela preferiu ficar calada. Dentro da nossa religiosidade sabemos distinguir uma dádiva divina sem questionar os limites de nossa espiritualidade, sem duvidar e, muito menos, procurar uma resposta fora da nossa religião. A resposta que temos preenche todos os espaços... mesmo que antes vazios; pois através da oração o preenchemos com certezas.
       Conheço meu Anjo e sei que a bondade dele supera minhas expectativas de amor. Aliás, temo não saber amá-lo como ele merece, por isso, todos os dias eu agradeço a Deus por me dar como protetor, um Anjo tão amável. Foi com esses pensamentos que fui à capela, peguei o vintém no oratório e, deitada no chão, com o vintém na mão, fiquei em um misto de alegria e tristeza.
Depois me levantei e peguei o livro Vintém de Cobre, novamente abri na página 29 e li outra parte do poema Moinho do Tempo: ‘Me faltando sempre o vintém da infância. Bem por isso / mandei fazer um broche de um vintém de cobre / (...)’. Então, enquanto minha amiga descansava em casa, fui ao ourives, perto da farmácia, e mandei fazer um broche com aquele vintém de cobre.
Ao ler o poema Meu vintém perdido, eu compreendi algumas artimanhas de meu Anjo. Cora escreveu: ‘Meu vintém perdido, meu vintém de felicidade’ (...) / Quando eu morrer, não morrerei de tudo, / Estarei sempre nas páginas deste livro (...)’ (Coralina, 45).  Eu quis tanto conhecer Cora; orei tanto por ela, mandei celebrar centenas de missas pela sua alma; briguei por ela com pessoas que a maldiziam e criei inimizade por isso. Mas, também adquiri muitos amigos na cidade de Goiás, pessoas que amam Coralina. Aprendi que, para conhecê-la bem, basta-nos ler seus poemas. Essa leitura já preenche nossa alma de paz.
No outro dia, fui buscar o broche e preguei-o do lado esquerdo da minha roupa, bem perto do coração. Uma homenagem à menina Coralina; um agradecimento ao meu Anjo da Guarda.
Santa Maria Madalena de Pazzi conversava com seu Anjo da Guarda e, com 16 anos de idade, entrou para a ordem Carmelita Nossa Senhora dos Anjos, em Florença - Itália. Ela deixou escrito no livro Contemplações: ‘Oh! Se a criatura conhecesse esse amor intenso dos Anjos!(...) Esse amor torna a alma sábia e prudente’ (Jovanovic, 188). A prudência consiste em deixar-se levar pelo primeiro amor, acreditar no bem; não se deixar levar pelos pensamentos secundários, que nos tiram a paz, que nos dão medo. O amor jamais nos trará receio de agir. 


 

DICA: Seja sempre prudente ao se deparar com uma situação inusitada; coloque-se a dispor do BEM. Repita mentalmente que seu Anjo está no controle da situação e seja categórica em dizer que é abençoada por Deus Pai, Filho e Espírito Santo. 

         PARA VIVER O HESICASMO!

Em 2003, na cidade de Goiás, me interessei pelo Hesicasmo. Nessa época, eu até me achava meio esquisita, por conta de conversar tanto com meu Anjo da Guarda, por depositar minha vida diária sob sua guarda. Esquisita porque quando eu questionava os amigos se eles conversavam com o Anjo da Guarda, sempre me olhavam desconfiados como se isso fosse assunto de criança que precisa se agarrar a algo para sentir-se segura. Daí, eu me calava e dessa forma fui me fechando em concha que guarda um tesouro, uma pérola, das mais belas.
Porém, hoje eu tenho a certeza de que todas as conchas nesse mar de humanos têm pérolas guardadas, mas nem todas se abrem para apreciar essa convivência. Jovanovic ao pesquisar durante anos a respeito das visões angélicas, registrou em seu livro Relatos sobre a existência dos Anjos da Guarda, que ficou surpreso ao ver a onipresença dos Anjos na nossa vida, mesmo que sequer demos conta realmente da presença deles. Na verdade, muitos neutralizam a visão da pérola, outros sabem que ela existe, mas a deixam de lado, poucos a usam como um tesouro. Minha esquisitice fica por conta de gostar tanto da solidão.
Lá em Goiás, eu sentia que me agarrara demais ao meu Anjo e às vezes parecia que eu falava demais com ele, aparentando que não tinha Fé, e isso me magoava porque sentia que meu Anjo se distanciava, ou melhor, na verdade... ele se calava. Eu tinha necessidade de uma oração constante com meu Anjo, porém, sabia que haveria um jeito de aprender a orar de uma forma harmônica, onde todo meu ser era uma oração constante a Deus. Desejei isso, sem nem mesmo saber que existia um jeito. Meu desejo foi satisfeito em três dias. 
Minha amiga Benedita me emprestou o livro Terapeutas do Deserto e, logo após a leitura, fui convidada pela amiga Vânia a participar de uma palestra proferida por Jean-Yves Leloup na UNIPAZ, em Goiânia, onde fiquei a par do Hesicasmo. Adquiri o livro: Escritos sobre o Hesicasmo – Uma tradição contemplativa esquecida, e me preparei para a leitura.
Sim, conversei com meu Anjo a respeito e ele disse para eu me preparar. O que foi essa preparação? Procurar no calendário o maior número de dias em que eu pudesse me dedicar a esse início da prática do hesicasmo, sem interrupção de viagem ou até mesmo sem sair de casa. Confessar-me, ir à missa e comungar, até que eu me encontrasse em um estado de paz absoluta.
Preparei-me como quem vai subir uma montanha sagrada, e tem que dominar-se dos atrativos dos campos e dos rios. Fiquei em paz.
A primeira providência foi trancar o portão, que sempre estava aberto aos amigos e conhecidos. Precisava de silêncio. Desliguei a televisão da tomada e o rádio na cozinha.
Comecei a leitura.  
Fiz de minha casa meu Monte Athos e, aprendi com o padre Serafim, todas as etapas de uma Contemplação Milenar. Para os exercícios diários eu desligava até o telefone. A sincronicidade entre minha respiração e a oração Kyrie Eleison foi tão grande que tinha momentos que eu não sabia se estava ainda nessa Terra.  
Logo após conhecer e fazer uso da Practiké (método espiritual que visa purificar a parte apaixonada de nossa alma), aos poucos eu fui purificando minha alma.
Esse método me levou ao conhecimento profundo da minha verdadeira natureza... o Amor de Deus.  Foi necessário purificar meus pensamentos e acabar com tudo o que me dividia: os traumas, os medos, as desconfianças, a raiva, enfim...  o que despedaçava meu espírito, o que corroía minha alma, o que era porta aberta para a entrada do inimigo, aliás, a palavra ‘diábolos’ quer dizer divisão. Passei alguns dias discernindo o que era obstáculo para meu autoconhecimento, porque era necessário que eu encontrasse a minha verdade absoluta, só assim  o Espírito, a Força Criadora, poderia agir.
O primeiro passo foi me reconhecer como filha querida por Deus. Descobri que a Imagem de Deus refletida em mim, nunca foi perdida, é pura Luz. Não queria mais deixá-la escondida embaixo da mesa. Ela nasceu na minha alma e eu a ofereci apenas o abrigo de um esconderijo; por receio de olhares furtivos, por medo de não saber lidar com ela. Era hora de colocá-la em destaque, no centro da minha alma.
Depois, analisei todos os vícios capitais: a gula, a avareza, a luxúria, a cólera, a vanglória, o orgulho e a inveja; e medi quais eram as proporções que esses vícios atuavam em minha mente, mesmo quando não verbalizados ou atuados, simplesmente quando apareciam em meu pensamento. Fiz um propósito de não mais deixar que eles agissem em mim, nem mesmo no pensamento.
Conversei com meu Anjo, precisava de ajuda. O que parecia algo fácil tornou-se terrível. Cada vez que eu tentava me esquivar de um pensamento vicioso, mais ele me perseguia, parecia que ele se escondia e de repente, assim do nada, quando eu menos esperava o pensamento aparecia com força. Comecei com um processo de desânimo.
Depois de três dias com os mesmos sintomas, eu pedi que meu Anjo interviesse por mim. Engraçado foi pedir para que Ele agisse em meu pensamento, e o mais difícil, foi a resposta: ‘Você tem de aprender aos poucos, eliminar por você mesma, não sou um mágico que tira suas sensações humanas, sou seu protetor e seu guia. Leia o livro’.
Foi ao mesmo tempo decepção e alegria. Decepção, porque seria fácil se meu Anjo pudesse me ajudar a passar essa fase do aprendizado, eliminando meus pensamentos ruins. Alegria, ao entender que seria mais prazeroso passar pelo processo por meu próprio empenho, e mais alegre fiquei quando, o Anjo finalizou: ‘Você consegue!’  Essa frase mudou minha perspectiva que, antes parecia de afundar-me em traumas; passei a viver em completa harmonia comigo mesma.
Presenteei-me com uma entrega total em ver e em ouvir (sem falar) o meu mundo interior. O silêncio de Deus impregnou-se em mim. A cada dia ficava quieta em casa, sem me importar com o mundo; eu era o NADA, precisava me alinhar com o Universo Divino- o TUDO.  Meu marido saía de madrugada e voltava à noite. Eu tive tempo suficiente para esse deserto.
Foi depois dessa luta e dessa vitória, que percebi que meu Anjo podia sim ter feito essa tal ‘mágica’, pude ouvir o som de um sorriso sincero quando eu consegui passar pelas sete purificações em meus pensamentos, como se o Anjo também estivesse passando por um teste e havia conseguido sua Vitória.  Por isso, eu não mais questionei a esse respeito, nem a ele e muito menos me questionei. Entendi e segui em frente.
Eu estava preparada para começar a prática da oração do coração. Mesmo assim a prudência se fez presente e esperei até o outro dia, eu precisava me confessar primeiro. Havia mexido em uma água que estava antes parada; estagnada era totalmente limpa, clara, inodora. Mas, ao chacoalhá-la, tirá-la do processo de decantação, todo lodo que tinha embaixo foi subindo aos poucos e tornou a água turva, cheirando a barro. Agora precisava filtrá-la. Esse filtro se chama ‘confissão’... o perdão.
          O grande aprendizado que tive nesse tempo de imersão ao meu self, foi o entendimento de que, mesmo que tudo parecesse limpo, havia lodo escondido nos lugares menos improváveis de minha alma. E o outro aprendizado, foi ao questionar ao meu Anjo a respeito de minha confissão, pedi para que me escutasse e perdoasse meus pecados; ele foi categórico ao me dizer que ‘jamais poderia fazer isso, nem ele ou qualquer outro Anjo’[1] tem permissão para perdoar os pecados dos humanos.

DICA: O aprendizado que temos com nosso Anjo da Guarda é tão forte que basta-nos uma vez só ele nos ensinar, ficará marcado em nossa alma... para sempre.
        PADRE PEDRO NA CAPELA!

Depois de quase quinze dias em reclusão em casa, desci o morro; fui à diocese de Goiás e perguntei para meu amigo Sérgio Praia, onde eu poderia encontrar um padre àquela hora da manhã, para me atender em confissão. A resposta veio rápida: ‘Padre Pedro está na capela aqui da Diocese, vá até lá, conversa com ele’.
Já tinha ouvido falar a respeito do padre Pedro, monge que morava no Mosteiro da Anunciação... era só o que eu sabia, nunca o tinha visto.  
Fui à capela e encontrei um homem de estatura baixa, encurvado, um pouco corcunda, careca, vestindo hábito de frei, em adoração diante do Santíssimo. De repente ele se virou e sorriu para mim. Eu, também sorri e perguntei se ele podia me atender em confissão.
E foi ali, naquela bela capela, na diocese de Goiás, que padre Pedro me olhou fundo nos olhos e depois de me confessar, disse que, o que eu procurava estava dentro de meu coração, precisava aprender a oração do ‘Peregrino Russo’, repetir o Kyrie Eleison tantas vezes que minha respiração seria a própria oração. Impôs as mãos em minha cabeça e fez uma oração em Latim. Fiquei extasiada porque na confissão e na conversa que tivemos, eu não disse que conhecia ou que procurava a prática do hesicasmo e da oração contemplativa.
Eu olhei para ele e não entendi quem estava diante de meus olhos. Seria meu Anjo em forma de Frei? Seria um santo esse padre Pedro?  Não tive condições de perguntar. Na verdade eu não quis perguntar, porque sendo qual fosse a resposta, nada tiraria de meu coração aquela sensação de caminho certo, de conquista, de paz.
Voltei para casa com tamanha alegria, fui para minha capela e fiquei sentada no chão repetindo o Kyrie Eleison.  
Entrar no ritmo de Deus exige paciência. Foi minha primeira batalha... aguentar o silêncio de Deus. Aprendi que a gente não pode ‘fazer’ o silêncio, pelo simples fato dele já existir. Procurava a santidade e sei que, na etimologia hebraica, santo quer dizer: ‘aquele que se comporta de outra maneira; como eu fazia aqueles dias, minha principal vitória foi a de me equilibrar na oração perene: o Kyrie Eleison (Senhor Piedade); procurava minha aphateia, meu estado de pureza.
Foram dias, semanas e meses. Até que um certo dia, minha respiração despertou em Kyrie Eleison, fluiu normalmente, sem forçar, sem impor. Não sei e não posso explicar, creio que cada um cria uma singular identidade meditativa. O que antes eu achava que já era o encontro de minha oração interior, não passava de simples farfalhar de uma árvore seca. Até que aquele dia, eu consegui ouvir o inaudível.
Ouvir o rio que passa; os pássaros nas árvores, os galhos ao vento, a abelha procurando néctar... é fácil. Difícil é ouvir a brisa da manhã, a nuvem ligeira, a folha que cai e o desabrochar de um botão. Para isso, precisamos silenciar a alma. Precisamos interagir com o Universo. Construir um mundo fora de nós é simples. Difícil é viver cinco minutos que seja no nosso mundo interior e ouvir a nossa música mais secreta.
Para que isso aconteça, precisamos do silêncio além do corpo, necessitamos do silêncio no espírito. E, quando finalmente eu consegui, encontrei um enorme nada, um vazio sem volta, um poço de Luz. Meus pensamentos eram pequenos demais para a grandeza daquele espaço, meus desejos desapareceram como se fossem apenas vistos pela capacidade humana, eram pequenos demais perante o meu universo interior. Abri a porta para deixar que Deus sonhasse através de minha vida. Sei que Deus não precisa sonhar, porque Ele já tem tudo; por isso deixar que ele sonhe por nós é apenas um jeito de dizer: ‘aceito o que vier de Deus, pois será maior do que minha alma.’ Quando eu deixei de sonhar por mim, livrei-me de minhas limitações humanas, fechei essa janela e escancarei a porta da divindade que mora em meu coração[2]





DICA: Para momentos de disciplina interior, use o recurso auditivo, escute pelo menos durante uma hora por dia, o Kyrie Eleison musicado e, se puder, faça isso à noite, antes de dormir.   
 

       O NOME DE MEU ANJO!

Nesse tempo de abandono ao Kyrie Eleison, desenvolvi um sentido maior de percepção e em um momento de total entrega, de mergulho no vazio, sentada no chão, na capela, em minha casa, eu ouvi nitidamente o meu Anjo me apresentar pelo seu nome. Foi uma alegria sem igual. Eu havia feito esse pedido há pelo menos 23 anos e, jamais... cobrei uma resposta. O ensinamento de que tudo tem um tempo debaixo do céu, sempre me remete à verdade de que ‘ainda estou na Terra’ e, por isso, devo ter calma. O nome de meu Anjo é muito diferente de todos os nomes de Anjos que eu conhecia;  até então, eu jamais havia encontrado nome semelhante, difícil até de pronunciar.
Meu coração quase me levou para a outra vida, na ganância de viver tranquila para sempre, as batidas descompassadas me entorpeceram os sentidos, nada mais eu via, nem escutava, muito menos tocava. O primeiro instante foi de euforia. Com muita regra e respiração certa eu voltei ao normal. Respirei fundo e agradeci ao meu Anjo por ter-me dado essa revelação. Escrevi o nome dele na minha Bíblia e desde então eu o chamo pelo nome.
Diante da Santíssima Trindade, de Nossa Senhora da Imaculada Conceição; dos meus santos prediletos, dos que me são prediletos e ainda não foram santificados; dos nove coros dos Anjos; de São Miguel Arcanjo, de São Gabriel e de São Rafael; eu sempre me prostro e agradeço por ter um Anjo da Guarda tão carinhoso, compreensível, severo, alegre, cuidadoso, zelador e piedoso. Sei que meu Anjo intervém a meu favor e usa de todos os santos métodos para justificar minhas faltas, para revogar meus erros, para conseguir auxílios às minhas necessidades e para levar o incenso de minhas preces ao Criador.
Antigamente, quando eu precisava demais que uma prece minha fosse atendida, eu o clamava e pedia para que meu Anjo ficasse diante da Santíssima Trindade intercedendo por mim, até que meu pedido fosse atendido. Hoje, eu sou mais ponderada, nem sempre o que eu peço é o melhor para minha salvação; por isso, antes de fazer um pedido a Deus, eu peço ao meu Anjo discernimento e sabedoria para formular minha oração. E quando ele se cala, eu percebo que preciso de tempo.
Às vezes é preciso renovar meu compromisso feito no santo batismo, orar o Credo; outras vezes eu necessito de orar o Exorcismo escrito pelo Papa Leão XIII e fazer uso da água benta exorcizada, aspergi-la em cada cômodo da casa, do carro, nos membros da minha família e em mim. Tive combates terríveis com os maus espíritos, sofri muito, fiquei muito machucada espiritualmente e fisicamente, porém os aprendizados foram grandes.   
Aquele aprendizado de que, para que exista um milagre devemos encher os potes com água limpa e cristalina, é um dos pontos que mais me ajuda. Jesus podia fazer o milagre, seria fácil para Ele encher os potes com vinho bom, mesmo que os potes estivessem vazios; porém Ele pediu para que, primeiro, os potes fossem abastecidos com água. A água de nosso batismo é o que temos para manter os potes sempre cheios e, através delas, mesmo que não seja a hora, Jesus fará o Milagre. 
DICA: Pelo menos uma vez por mês, renove a água de seu batismo; faça a oração de renúncia ao pecado, ao mau; confirme a sua crença à Santíssima Trindade, reze do Credo; prometa viver como autêntico cristão; acenda uma vela para seu Anjo da Guarda e asperge água exorcizada em você e familiares presentes; pelos cômodos de sua casa; nos seus carros, motos, bicicletas. Peça para seu Anjo lhe mostrar onde mais precisa aspergir a água, sempre é o primeiro lugar que vier a sua mente. Não duvide.

       EM BUSCA DA JUSTIÇA!

Na cidade de Goiás eu continuava fotografando casamentos, formaturas e festividades de fim de ano. Conseguia, com isso, economizar uma certa quantia de dinheiro. Eu orava para Santo Padre Pio, todos os dias, para me dar discernimento a respeito de como fazer justiça a respeito do apartamento que compramos e pagamos com tanta honestidade.
Depois de mais de um ano orando nesse intento, no dia 27 de novembro, ao sair  da Missa, na catedral de Santana, cidade de Goiás, parei à porta para distribuir medalhas de Nossa Senhora das Graças. Quando eu estava entregando a última medalha, uma menina me cutucou e me entregou um chaveiro contendo apenas uma chave; ela me disse:
- Toma esta chave, ela estava embaixo de seus pés... só pode ser sua!
Ela me entregou e saiu correndo. Olhei para o chaveiro e quase chorei. Ergui os olhos à procura da menina e ela havia desaparecido.
O chaveiro era igualzinho ao que eu perdi alguns anos atrás, em São José dos Campos, quando eu fazia um trabalho fotográfico. Um chaveiro muito raro. Eu sabia que era vendido somente em Roma (meu marido o havia trazido na época em que trabalhou na Europa). O chaveiro é uma grande medalha onde, de um lado, está a figura do Vaticano e, do outro lado, existe a imagem do Papa Paulo II; ambos os lados em alto relevo. A única diferença daquele chaveiro para o que eu perdi é que aquele já estava bem gasto, foi muito manuseado.
Ao receber aquele raro chaveiro eu voltei para dentro da igreja e, diante do Santíssimo, questionei meu Anjo da Guarda; pedi discernimento a respeito do acontecido.
Com clareza me veio à mensagem de contratar um advogado e entrar na justiça requerendo a posse do apartamento que compramos e pagamos fielmente. ‘Era tempo da justiça humana’. Eu tremi diante dessa mensagem, pois estava muito machucada com tantos dissabores e ainda tinha o agravante de não ter condições monetárias para pagar advogado.
O tremor logo passou, quando me veio à frase: ‘Acredite e aja!’ Olhei o chaveiro em minhas mãos. Eu quase entrei em euforia, me controlei, respirei fundo, precisava-me reconectar à oração do Kyrie Eleison. Fiquei mais algum tempo diante do Santíssimo, orando.
 Voltei para casa em paz... essa paz é bem diferente; talvez não exista um nome certo no dicionário para este estado de espírito, onde a alma fica em harmonia com o coração, no mesmo compasso, na mesma mansidão.
Ao chegar em casa, falei com meu marido e resolvemos agir. Conversamos com o doutor Alexandre, amigo que havia se formado há poucos anos em advocacia. Ele nos conhecia há alguns anos, sabia a veracidade dos fatos e tínhamos como provar a compra do apartamento. Ele nos fez uma boa proposta de pagamento de honorários e assinamos um contrato. Agradeci meu Anjo e pedi para que ele interviesse para que fosse feita a justiça humana. 



DICA: Continue com suas orações de Kyrie Eleison, procure um lugar à natureza onde possa meditar essa oração através de sua respiração. Peça ajuda ao seu Anjo.

       ESTAR NO PRESENTE!

Em Goiás, existem latas iguais àquelas que minha avó tinha no quarto. O mesmo tamanho (quadrada e alta), a mesma tampa (grande e redonda). A única diferença é que as de hoje são galvanizadas, não enferrujam. Ensaiei várias vezes comprar uma delas. Peguei-as, abri-as, fechei-as várias vezes. Sempre desisti.
A que eu tenho na memória preenche todos os espaços. Não há lugar para outra. Ela é enorme, verde e enferrujada. Nela eu guardo todos os livros que li, todos presentes que recebi... O cheiro da terra molhada pela chuva de primavera; todas as fotos que não cliquei; todas as pedras que, mesmo belas, deixei pelo caminho; todas as aves amigas; o som do riacho. Momentos registrados na memória. O não palpável, guardados na minha lata de segredos. Hoje, pego meu pacotinho de notas - meus contos, minhas vivências e transformo-os em livros. Reparto meu tesouro com as pessoas, para que ele não desvalorize com o tempo. Para que não seja um talento enterrado. Lata cheia é bênção – como nas bodas de Caná... para haver o milagre foi preciso encher os potes.
       O melhor foi quando de férias, saí da cidade de Goiás e fui visitar meus pais em Santa Rita do Sapucaí; recebi de minha mãe um presente... a pesada Cruz de bronze que pertenceu a minha avó e esteve guardada na lata velha da avó Pepa.
       Sorri para meu Anjo, um desejo de pré-adolescente, de uma Ritelisa de apenas 13 anos de idade, se concretizou em uma Cruz de bronze. Ele não havia se esquecido. Eu, sempre que posso, uso a fita com essa medalha. Quando a recebi, incentivei os amigos do grupo de oração, para reativamos o Apostolado da Oração que, há anos, estava extinto na cidade de Goiás. 

O Apostolado foi reativado e fiz questão de confeccionar a bandeira, diferente, inventei um enorme coração vermelho, acolchoado; antes de fechá-lo, em oração com meu Anjo, na capela de casa, escrevi em um papel branco o nome de todos os componentes do Apostolado de Oração da Cidade de Goiás e o coloquei dentro desse coração acolchoado; depois eu o fechei e o preguei no centro da bandeira. Ela até hoje é usada nas missas, festas e encontros do Apostolado da Oração, na cidade de Goiás. Foi o meu presente para os amigos do Apostolado.
       Rômulo Candido escreveu: ‘Dizem os psicólogos que não basta dar um presente. Você precisa estar no presente. Deus, certamente, conhece as leis da Psicologia’.[3]
DICA: O melhor presente para quem se ama é fazer o presente e colocar-se em oração junto com seu Anjo. Ao confeccionar o presente, peça ao seu Anjo que entre em contato com o Anjo da pessoa que vai receber o presente, criando um elo de paz entre vocês.

          UMA CASINHA MAIS NO ALTO!

Depois de quase um ano de atividades espirituais dentro da linha do hesicasmo, resolvi conversar com padre Pedro. Nessa época, eu estava ciente da biografia de Pedro de Recroix: nascido nas matas dos Pirineus franceses, na década de 50 do século passado; veio para o Brasil em 1961. Encontrou seu canto e recanto na cidade de Goiás, ajudou a construir o Mosteiro da Anunciação do Senhor. Na verdade, essa formalidade não significava nada para ele. O que mais me impressionou ao ler a biografia dele, é que ele era adepto ao hesicasmo, por isso, vivia isolado, em uma casinha no alto de um pequeno morro, no mosteiro, entre as árvores e que não recebia visitas nessa casa.  
Fui ao Mosteiro à sua procura. Ele me recebeu e me atendeu em seu atelier. Padre Pedro tinha o dom artístico do entalhe. Conversamos um pouco, ou melhor... pouco!... ele não era de muitas palavras, preferia o olhar. Ele sorria e me ouvia, quase não falava. Eu já sabia que isso condizia com os hesicastas. Não me importei.
Ao me acompanhar até o portão, no caminho, pegou uma das folhas no chão, olhou-a, me disse que a vida só tem sentido, quando somos folha, passamos pelas estações do nascimento, juventude, maturidade e velhice. Que ao chegarmos ao outono, devemos cair suavemente, aproveitando a brisa, dando adeus à árvore; ao chegar ao solo, em pleno inverno, adubaremos o solo, para que possam germinar as sementes. Lembro-me bem, que naquela época, entendi todo ensinamento.
Outra passagem importante de padre Pedro em minha vida foi quando eu e Ana Paula, fomos chamadas para orar por uma mulher que estava entrevada, na cama. Fomos. Chegamos a casa e ela estava sozinha; a porta aberta, entramos no quarto, arejado, com duas enormes janelas que davam para a rua. Era uma mulher já de idade avançada, deitada, dormindo. Aproveitamos que ela dormia e começamos a rezar. Rezamos o Pai Nosso, três Ave-Marias, o Credo; quando começamos a oração de São Miguel Arcanjo a mulher acordou, passamos para a oração de São Bento e a mulher começou a gritar. Ela gritava e xingava nomes feios; de repente o transformador de luz, que ficava no poste na entrada da casa, estourou; olhamos pela janela e vimos as faíscas e o fogo.
Para nosso espanto, Padre Pedro ia passando pela rua e escutou os gritos da mulher. Ele entrou no quarto, a mulher pulava na cama; ele colocou a mão na testa dela e começou a orar em latim. Ela foi se acalmando e a gente, também. Ela voltou a dormir. Saímos de lá na ponta dos pés, sem fazer barulho. Padre Pedro nos repreendeu dizendo que ao sairmos para orar aos doentes devíamos, sempre, termos a companhia de um padre. Desse dia em diante, aonde íamos orar levávamos um padre conosco.[4]
DICA: Sempre que for orar por outra pessoa,  jamais vá sozinho, convida um amigo religioso e, também, leva junto um religioso consagrado. Não pense que porque conhece seu Anjo e conversa com ele, você tem poderes sobrenaturais. Aliás, conversar com o Anjo é o dom mais natural que recebemos quando nascemos, o triste é quando algumas pessoas não levam adiante esse dom.

          BAEPENDI VAI ATÉ  GOIÁS!

Na cidade de Goiás eu divulguei minha devoção à Nhá Chica, bem antes dela ser beatificada. Meus amigos ficaram fascinados pela vida da Santinha de Baependi. Eu era a única, na cidade de Goiás, a falar a respeito dela.
Com o passar dos meses, falando tanto sobre a santinha, nasceu em meu coração um enorme desejo dos meus amigos terem medalhas, imagens e estampas de Nhá Chica. Todo desejo para o bem é convertido em prece ao Anjo da Guarda, que a eleva até Deus. Essa é uma verdade que aprendi ao longo dos anos.
Um mês depois desse desejo, meu marido chegou do trabalho dizendo que o novo geólogo contratado pela mineradora era da cidade de Baependi. Recebi a notícia com grande alegria. Convidei o recém-contratado, José Augusto, para falar a respeito de Nhá Chica para nosso grupo de oração. Finalmente, eu teria uma ajuda para falar da Santinha de Baependi.
Marcamos o encontro na casa da Cristina e, José Augusto falou para o grupo de oração Santo Padre Pio e para o Apostolado da Oração. Disse que dali a um mês iria a Baependi buscar a família e a mudança; traria para o grupo medalhas e estampas de Nhá Chica.
‘Alguns dias depois dessa palestra, indo à Baependi para a formatura do filho e levar os familiares definitivamente para a cidade de Goiás, José Augusto sofreu um acidente onde ele e outros membros da família faleceram’(Seda, 349). Levei a notícia ao grupo que ficou horrorizado. Oramos pelas almas de todos os falecidos. Pedimos a intercessão de Nhá Chica por eles.
Dali alguns dias me entregaram, por meio da mineradora, uma caixa onde constava meu nome. Disseram-me que estava nos pertences da mudança da família do José Augusto. Abri a caixa, nela continha uma grande quantidade de estampas, relíquias e medalhas de Nhá Chica. 
Distribui quase todo conteúdo para o meu grupo de oração, fiquei apenas com uma medalha, uma estampa e uma relíquia.  

DICA: Ao se deparar com um triste acontecimento faça uma prece para seu Anjo lhe ajudar a entender o episódio; depois peça para ele que leve até Deus sua oração de aceitação.

       EM PLENA ORAÇÃO!

Todos os dias minha respiração era Kyrie Eleison. Lia O Peregrino Russo (a série verdinha), compreendi todo trajeto da alma até o Criador. De vez em quando, eu encontrava o padre Pedro na Missa ou no asilo, aonde eu ia às sextas-feiras, orar com as internas e passar esmalte nas unhas delas. Padre Pedro não me dizia mais nada a respeito do hesicasmo, apenas me olhava como quem sonda um poço fundo de onde está brotando água nova. Sentia que eu saciava a sede do olhar dele, como se me dissesse: ‘Eu sei o que está fazendo e pensando... continue’.
Eu passei a rezar continuamente, a me libertar dos problemas inerentes ao mundo, almejava sempre o amor, fiz um propósito de sempre desejar e conseguir a paz.
Certo fim de semana, meu marido me convidou para pescarmos. Fomos para bem longe, já perto do Mato Grosso, em Aruanã. Enquanto ele arrumava os apetrechos eu andava pela margem do rio olhando as pedras. Distanciei-me, pois queria ficar no meu canto, orando com o coração, na companhia de meu Anjo. Fiquei um tempo olhando o rio, ouvindo os pássaros e passando a mão nas pedras. Até que encontrei uma linda e grande pedra, em forma de um coração. Sorri e agradeci meu Anjo, peguei a pedra e a guardei no carro.
Durante a semana eu arrumei um casqueiro de árvore pau-Brasil e preguei a pedra nele, pintei-a de vermelho e escrevi na madeira ‘Kyrie Eleison’. Entronizei minha obra de oração embaixo da árvore guatambu, que ficava no pátio em frente a casa. Embaixo da janela do meu quarto. 


Todas as manhãs eu acordava com os passarinhos cantando junto a essa placa. Como se estivessem em plena oração. 

DICA: Faça um passeio em meio à natureza, escolha um lugar especial, onde possa deitar-se ou sentar-se no chão, fechar os olhos e orar. Peça ao seu Anjo que se faça presente e ajude você a encontrar algo que possa usar como uma lembrança à oração, em agradecimento a Deus pelo dom da vida. Depois, abra os olhos, levante-se e procure. Ao encontrar esse elemento, tenha certeza de que ele não fará falta ao lugar de onde o vai tirar, leve-o para sua casa e o coloque em local de destaque. 

        VIVER DA MISERICÓRDIA!

Dia de pescaria, domingo, saímos cedo; eu e meu marido fomos desbravar o cerrado. Tempo de seca, fazia mais de cinco meses que não chovia. Fomos otimistas... ‘têm peixes’. Depois de cinquenta quilômetros de asfalto, entramos num trecho de terra. Pó, muito pó! Porteiras para abrir?... só doze! Eu abria a porteira e voltava para o carro cuspindo tijolo.
Levamos de tudo. Os apetrechos de pesca, água, suco, bolachas, frutas e máquina fotográfica. Chegando lá, meu marido se acomodou na beira do barranco. Aprontava a parafernália de sempre: vara, anzol, molinete, chumbada e isca. Ele tem uma técnica, algo só dele. Deixei-o arrumando tudo e fui passear pelo rio. O sapato não me deixava escorregar nas pedras. Com água até o joelho fui para o centro do riacho. Caminhei pelas pedras e saudei a presença de meu Anjo.   
   
A água limpa me deixava ver as cores e os formatos das pedras. As folhas eram levadas pela suave correnteza. Eu andava devagar. Às vezes mudava minha direção só para não interferir na natureza, não quebrava galhos e nem catava algo só para olhar e jogar fora. As árvores do cerrado têm copas baixas, conforme o lugar eu tinha de me abaixar para passar.
Continuei minha trajetória. Distanciei-me – e muito!... de meu marido. Queria gritar para ele, dizer que ali tinha muitos peixes. Mas, o silêncio era divino. Não poderia macular aquele silêncio com um sussurro, ainda mais com um grito. Andei mais alguns metros...  Parei perto de uma grande pedra, bem no centro do leito. Fechei os olhos. Respirei fundo. A quietude e o frescor agasalhavam minha alma. Pedi para meu Anjo orar comigo.
Comecei a louvar a Deus por eu estar ali, naquele lugar. Agradeci pela água, pelas árvores, pelos peixes, pelas pedras, pelas borboletas, pelas libélulas... e assim fui falando. Depois me aquietei. Relaxei a mente. Deixei-me absorver de quietude. O silêncio invadiu minha alma. Minha alma conquistou a natureza. Afinei-me com a sinergia do universo. Fiquei leve.
Até que abri os olhos... Vi um lindo pássaro empoleirado na árvore bem acima de mim. Falei com ele: ‘Passarinho você é feliz, vive aqui neste pedaço de paraíso. Mora nas alturas. Tem plumas para lhe aquecer no frio e o proteger na chuva. Faz seu ninho no galho mais alto. Tem o céu como telhado. Comida? Ah!... isso tem de montão. E, companhia?!... já vi que não lhe falta, não!  Seu trinado é um louvor a Deus. Você é humilde. Vive da misericórdia divina e nada lhe falta. Você confia no Pai’.
Enquanto eu falava vários pássaros foram aparecendo, de todos os cantos; pássaros pretos com bico vermelho, pássaros com plumagens variadas, azul, amarela, verde, vermelha e branca. Beija-flores pairavam no ar e centenas de borboletas, de todas as cores, pousavam na areia e nas pedras. Fiquei inebriada. Fiz o possível para não quebrar o encanto. Calei-me. Coração disparado.
Plena contemplação, parecia que eu estava fora do mundo. Fiquei um bom tempo parada. Não queria sair dali. Depois me senti uma intrusa... pequena demais para tanto encantamento. Como se eu tivesse arrombado uma sala secreta e invadido um lugar santo. Resolvi voltar. Virei-me e devagar comecei meu retorno... dava um passo e logo depois parava. Tentava não fazer barulho. A cada passo, o pássaro pulava para um galho mais perto. E assim retornei, com o pássaro junto; de pulo em pulo ele voltou comigo.
Dei o passo para a realidade, abanei a mão para meu marido, afinal eu tinha desaparecido por mais de hora (parecia uma eternidade). Nisso me lembrei da máquina fotográfica; hora de fotografar o pássaro. Olhei para o galho acima... e depois para todo lado... o pássaro saiu voando. Voltou para o encantamento.
A fotografia ficou registrada na minha caixa da memória (fetiche, onde encontro meus tesouros). Cenas que precisam ser revividas diariamente. Meu tesouro é essa caixa; onde um pássaro canta para mim o sermão das criaturas.
DICA: Não existem momentos comuns, todos eles são significantes, basta estar com os olhos da alma bem abertos para ver além do natural. O Anjo sempre ensina que é preciso estar no momento, ser consciente e, através dessa consciência encontraremos o Universo dentro de nós. Faça o teste e aventure-se em ser feliz.

 NAS GRUTAS DA SERRA DOURADA!

       Época da seca, Benedita me convidou para ir acampar na Serra Dourada. Aceitei o desafio. Só entendi que era mesmo um grande desafio, quando o caminhão onde estávamos parou e tivemos que atravessar o rio a pé e levarmos nossas mochilas, panelas e suprimentos alimentares, nos braços e nas costas. Chegando ao acampamento, fiz o ‘Nome do Pai’ e tentei disfarçar. Só havia uma palhoça coberta de sapê...
       O fogão era de terra socada, por cima uma grelha. A mesa, uma tábua apoiada em dois tocos. Quatro troncos erguiam uma tábua onde um colchão de capim servia de cama. Havia três camas. Eu logo de cara escolhi a do meio. Ficaria mais protegida, já que as únicas armas que tínhamos eram o velho facão do seu Zito e o meu canivete. Minha amiga pediu para eu mudar de cama com ela, ela estava com medo de ficar do lado da lona. Trocamos de lugar. Parecia que ia chover. Antes de escurecer totalmente fui tomar banho. Onde? No riacho, é claro. Voltei, janta pronta; no fogão, arroz, feijão e carne moída.
       Fui me arrumar para dormir, nem lamparina, nem vela, nem lanterna, nem lua. A escuridão era total. Tentei fazer um travesseiro com minha mala. Agasalhei-me bem e deitei-me no colchão de capim. Dormir que é bom... nada. Trovões sacudiam a noite, relâmpagos davam fagulha de claridade. De repente, a tempestade começou. Parecia que o vento ia nos arrastar dali. Pelo menos a lona parecia aguentar a tempestade. Entre um relâmpago e outro, eu vi minha amiga sentada na cama do meio, encolhida, segurando o terço, águas caíam feito cascata no pé da sua cama. Passamos o resto da noite orando, enquanto que o casal dormia abraçado, roncando.
       Na manhã seguinte escutamos: Se quiserem explorar o lugar o melhor é ir cedinho. Mal sabiam eles que nós não conseguimos dormir. Vesti calça comprida, meia, tênis, camiseta, camisa de manga longa e chapéu de abas. Ah!... não esqueci da minha máquina. Sueli, mulher do Zito, criada ali nas redondezas, estava de chinelo de dedo, bermuda e camiseta cavada. Os mosquitos nem zum para ela, todos queriam meu sangue’. [1]
       Algum bicho entrou no acampamento à noite e comeu toda carne, a panela estava no chão. Fomos andar pela mata; caminhamos muito! Eu sempre com a máquina fotográfica pendurada no pescoço, ela já pesava quase uma tonelada de tão cansada que eu fiquei. Até que encontramos resquício de um cemitério. Fotografei. Depois começamos a descer pelo leito do rio que tinha pouca água. Íamos, Dita, seu Zito, Sueli e eu, ouvindo o barulho do vento nas árvores; então, notei que o silêncio imperou, nem vento havia, porém em um arbusto de folhas largas e compridas apenas uma folha mexeu. Achei estranho. Orei ao meu Anjo.
       Nisso eu havia chegado a uma gruta à margem do rio. Meu Anjo me disse para orar pela pessoa que ia sempre ali. Comecei a orar em voz alta. Dita se aproximou ao me ver orando. Eu pedi que ela orasse, também. Ela me perguntou a razão, eu expliquei que não sabia por quem era, mas que devíamos orar por alguém que sempre ia àquela gruta. Dita se assustou e correu até Sueli. Conversaram e, logo depois, ficaram quietas. Cheguei perto e começamos a descer o leito do rio. Era final de tarde e logo ficaria escuro.
       O silêncio imperou novamente. Tudo quieto, nem o zumbido de abelha maculava o silêncio. Queixaram que tudo estava silencioso demais... Eu nem liguei, gosto do silêncio!
       Eu era a última da fila indiana, foi quando seu Zito veio ao meu encontro e me disse íamos caminhar pelo meio do cerrado, tivemos de nos agachar. Quase me arrastando pelo chão, protegi minha máquina com uma mão enquanto procurava me proteger com a outra. Eu, curiosa como só, olhei para trás e vi, ao longe, uma onça na espreita. Eu queria prender a respiração, queria correr; ao mesmo tempo queria abrir um buraco e me esconder no chão.  Pensei que havia chegado minha hora, pedi ajuda para meu Anjo. Acalmei-me e segui caminho me arrastando, sem fazer barulho.
       Ao chegarmos ao acampamento, o comentário foi que as onças naquele lugar estavam acostumadas com o ser humano; por isso, elas ficam na redondeza. Provavelmente, foi uma delas quem comeu a carne em cima do fogão.  Só de pensar que a onça estava ali perto, eu tremi. E, com o tremor, veio à febre... eu precisava de médico.
       Descemos o chapadão da Serra Dourada e eu fiquei sob os cuidados de amigos em uma fazenda em Mossâmedes. Até que voltamos à linda cidade de Goiás.
       Dali alguns dias, Sueli e Dita foram até minha casa. Mostraram-me uma série de fotografias de um jovem muito bonito em várias grutas na Serra Dourada, inclusive naquela em que eu parei e orei. Disseram-me que aquela era uma das grutas preferidas dele. Ele amava aquele lugar. Antes de falecer disse que ia voltar a morar onde mais gostava... a gruta na Serra Dourada.



DICA: Ao se lembrar de um lugar querido por um ente falecido, vá até lá e peça para seu Anjo da Guarda falar com o Anjo da pessoa falecida para levar uma oração a Deus pela alma dessa pessoa. Louve e agradeça a Deus pelos momentos em que passaram juntos. 



       A PAZ QUE VEM DO ANJO!

       Mês de agosto, eu estava no meu escritório, ao lado da cozinha, terminando de digitar uma crônica para o jornal Valeparaibano, quando meu Anjo me avisou que algo estava prestes à acontecer na mineradora onde meu marido trabalhava; eu tive a visão de tiros, gritos e uma explosão. Dei um pulo tão grande da cadeira que fez com que Hosana, minha ajudante, se assustasse. Corri para a capela, me deitei no chão e orei. Pedi que fosse revogado o acontecimento. Eu estava em pânico, queria pegar o carro e correr para a mineradora, pois meu marido havia saído para o trabalho há pouco mais de uma hora.
       Eu não conseguia encontrar as palavras certas para rezar. Pedi para meu Anjo me ajudar e  oramos juntos. Levantei-me ao ouvir a revelação de meu Anjo: ‘Não haverá mais explosão e nem vítimas fatais, fica sossegada’.
       Fui para a cozinha, Hosana lavava a louça e, quieta, me olhava com medo de me perguntar qual era a causa da minha corrida à capela. Entendi o olhar dela e expliquei-lhe que eu havia sentido que algo muito grave aconteceria, àquela manhã, na mineradora. Ela tentou aliviar a tensão e disse que era somente impressão minha; provavelmente era apenas o reflexo de algum sonho ruim que me tirou a paz, durante a noite, e continuava me perseguindo ao acordar. Eu sorri para ela e disse que não era isso.
       - Não sei como lhe explicar, Hosana, só posso lhe dizer que tenho confiança em Deus e que tudo acontecerá conforme Ele quer.
       - Então, telefone pra mineradora... assim ficará mais aliviada.
       - Não telefonarei Hosana, pois ninguém irá atender. Vou para o curso que me inscrevi e que começará daqui a pouco. Já estou atrasada. Volto em duas horas.
       Saí com o coração tranquilo, sem preocupações. Aprendi, ao longo dos anos, que quando o Anjo me mostra algo doloroso, eu posso intervir ou não com orações; o livre arbítrio é uma questão humana. Até aí tudo bem... o difícil foi entender e aceitar a questão de quando a oração não é atendida; pois, podemos orar e, mesmo assim, nada mudar. O que me deixou calma, naquela manhã, foi a questão de eu ter feito a minha parte; se fiquei ciente do acontecimento é porque podia intervir e pedir a mudança dos fatos, e isso eu fiz. Além disso, existe o ensinamento que tenho desde criança... o de pedir que meu Anjo da Guarda ore comigo. Dessa forma dou total liberdade para ele para falar. Quando isso acontece, eu o escuto orando e até aprendi a orar na língua dele; algo que me vem sem que eu procure explicação, não tem lógica humana, mas tem dom divino.
       Por tudo isso, eu saí sem me importar com o olhar furtivo da Hosana, que pensava que eu era meio louca, em passar do pânico para a paz em apenas alguns minutos de oração.
       Fui para o 4º Encontro de Parteiras, Benzedeiras e Raizeiras do Cerrado,  no Quartel do Vinte, na Praça do Chafariz, descendo a rua... pertinho de casa. Havia feito minha inscrição há alguns dias, fui participar com muita alegria. No encontro recebi ensinamentos de mulheres idosas, que vieram de vários locais do estado de Goiás para ensinar suas tradições. Sou apreciadora e pesquisadora da cultura brasileira. 

       Ao terminar o curso, eu fui para casa.  Quando cheguei, Hosana estava na varanda me esperando. Apavorada, ela pediu para eu me sentar e me acalmar; mas foi ela quem se sentou e quem precisou se acalmar. Depois de um grande suspiro, ela me disse:
       - Olha Rita, telefonaram do hospital, houve um assalto na mineradora e seu marido foi baleado.
       Não me assustei, meu pensamento me alertava que tudo estava bem. Minha calma era aflição aos olhos de Hosana. Então, peguei o telefone e fiz uma ligação para a mineradora, é claro que não se completou. Depois, liguei para o escritório, na cidade, e me informaram que o homem baleado era outro funcionário e não o meu marido; porém tinham o mesmo nome.
       Logo depois, meu marido chegou em casa e me contou que um grupo armado tinha invadido a portaria da mineradora. O guarda reagiu ao assalto e houve tiroteio. Um dos tiros atingiu a perna do guarda e os assaltantes entraram. Os funcionários, ao escutar o tiroteio, se esconderam. Meu marido se escondeu, também; porém, os assaltantes o encontraram e o levaram para ser interlocutor junto ao diretor da empresa. Foram feitos os acordos. Antes de saírem os ladrões metralharam alguns espaços internos e, por pouco, não atingem a secretária que se escondeu atrás de uma parede.
       Wilson terminou me dizendo:
       - O mais incrível, Rita Elisa, é que no tiroteio entre o guarda e os ladrões estava um caminhão que havia acabado de chegar... carregadinho com bananas de dinamite. Se uma bala daquelas pegasse no caminhão, tudo poderia explodir. Foi mesmo uma sorte!
       Meu marido foi deitar-se um pouco, descansar do estresse. Eu fui para a capela, agradecer a Deus pela dádiva de todos os envolvidos no assalto estarem vivos. Foi quando resolvi uma séria questão dentro de meu coração; ajoelhei-me e pedi para que os nove coros dos Anjos louvassem a Deus Pai, Filho e Espírito Santo pela existência de meu Anjo da Guarda.
DICA: Não se desespere ao pressentir que algo muito ruim vai acontecer. Não se distraia, aja no mesmo momento, peça ajuda ao seu Anjo e ore para que a paz, o amor, a saúde e a felicidade vença o mal. Depois agradeça a Deus e alivie seu coração, não duvide! 

      O QUINTO ELEMENTO... NA ÁGUA!


Uma das atividades que mais gosto é a de fotografar. Em Goiás, durante alguns anos eu fotografei com equipamento analógico, mesmo que já existissem máquinas fotográficas digitais. Muitas vezes fui contratada pelos órgãos públicos e privados para registrar eventos. Foi com grande satisfação que aceitei o convite de fotografar os seminaristas que foram transferidos para outra diocese. A única exigência feita por eles era a de que fosse película preto e branco – P/B.
O dia amanheceu chuvoso, mesmo assim saí de casa animada para fotografar os seminaristas. Na minha máquina, ainda havia um rolo de filme colorido e eu precisava clicar duas poses para trocar o filme para P/B. Saí de casa determinada em usar as duas poses coloridas em fotos da fachada da Igreja do Rosário. Desci a Praça do Chafariz, passei pelo Museu da Boa Morte, devagar passei pela Praça do Coreto. O aguaceiro caía e as ruas tornaram-se verdadeiros rios. Quando cheguei perto da Cruz de Anhanguera, nitidamente escutei meu Anjo me dizendo: ‘Tira fotografia da casa de Cora’. Antigamente, eu até poderia contestar: ‘A chuva está torrencial e não sairá algo que preste’. Mas, aprendi a ouvir meu Anjo e acatar o que ele me diz.

Eu parei o carro ao lado da Cruz de Anhanguera, abri minha bolsa e peguei a máquina fotográfica, troquei a lente por uma 35x70mm, mirei no vidro do carro e esperei. A chuva foi diminuindo, diminuindo, até que eu consegui focalizar a casa de Cora Coralina; cliquei. Tinha mais uma pose para gastar. Queria algo diferente, afastei-me um pouco do vidro e fiz o foco nas gotas da chuva. Cliquei... pronto; em um minuto eu gastei as duas poses do filme colorido. Tirei o filme da máquina e coloquei o P/B. Filme que tive de ir a Goiânia comprar, pois era difícil de encontrá-lo na cidade de Goiás.
Os seminaristas me esperavam no átrio da Igreja do Rosário. Foi com muito prazer e alegria que fiz o álbum de despedida deles. Levei os rolos de filme para serem revelados, fiz o álbum e o entreguei aos seminaristas. Era fim de ano, nos despedimos, eles foram para outras paragens.
No outro ano, a prefeitura da cidade de Goiás me convidou para apresentar, em junho, uma exposição fotografia no FICA, Festival Internacional de Cinema Ambiental. Planejei a exposição nos mínimos detalhes, inclusive improvisei um croqui com a disposição das fotos. Denominei a exposição de: O Quinto Elemento. Trabalhei com os quatro elementos: fogo, ar, terra e água. Em cada foto fiz uma interferência visual com um inseto (meu quinto elemento), que se tornava quase invisível dentro da fotografia.
As fotografias foram ampliadas no laboratório em Goiânia, onde eu conhecia o alto padrão do trabalho. Para a TERRA, eu usei a imagem da Estrada Real, onde o destaque ficou para o elemento terra, pois eu quase me deitei no chão para clicar essa foto e registrar a cidade de Goiás ao fundo. Peguei a terra dessa parte da estrada e a colei na imagem, o inseto era uma paquinha (grilo). Na imagem destinada ao elemento AR, eu inovei; fiz uma instalação. Moldei Anjos de cerâmica queimada (uma obra completa, pois usei terra, água, fogo e ar) e os preguei no quadro azul, como se fosse o Céu; dos Anjos saíam vários fios dourados impregnados de estrelas que ficavam balançando ao vento (ar). Cada estrela era recorte de uma fotografia, o inseto era uma aranha. No quesito FOGO, eu trabalhei uma fotografia que tirei de um buriti totalmente queimado, mas seus frutos, ao chão, estavam intactos. Eu preguei no quadro alguns frutos e muitos pedaços de carvão, o inseto, era uma cigarra queimada.
Deixei para último ato de criação, o elemento ÁGUA. Usei a fotografia da Casa de Cora que cliquei naquele dia de chuvoso, quando ia fazer o álbum dos seminaristas. Essa fotografia tornou-se um espanto para muita gente. Tanto que, quando eu cheguei para pegar as ampliações em Goiânia, os laboratoristas estavam de prontidão... me esperando. Nas mãos deles várias reproduções 10X12 (pequenas) dessa imagem. Nelas era impossível ver o que a ampliação mostrou; disseram-me que em muitos anos de trabalhos em laboratório fotográfico, jamais encontraram algo igual. E que, se não fosse película de negativo, poderiam até pensar em manipulação digital. Chamaram-me do lado, e em outro balcão, abriram a enorme fotografia, 80X100, para eu ver o resultado. Em um instante, encontrei bem no centro a razão de tanto espanto, eram três gotas d’água, uma delas em forma de igreja, com direito até a uma cruz, as outras duas formaram dois Anjos bem à frente da fachada da igreja; os Anjos até mesmo têm auréolas. Na hora, eu me lembrei de meu Anjo da Guarda me dizendo para fotografar. Eu não tive muito o que fazer nessa fotografia para a exposição, a não ser colocar o quinto elemento... um pernilongo!
 
Os que foram à exposição se encantaram com todos os registros fotográficos. Quando diante do quadro ÁGUA ficavam perplexos, queriam explicação. Eu só podia dizer que foi um presente de meu Anjo e que meu amor por Cora Coralina era correspondido.
Existe uma sutil diferença entre escutar ou não, parar ou continuar, fazer ou deixar para lá. E essa diferença está em ter harmonia diária com o Anjo da Guarda. Criar laços afetivos tão grandes, que o Anjo nos presenteia com emoções as quais ainda não conseguimos descrever através do dicionário humano.
Por isso, muitas vezes eu prefiro somente... sorrir. Igual agora, escrevendo este relato, eu olho o quadro ÁGUA e a mesma sensação de prazer que tive há tantos anos invade minha alma e me faz sorrir novamente. 




DICA: Sempre acate uma sugestão de seu Anjo da Guarda, o resultado poderá ser surpreendente.
       PARA SEMPRE... AMÉM!

A geladeira amarela nos foi útil por quase cinco anos. Quando fomos morar na casa maior, ela era destaque na cozinha, gelando no tempo certo. O caseiro, Mané sorveteiro, sempre levava algum tipo de carne para guardarmos na geladeira. Quando ele precisava, ia à casa pegar a carne para cozinhar. Algumas vezes, ele dava um ‘teco’ de carne para meu gato Nilson.
Depois de tantos anos, Mané sorveteiro adoeceu. Foi um período triste. Eu sempre ia à casa dele cuidar para que não lhe faltasse algo. Rogério, o dono da casa onde eu morava, às vezes ficava dias com o Mané, cuidando. Depois veio o Lua, protegendo Mané, dando banho, fazendo a barba e cortando os cabelos. Todos os dias, eu ia ver meu amigo Mané. Ele sempre me pedia algo especial: ‘estou com vontade de comer caqui’. Eu corria à procura de caqui para o Mané que os comia com vontade. Mesmo doente tinha suas vontades e eu sempre fazia de tudo para satisfazê-lo.
Foi em um fim de tarde, eu na casa de Mané, conversando com ele, perguntei-lhe: ‘Mané, o que mais você quer?... fala que eu lhe dou!’ – a resposta veio imediata: ‘Quero sua geladeira!’
Fiquei sem ação; pensei e repensei. Encontrei a solução: ‘Ok! A geladeira é sua, ela ficará lá em casa por um tempo; mas assim que você melhorar eu darei um jeito de trazê-la para cá. Então, trate de melhorar logo...’
Fui para minha capela e orei, pedi que meu Anjo conversasse com o Anjo da Guarda do Mané. Sempre faço esse tipo de oração quando preciso de discernimento. Se eu não sei o que fazer, os Anjos sabem... afinal, eles nunca envelhecem. Há milhares de anos entendem tudo.
Daí dois dias, em pleno FICA; Festival Internacional de Cinema Ambiental; em que eu participava com uma exposição fotográfica, eu voltava para casa e vi os bombeiros chegando. Corri para a casa do Mané, ele estava sentado, dizia que não ia deitar na maca. Corri em casa, peguei uma cadeira de ferro, levei-a até os bombeiros e pedi para eles colocarem o Mané ali. Eles disseram que não podiam. Então, com muito jeito, eu peguei o Mané nos braços; ele ficou bravo, disse que eu ia cair com ele. Eu estava assustada, mas superei a dor e a minha pequenez (Mané era magro, mas pesado para mim...), pedi ajuda ao meu Anjo. Fiquei forte, aprumei o corpo e coloquei o Mané na cadeira. Mané recebeu medicação no hospital e retornaram com ele.
Passou-se apenas um dia, os bombeiros voltaram e, novamente, pegaram o Mané; desceram a escada com ele e o colocaram na ambulância. Ana Paula, querida amiga, ficou junto, ao meu lado. Lua acompanhou o Mané, na ambulância. Pedi licença para Ana Paula, eu precisava pegar o carro e ir para o hospital. Antes mesmo de eu sair com o carro da garagem o Lua apareceu no portão, gesticulando: ‘Mané não aguentou chegar no hospital, morreu aqui perto mesmo’.
Entrei em casa e telefonei para o Rogério e a Paula. Depois, liguei para o hospital e pedi que trouxessem o Mané para casa. Eu precisava de água gelada para aliviar o calor dos acontecimentos. Ao abrir a geladeira me dei conta de que ela estava desligada. Olhei na tomada. Que desligada que nada, ela havia pifado.
Não demorou muito e, da janela, olhei para o portão... o corpo de Mané chegava. Fui para a casa dele e a roupa que eu arrumei até que ficou bonita, precisava apenas de meias. Corri em casa, peguei um par de meias e coloquei-as nele.
O velório de Mané foi a grande estilo; meus amigos apareceram e tocamos violão, cantamos, oramos muito. Cristina dizia que Mané sorria no caixão. Quem fez o viático do Mané foi o bispo Dom Eugênio. 
Três dias depois do enterro eu levei a geladeira para ser consertada. No outro dia, o técnico me ligou dizendo: ‘Senhora dona Rita, não tem jeito, o motor queimou de vez, parece até que a geladeira morreu!’
Mané se foi e levou junto com ele a geladeira... e o meu gato; na mesma hora em que Mané descia na cadeira, levado pelos bombeiros, meu gato Nilson fugiu pelo muro... para nunca mais voltar. 

DICA: Nossa pequenez humana às vezes se depara com mistérios que não sabemos desvendar. Nesse caso, peça ajuda de seu Anjo e aceite o que ele lhe ensinar. Nem tudo precisamos entender, só pergunte o que é necessário.
       O GOSTO PELO PASSADO... VELHARIAS!

Bem... eu que já havia me dedicado a tantos estudos:  artesanato, fotografia, jornalismo, literatura, e alguns mais; resolvi voltar ao amor primeiro. Ao que eu tanto amo. Antes do tudo, antes do nada; arqueologia. Isso mesmo... depois dos quarenta, avó, a oportunidade apareceu. O sangue ferveu. O sonho de criança veio à tona, eu o pesquei.  
Gosto não se discute. Assim falam meus amigos: ‘Rita Elisa só gosta de velharia’. Meu prazer era garimpar velharias... era, não!... ainda é. Gosto do cheiro, da cor, do formato e principalmente de imaginá-las como eram usadas na época. Até fiz curso de decoração e de restauração de peças antigas no SENAC. Só para entender, um pouco, de antiguidades.
Sempre fui rata de sótão e de porão; traça de sebos; desbravadora de antiquários. Gastava o que tinha e o que não tinha (fazia dívidas) para adquirir um gramofone, uma máquina fotográfica de fole, discos de 78 rotações, tinteiros de cristal, canetas de pena, patacões, livros raros, chaves e cadeados de senzalas, panelas, ferros de passar roupa e tachos antigos. Mas, o meu sonho mesmo era escavar... e, é claro... encontrar algo, um fragmento que seja... um caco.
Arqueologia, aqui vou eu! Devorei as aulas teóricas. Aprendi tudo. O melhor ainda estava para vir... a escavação. Depois de várias aulas lá estava eu, calça comprida, tênis, camisa de manga comprida e chapéu, debaixo de um sol de 35 º, abaixada, cavando com uma enorme dose de paciência. A área delimitada era pequena. Eu raspava com uma pequena pá, até sair uma poeira de terra. Igualava a superfície. Depois de uns 5 cm juntava a terra raspada e a peneirava. Ali, só achei cacos de cerâmica e vidro, poucos significativos. Mas a cabeça viajava... filosofava...junto com meu Anjo:
...o pó é dispersivo, basta um sopro e voará grão por grão, para todos os lados. Da poeira estou tirando grãos maiores, cacos de cerâmica... cacos de vasos, telhas, panelas, cuias, tudo de barro. Barro... a água une os grãos, fez-se a argila. A argila para ser boa tem de ser socada, sovada, para retirar impurezas e dar liga. Ela por si só nada pode. O oleiro por si só, nada tem. Homem e argila; dose vital. As mãos firmes transmitem sentimentos puros e dá formas ao barro. Torneia, adorna com arabescos e dá o brilho. Deixa secar por um tempo e depois vitrifica; no pulsar da chama, no calor das horas. O que é bom ficou inteiro, usa-se. O que é ruim, trincou, partiu-se, joga-se fora... (dessa forma meu Anjo me ensinou a supremacia de uma identidade). 

Delimitei uma pequena área no quintal da casa, depois da casa do caseiro, perto do muro de pedras, e ali diariamente fiz escavações. Afinal ali ficou denominado Beco do Cisco porque era o lugar onde jogavam o lixo. Lugar apropriado para eu encontrar fragmentos.  Encontrei muitos cacos de cerâmica indígena, porcelana (azul borrão e pombinho), patacões, chaves, vidros de remédios, fivelas, pregos etc. Foram devidamente acondicionados e catalogados.








E eu ali... procurava os cacos... queria montar o quebra cabeça humano. Queria encontrar a minha identificação ao filosofar Hyginus, ao desvendar sua fábula-mito. Eu ali tendo todo ‘Cuidado’ com a T(t)erra... A bem da verdade eu queria mesmo é captar o eco do sopro divino... da grande explosão! Procurar um fóssil de 15 bilhões de anos. O momento da criação. Captando o equilíbrio das energias que atuam sinergicamente entre si, sem alterações. Descobrindo o meu ‘eu’ mais profundo. Isso sim é um achado arqueológico. E... eu o encontrei... ele estava dentro de mim.
Agradeci meu Anjo pelo ensinamento, o que eu procurava fora, enterrado no solo árido vilaboense, encontrei exposto na minha alma.
Gosto de relembrar o fragmento de um poema que Platão escreveu, há mais de 2400 anos: ‘Deus também gosta de brincar./ O universo que Ele criou /é seu divino brinquedo’.
DICA: Jamais desista de seus sonhos. Porém, para que eles se realizem, precisarão criar raízes em seu coração e se tornarão  peça chave em sua identidade.

       A LUZ NA CANDEIA DA ESPERANÇA!

No vasto mundo vilaboense, eu convivia com toda classe social e religiosa. Desde cachaceiros, mendigos, professores, literatos, donas de casa, pedreiros, jardineiros, atores, cantores, superintendente de mineradora, arqueólogas, padres, bispo e irmãs de caridade;  todos os dias por minha casa passavam amigos: taxista; pamonheiro; quituteira; mãe e seus dois filhos; afinal, receber os amigos era minha grande alegria.
Sempre incentivei meus amigos a ter uma oração diária com o seu Anjo da Guarda. Nosso grupo de oração se chamava Santo Padre Pio; usei da biografia desse santo franciscano para mostrar o quanto o Santo Anjo de cada um é importante para conseguirmos discernimento, sabedoria e guarda nesta vida. Pois, o Padre Pio, conversava com seu Anjo da Guarda.
Foi em uma tarde de oração, depois de definir as orações para o encontro do grupo, que meu Anjo me inspirou algo que eu, sozinha, jamais iria sonhar em fazer: ‘Escreva uma carta para os padres capuchinhos de onde morou e está sepultado Santo Padre Pio de Pietrelcina’. Procurei o endereço pela Internet, que era lenta e quase não me dava acesso à pesquisa; porém, consegui. Seria muita ousadia minha pensar que iriam responder minha carta, mas eu a escrevi e a enviei; pelo menos saberiam que existia na cidade de Goiás, um grupo de oração chamado Santo Padre Pio.
Dali alguns meses, recebi a resposta e, para minha alegria, alguns santinhos com orações de Santo Padre Pio, a Coroinha do Sagrado Coração de Jesus e uma relíquia em cada santinho. Distribuí os santinhos com os integrantes do grupo. Foi uma comoção geral, choros, beijos, orações, milagres aconteceram. Agradeci meu Anjo em me dar esse discernimento, jamais pensaria que pudesse isso um dia acontecer. 


Continuei a trocar correspondência com os frades de Pietrelcina durante alguns anos. Na alegria de orar por eles enquanto eles oravam pelo grupo.
Em certa época, na cidade de Goiás, eu me deparei com uma necessidade muito grande de entender a razão das pessoas julgarem os outros, mesmo à distância, sem saber a verdadeira realidade, sem perguntar e, principalmente... sem ser amiga. Minha harmonia interior era controlada pelo Kyrie Eleison, mas eu queria que todos tivessem essa mesma intensidade de oração, e que pudessem vibrar na mesma sintonia de amor.
Um dos maiores aprendizados que eu tive e guardo é que devemos estar alertas, pois o inimigo está sempre pronto a nos atacar, não podemos descuidar. Quando eu acordo mais tarde, ou não consigo orar de madrugada, meu dia fica difícil, como se eu estivesse desprotegida. Comentei com meu Anjo a esse respeito e pedi que ele me ajudasse a não ter dias ruins. Ele nada me respondeu e eu entendi 
que esse cuidado depende de mim. É o tal do livre-arbítrio.
Eu precisava compreender a vida, pois a cada dia sentia que as pessoas me julgavam com muita severidade, por não entender algumas atitudes minhas. Principalmente aquelas que meu Anjo me inspirava fazer e não tinha uma resposta lógica à capacidade humana. Por isso eu sofria muito e tinha receio de me fechar como uma ostra. Então, certo dia, falei para meu Anjo que eu desejava conversar com o Papa João Paulo II a esse respeito... falei rindo, de brincadeira é claro. Apenas um desabafo. Porém, foi com muita firmeza que meu Anjo me disse: ‘Então escreva para ele’. Eu ri, mas ele continuou sério.
Não pensei duas vezes, porque senão iria desistir, fui ao computador e escrevi uma grande carta ao papa, abrindo meu coração, contando para ele tudo o que me aconteceu e os meus sentimentos em relação à vida. Lacrei e enviei para o Vaticano. ‘Pronto meu Anjo, está feita a sua vontade, ou melhor, a minha vontade. Se o Papa João Paulo II não me responder não faz mal, vale eu saber que minha carta, durante algum tempo, ficará dentro do genuflexório, onde ele faz suas orações. Certamente me trará certo alívio na alma.’
Depois de alguns meses, recebi a resposta da minha carta enviada ao Papa João Paulo II, com bênção papal e algumas frases onde ele me aconselhava à forma de agir. 






O maior ensinamento, foi o de que eu devia deixar a luz da esperança viva em meu coração, entendi que, quanto mais eu fosse audaz, mais eu conseguiria; se eu temesse o que meu coração ansiava, a luz ia embora. A coragem vem de dentro.
Nem sempre estamos preparados para acreditarmos em nossas vontades, às vezes deixamos a luz esmaecer a ponto de ficarmos em plena noite escura na alma, sabendo que deixamos passar uma oportunidade de ser feliz, de fazer o bem, de realizar um sonho; por causa da covardia de nem mesmo tentar; e o pior é alimentarmos o discurso de que o motivo é o medo de sermos julgados. Nosso livre-arbítrio nos leva ao paraíso de bons momentos ou ao inferno da dúvida. Optei por sempre tentar, mesmo que seja pular no precipício. Afinal eu confio em meu Anjo da Guarda.
DICA: Seja ousado em suas atitudes, seja sempre para o bem; principalmente quando for para o seu bem. Pois você só poderá transmitir aos outros o que tem dentro de você. Se tiver paz, construirá paz. Entender as atitudes dos outros em relação às suas ações, nem sempre é fácil e, às vezes, nem queremos saber. Porém, tem certa etapa da vida em que você precisará de uma resposta. Pergunte ao seu Anjo e fique aberto para às respostas. Não se esqueça de pedir que ele o ajude a entender e a aceitar, sem transtornos para sua alma, sem que lhe tirar a paz.
        CIDADANIA VILABOENSE!

Em Goiás, eu vivi intensamente, fui fundadora e diretora cultural do grupo teatral FarriCora; participei do grupo de reativação do Apostolado da Oração; do grupo que idealizou e dirigiu o Cerco da Misericórdia; o grupo das Mil Aves Marias; do grupo de Oração Santo Padre Pio; da obra Cesta Cheia (primeira sexta-feira do mês arrecadar cestas básicas para famílias carentes através de jantar beneficente); do grupo de moradores que reerguiam a cidade através de eventos pela OVAT (Goiás um baú na ponta do Arco-Íris); grupo de estudos arqueológicos; participava de todas as festas sociorreligiosas, grupos de dirigentes nas Missas; do grupo que visitava e orava com os internos no asilo; levar o sacerdote para visitar os enfermos em suas casas; levar cestas básicas às famílias mais carentes; além das programações da mineradora e  serviços fotográficos.
Em setembro, fazendo o almoço, ao ouvir a rádio local, meu coração quase saiu pela boca, ao saber que dentre as poucas pessoas que estavam para receber o título de Cidadania Vilaboense, estava meu nome. Indicada pela vereadora Benedita, com apoio de Vinícius. Eu fui aprovada por unanimidade. Fiquei muito feliz, pois me sentia (e me sinto) uma verdadeira vilaboense; aprendi a gostar da cidade e, mais ainda, a amar os vilaboenses.
Logo depois que ouvi a notícia corri para a capela e me ajoelhei diante do oratório. Pedi a presença de meu Anjo da Guarda para, juntos, agradecermos a Deus, pela honraria que me foi concedida. Fiz uma linda oração de louvor. Fiquei em paz e chorei. 
Recebi o título com festa na sede da OAB, no dia 15 de setembro, com direito ao discurso de Hecival Alves. Amigos compareceram, o lugar ficou lotado. Eu me tornei conterrânea de Cora Coralina foi bom; porém, me tornar conterrânea de tantos vilaboenses, que me ensinaram o verdadeiro sentido da amizade... foi melhor ainda. Eu me senti tão feliz, que pensei que nunca mais ia embora da cidade de Goiás. 
                  Foto: a vereadora Benedita me entregou o Título de Cidadã Vilaboense.

DICA: Para ficar em paz, não queira saber demais seu futuro e nem despreze demais o passado; viva intensamente o presente e confie em seu Anjo da Guarda. Não se esqueça de que seu Anjo possui todas as lembranças de sua vida.

       OS SONHOS NÃO ENVELHECEM!

Todo sonho é uma realidade interior...e pode se tornar real!
Eu tenho muitos sonhos. Gosto de ficar olhando as estrelas. Às vezes, coloco o colchão no quintal e fico durante a madrugada olhando o céu. Sonhando acordada. Numa dessas noites fiquei deslumbrada com o céu de agosto. Maravilhoso!... todo estrelado. Desejei uma estrela para mim.
Na verdade, sempre desejei ser Saint-Exupéry, quando fez aquela aterrissagem forçada no deserto africano. Ele permaneceu a noite toda em uma duna virgem, um lençol imaculado estendido sob a pureza do céu. Ficou olhando, como ele disse: para um aquário de estrelas. E ao voltar seu olhar para a duna encontrou um pedaço de pedra negra. Já imaginaram?! Uma pedra sobre trezentos metros de espessura de conchas moídas. Nas profundezas subterrâneas do deserto sim, existem pedras, mas aquela estava ali em cima, na superfície. Um pedaço de pedra dura, negra, pesada como metal, do tamanho de um punho, em forma de lágrima. Só podia ser a poeira dos astros. Um aerólito; lava petrificada, um diamante negro. Em poucos minutos visualizou dezenas deles. Saint-Exupéry, deitado em pleno deserto, ficou imaginando como teria sido a lenta chuva de astros que há milhares de anos havia espalhado aqueles aerólitos.
E... eu fiquei me imaginando Saint-Exupéry. Fiquei deitada no quintal, sob o brilho dos astros; desejei uma estrela. Nesse desejo adormeci. Sonhei.
Na manhã seguinte, andando pelas ruas de Goiás, o calçamento de pedras me prendia a atenção. Meditei... Sempre que almejamos uma estrela, um sonho, temos que olhar para a terra, para o chão (pura filosofia balzaquiana); afinal, uma pedra pode ser uma estrela que caiu do céu. Com esse pensamento olhei para as pedras do beco, a surpresa veio em seguida... entre os vãos das pedras havia uma estrela dourada, abaixei-me para fazer a colheita. Estrela estilo filigrama de ouro, fosca dourada, uma joia. Com o coração pulsando forte apertei a pequena estrela em minha mão. Seria verdade? Que seria isso? A resposta de meus sonhos?! Sim... acredito em sonhos que se realizam. E... tenho certeza... os Anjos dizem amém.
Tenho esta estrela comigo. Toda vez que me perturbo um pouco, toda vez que sou mais realidade, toda vez que paro de sonhar, volto meu olhar para a estrela que está pendurada no oratório em minha sala. Ela me aponta para a realidade adormecida. Isso não existe? Existe sim! Todo sonho é uma realidade interior e pode se tornar real. Não há um tempo determinado para isso; afinal, os sonhos não envelhecem!
        Uma vez li que Deus não pode sonhar e nem desejar nada para si mesmo, pelo simples fato de ser perfeito e possuir tudo. Se por acaso Ele desejasse alguma coisa com certeza não seria Deus. Ele só pode sonhar e desejar para os outros. É por isso que estamos aqui; para sonhar por Ele. Devemos creditar nos sonhos, ter fé e ser feliz. Bem disse Clarice Lispector: O que alarga a vida das pessoas são os sonhos impossíveis. Impossíveis para a compreensão humana. Realizáveis na vontade divina. Essa é nossa parte mais linda. Concretizarmos nossos desejos, aceitarmos a felicidade. Você não sabe?... O sonho é uma profecia que sempre acontece.
Era um sonho antigo, da pré-adolescência, nem mesmo entendia a razão de alimentar em meu coração essa carência pela estrela caída do céu. Em todos esses anos jamais pedi formalmente ao meu Anjo a realização desse sonho. Porém, sempre alimentei no coração essa infinita vontade. E achei que o meu infinito, teve finitude na alegria de encontrar aquela estrela de filigrama, no Beco do Sócrates.  Naquele dia, entendi que realizei um lindo sonho e me desapeguei dele. Não restou lugar humano na vontade, pois todos os espaços foram preenchidos.[1]


 Foto: a estrela de filigrama fica na dobradiça do oratório na minha sala. 


DICA: Ao desejar algo muito bom, mas que lhe parece inacessível, elimine as dúvidas e pense sempre no possível. Ultrapasse o limite de seus pensamentos. Para isso, nem precisa imaginar o que virá, basta apenas limpar sua mente às dúvidas. Peça ajuda para seu Anjo.
       OS ANJOS NÃO ENVELHECEM!


Tempo de despedida, era nosso deadline, na cidade de Goiás. Naquele ano me tornei uma legítima cidadã vilaboense e, também, recebi os certificados de arqueologia. Senti na pele o árduo trabalho de escavação, o sol inclemente não me deixava trabalhar muito tempo, preferia o fim de tarde...  mesmo que meu sítio arqueológico fosse no quintal de casa. Apesar disso, intensifiquei meu trabalho, passei a escavar, pelo menos quatro horas por dia, com muito cuidado para não perder fragmentos. Registrei, fotografei, demarquei, ensaquei, cataloguei e guardei. Adquiri muito material, doei a maioria e guardei um pouco, o mínimo; tudo trancado em um baú.
Em cima desse baú, dependurada no oratório, a estrela que encontrei no Beco do Sócrates me apontava para a certeza de que minha procura chegara ao fim. Eu agora tinha minha estrela, a que eu sempre sonhei.
Em tempo de despedida, eu e meu marido resolvemos dar nosso adeus à maravilhosa Serra Dourada. Fomos bem cedinho. O chapadão nos recebeu com reflexos dourados pelo sol que nascia saudando o fim de mais uma etapa de nossas vidas. Subimos de carro até onde foi possível, depois seguimos a pé até o um enorme tanque represado de um rio que desce pela encosta leste do paredão.
Ali meu marido jogou linha, anzol e isca, e recolhia um lambari atrás do outro. Uma bênção de pescaria. Nosso almoço estava garantido. Resolvi andar pela trilha de água, no leito do rio. Era tempo de seca, o leito era largo, as águas eram poucas, cristalinas, deixavam à mostra milhares de pedras roliças, amarelas e brancas. Sempre tive fascinação por pedras e fiquei de olho para encontrar alguma diferente.
Andei muito tempo, horas mesmo, me distanciei demais de onde meu marido estava. De repente, como sempre me acontece... um pássaro começou a me seguir, pulando de galho em galho pelas árvores que margeavam o leito do riacho. Eu estava com as barras das calças dobradas até os joelhos, as botinas de couro firmes nos pés. Olhei o pássaro e pensei em São Francisco de Assis. Orei. Pensei no meu Anjo da Guarda. Em voz alta eu o chamei pelo nome.
Senti uma paz tão grande que o mundo pareceu parar. Abaixei o olhar e notei a alguns metros à minha frente, no meio do leito do rio, entre milhares de pedras brancas, uma pedra negra. Fui devagar até lá e encontrei um pedaço de pedra dura, negra, pesada como metal, do tamanho de um punho, em forma de lágrima. Só podia ser a minha poeira dos astros, o meu aerólito. Com o coração aos pulos, abaixei-me e peguei minha pedra. Em um misto de alegria e euforia, sentei-me no meio do rio e deixei-me ser encharcada pelas águas, uma lavagem de alma. Chorei e sorri. O pássaro continuava no galho mais perto. Eu agradeci a Deus e ao meu Anjo da Guarda. Eu tinha um sonho... e 35 anos depois o realizava. 


Era muita emoção. Lembrei-me de cada palavra de Saint-Exupéry, como em um passe de mágica levantei-me e comecei a olhar ao redor, ‘ali eu achei vários aerólitos numa distância de 300 metros cada de vários tamanhos. Peguei apenas três, deixei os outros para que sejam recolhidos pelos que têm o mesmo sonho. Agradeci ao meu Anjo por ter-me proporcionado ir além do que eu esperava.
Até hoje eu olho esses aerólitos e me vem a sensação de cuidado, que o Criador oferece para quem sonha. Eu não precisei falar para meu Anjo esse sonho tão especial, na verdade, ele me conhece por inteira, coração, pensamento e espírito; é ele meu mensageiro. Imagino que quando me desapeguei do sonho, encontrando a estrela de filigrama no Beco do Sócrates, abri espaço para que Deus interviesse na minha alma e ao sondá-la encontrou um jeito de ir além de minha percepção humana, me presenteou com os aerólitos, sendo que um deles é ‘exatamente’, como a descrição de Exupéry; é do tamanho de meu punho fechado. 
Ao encontrar esses aerólitos a frase de Santo Agostinho: ‘Pensando em pó, você é pó. Pensando no infinito, você é infinito’ comungou com meus sentimentos mais secretos.
 Um dos meus livros de cabeceira é: Me conta uma mentira (está até despedaçando de tanto ser manuseado) e marquei o ensinamento de Rômulo C. de Souza: ‘Verdadeiros mesmo são os sonhos que Deus está sonhando para nós. Nele tudo possui a dimensão do infinito.’ Realmente, Deus sonha através de nós, por ser perfeito Ele não pode sonhar, por isso nos criou... para desejar, sonhar e realizar através de nossos sonhos.[2]


DICA: Acredite nos sonhos que Deus tem guardado para você. Abra-se para que eles aconteçam. Diga ao seu Anjo que você está pronto para o infinito de Deus.
       AREIA FINA ESCORRENDO PELOS DEDOS!

Meu tempo na cidade de Goiás era areia fina escorrendo em uma antiga ampulheta. Era hora de voltar para São José dos Campos. Meu sítio arqueológico, no quintal de casa, perto da casa do caseiro, me trouxe muitas alegrias: várias moedas antigas, uma cabeça de boneca Carajá, vários fragmentos de vasos de cerâmica, potes de vidro, pedaços de louça azul pombinho e azul borrão, muitos ossos, isso mesmo... ossos.
Ossos tão gastos (amarelados, pequenos, porosos) que não dava para saber de quais animais eram. Afinal minha residência ficava no Beco do Cisco; nos primórdios da cidade, era nesse beco que jogavam o lixo e que, também, descartavam pequenos animais mortos (por isso, acredito que os ossos sejam de animais).
Na manhã em que meu marido e eu fomos para a cidade de Goiânia, fazer o exame demissional, deixamos o nosso jardineiro incumbido de enterrar aqueles restos de ossos entre as duas jabuticabeiras, perto da piscina; pois me pareceu o lugar ideal. Não ia deixar ossos jogados, mesmo que fossem de cachorros ou de outros bichos, temos de dar dignidade aos animais até mesmo na morte.
Quando retornamos de Goiânia, no fim do dia, o jardineiro estava sentado na mureta perto das jabuticabeiras. Ele levantou-se e me questionou o motivo de eu querer que os ossos fossem enterrados naquele local. Respondi que no dia anterior, ao colocar os ossos no saco plástico eu orei muito e pedi discernimento para meu Anjo me mostrar onde deveria enterrá-los. Daí me veio à imagem das jabuticabeiras.
Garcia foi logo tirando alguns objetos dos bolsos e explicando... ‘é que encontrei essas alças de caixão e pela distância delas, o caixão era de criança, provavelmente algum anjinho, só que não havia ossada’.
Ele se despediu e saiu.
Eu peguei as corroídas alças de caixão e as enterrei no lugar onde estavam.
Meu Anjo sabe a razão... eu não! E jamais quis saber. Aprendi a não questionar.
A placa Kyrie Eleison, eu a presenteei ao meu vizinho Sebastião, por ele ser uma pessoa tão boa que me deu alegrias divinas. Inclusive a composição de um novo Kyrie Eleison, que ele sempre apresenta durante Missas festivas na cidade de Goiás. 
Logo depois desse episódio, minha amiga Maria Ivalda, foi em casa se despedir e me perguntou qual era o lugar onde Wilson ia trabalhar. Eu olhei para a imagem de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, estilo barroco, com três anjinhos aos pés. Imagem que sempre ficava em cima de um baú na sala. Maria também olhou. Eu orei pedindo discernimento ao meu Anjo. Eu e Maria vimos os olhos dos anjos refletirem uma estranha luz. Na hora eu disse: ‘Wilson vai para a África trabalhar em uma mineradora’. Maria me disse: ‘Vai sim, tenho certeza!’ E, assim, em pouco tempo, Wilson foi trabalhar na África.

DICA: Quando chegar ao aprendizado de que nem tudo o que lhe acontece você precisará de uma resposta, estará perto de ser iluminado pelo sua própria luz, afinal, é Deus em você. Ele precisa que você abra passagem para que Ele brilhe mais, Ele nos deu o livre-arbítrio.  

[1] Fragmentos: Valeparaibano, 2007.
[2] Fragmentos: Valeparaibano, julho de 2008.


[1] Fragmentos: Valeparaibano, 2005.


[1] Fragmentos: arvoresdeseda.blogspot.com, 2010.
[2] Fragmentos: Valeparaibano, agosto de 2007.
[3] Fragmentos: Valeparaibano, setembro de 2007.
[4] Fragmentos : arvoresdeseda.blogspot.com, 2010



[1] Fragmentos: Valeparaibano, março de 2010.


    

                               OS ANJOS NÃO ENVELHECEM 


                                                                                                                                                                                                                 
                                                                   V PARTE
                                                                               SÃO JOSÉ DOS CAMPOS - SP
 


     VOCÊ É RESPONSÁVEL PELO ANJO QUE CATIVA!

      

      Eu havia lançado o livro Nhá Chica Mãe dos Pobres e precisava ir a Baependi pagar uma promessa e fazer um pedido a Nhá Chica. Eu e meu marido saímos bem cedinho de casa rumo ao sul de Minas Gerais. Foi uma viagem tranquila, eu fui orando em silêncio enquanto olhava as árvores e as curvas do caminho (que são muitas). Aprendi a orar enquanto viajo e uma das minhas orações preferidas é agradecer a Deus por tudo que vejo: o céu, as nuvens, a mata verde, as árvores, um carro que passa, uma pessoa à beira da estrada, uma cerca, o gado no pasto, as plantações, as placas indicativas etc, tudo é motivo para agradecimento.
     Lembro-me que naquela época estávamos passando por problemas com as lojas de roupas que eu tive sociedade com minha filha. Uma das questões para eu orar, pois as lojas eram em Caxambu e São Lourenço, pertinho de Baependi, só que eu continuava morando em São José dos Campos. Eu tinha muitas razões para estar apenas queixando da vida para Deus, mas meu Anjo me alertou para não me queixar e, sim, agradecer.
     A viagem foi tranquila, paramos em São Lourenço e Caxambu. Chegando a Baependi eu fui direto para ao Santuário Imaculada Conceição. Meu relógio marcava 3h da tarde, ajoelhei-me diante do Santíssimo (capela atrás da urna funerária onde está uma réplica da imagem Nhá Chica e também estão os restos mortais dela) e orei agradecendo pelo dom da vida, pela viagem, pelas dificuldades financeiras, pelo dom da escrita, pela família e... de repente meu Anjo me disse: “Compra uma medalha da bem aventurada Nhá Chica traga aqui e ore com ela nas mãos”. Eu me levantei, fui até a loja, comprei a medalha e a levei diante do Santíssimo, orei. O Anjo me instruiu: “Passe a medalha na urna da bem aventurada e guarde-a com você”. Fui até a urna e passei a medalha na urna, guardei-a na bolsa e ajoelhei-me para orar mais um pouco. Pensei: “Quem precisar de uma medalha de Nhá Chica vai entrar em contato comigo, terá de ser uma pessoa especial”.  Depois fui para o primeiro banco da primeira fila, onde meu marido estava sentado, me esperando. Agradecemos juntos e saímos da igreja. 
  Eu falei ao meu marido: “Sei que tenho muitas medalhas da beata Nhá Chica em casa, eu não precisava comprar mais esta; mas foi mais forte do que eu, foi um pedido de meu Anjo.” Meu marido nem questionou, apenas sorriu. 
    No fim da tarde resolvemos visitar nossa filha, genro e neta que moram na cidade de Pouso Alegre e, para isso, voltamos por outro caminho, pela rodovia Fernão Dias. Dentro da bolsa meu celular estava ligado e eu não tinha crédito para ligar e nem para receber ligações, muito menos para ter acesso à internet (sem contar que era região de difícil acesso à essa tecnologia). Porém ouvi um som familiar, era a informação de que chegou uma mensagem pelo Messenger/Facebook. Abri a bolsa, peguei o celular e li a mensagem: “Amo Nhá Chica. Você tem uma medalha para mim?” Era de uma mulher que eu não conhecia, entrou no Messenger àquela hora, 22h15, para me falar que precisava de uma medalha da Nhá Chica com urgência. Eu pedi para meu marido parar no posto de gasolina, já perto de Pouso Alegre e respondi à mensagem dizendo que eu tinha a medalha para enviar para ela, disse o quanto estava emocionada, contei para ela o que havia acontecido. Ela me disse: “Estou emocionada, sabe por quê? Porque estou pedindo  a intercessão de Nhá Chica pela minha saúde e, hoje, me deu uma vontade de pedir a você a medalha dela.” Eu pedi para ela o endereço postal para eu mandar a medalha. Ela me disse que depois enviaria o endereço pois estava chorando muito por causa da emoção. Ao conversar com Maris Stella ela me disse que ela resolveu que ia me pedir uma medalha quando estava em oração, às 3h da tarde. Então, à noite, me enviou aquela mensagem.
    Aquele dia 2 de julho de 2013 marcou com chave de ouro a amizade sincera entre Maris Stella e eu, pois acredito que nossos Anjos já eram amigos há algum tempo e nos prepararam essa bondade. Maris Stella mora na cidade de São Paulo e nos tornamos grandes amigas. Ela lutou bravamente contra uma doença que ceifa a maioria das pessoas que a adquire, ela foi gigante na fé e venceu a batalha, hoje está saudável e feliz. Ao longo desses anos temos nos encontrado, ela veio a São José duas vezes para conversarmos e foi em lançamentos de livros meus em São Paulo.
    Uma das grandes revelações dela foi que um dia orando de madrugada, às 3h, o Terço da Misericórdia e pedindo intercessão de Nhá Chica, teve a visão da santinha de Baependi de joelhos, descalça, diante da imagem da Imaculada Conceição ( a mesma que Nhá Chica tinha em sua casa) que emanava muita luz que chegava até Nhá Chica. Na verdade essa cena é igual a um esboço que fiz para a capa do livro Nhá Chica Mãe dos Pobres, porém não foi aproveitada.
     Nós duas nos tratamos como personagens do Pequeno Príncipe, somos duas raposinhas cativadas pela amizade de nossos Anjos. Aliás, continuamos nos falando através de nossos Anjos e formando uma corrente de energia pura, espiritual, onde a harmonia dos pensamentos nos torna um elo na corrente do bem.
       Há poucos dias, no lançamento do livro "O Sonho tem asas - o visionário Carlos Gonçalves" em um restaurante em São Paulo, Maris Stella foi ao evento e me presenteou com um lindo colar onde está um camafeu com a imagem do Pequeno Príncipe e a raposinha decora o cordão. 


 




DICA: Agradeça a Deus pelo Anjo da Guarda que Ele destinou a você. Isso ajudará você a ter um laço espiritual com seu Anjo.

        DELICADEZAS DE UM ANJO!

   Logo depois do almoço, ao ler a matéria no jornal, eu disse para meu marido: “hoje minha vontade maior é de estar em Aparecida e assistir ao show de Andrea Bocelli.” Meu marido não pensou duas vezes, me olhou nos olhos e disse: “Então vamos!”

     Eu corri para o quarto, troquei de roupa, peguei minha bolsa e ao passar pelo meu lugar de oração pedi ao meu Anjo para agradecer a Deus por eu e meu marido irmos escutar e ver Bocelli cantar. Uma realização para nós. Desde 1996 nos tornamos fãs dele e ouvimos suas canções através de CDs. Sempre me imaginei em Roma assistindo um show ao ar livre desse magnífico tenor italiano. Wilson até que dirigiu devagar, não precisava ter pressa pois o show iria começar dali a três horas. 





 Ao chegarmos conseguimos estacionar o carro na Basílica. O tempo estava nublado e as nuvens de vez em quando deixavam aparecer o céu azul. Escolhi um lugar bem distante do palco, na escadaria lateral de acesso ao shopping. Meu marido contestou que ali era longe demais e eu não conseguiria ver Andrea Bocelli direito. Eu falei que não tinha importância pois havia dois enormes telões do lado do palco onde a imagem do tenor seria exibida em tempo real.
      Mesmo assim meu marido me pediu para irmos um pouco mais para a frente. Era muita gente chegando, as nuvens fecharam as frestas azuis do céu e a chuva começou a cair, primeiro de mansinho, depois com mais força. As pessoas munidas de guarda-chuvas pediam passagem e iam para uma grande área. Na frente dessa grande área existia outra, separada por tapumes, onde existiam três alas de cadeiras enfileiradas em uma área menor, porém era bem em frente ao palco, reservada aos convidados e pessoas ilustres.
      As pessoas que iam até a grande área tinham de deixar seus guarda-chuvas em vasilhas estrategicamente colocadas ao lado dos portões de entrada onde estavam os seguranças, embaixo de uma tenda branca.
     Eu e Wilson precisávamos nos abrigar da chuva, optamos por comprar chapéu, já que se usássemos guarda chuva iríamos deixa-lo na área de segurança.
      Andamos mais um pouco e chegamos até uma área destinada aos idosos. Meu marido apresentou sua CNH e nos foi colocado uma pulseira de identificação para acessarmos a área restrita aos idosos, onde havia algumas cadeiras, porém essas cadeiras eram perto de um tapume que não nos deixavam ver o palco, a próxima ala era a reservada aos convidados.
     Eu me sentei na cadeira e dali eu não via nem mesmo os telões. Meu marido sentou-se também em uma cadeira à minha frente. Ele é bem mais alto do que eu e conseguia ver os telões. Eu não estava me queixando da situação, porém uma mulher ao meu lado chamou o segurança e perguntou para ele se os idosos poderiam entrar naquela área restrita. O segurança disse que não, eu perguntei para ele porque razão não podíamos sentarmos na área VIP se não tinha quase ninguém naquela área. Ele me disse que essas eram as ordens. Nisso eu vi um padre que era um dos diretores da editora onde tenho vários livros publicados, eu o chamei pelo nome, ele veio e antes mesmo deu falar algo ele foi me dizendo que não podia abrir exceções e eu não poderia entrar naquela área onde só as pessoas importantes podem ficar. Meu marido escutou e ficou muito chateado, foi sentar-se longe, para eu não perceber a tristeza dele. É claro que eu percebi; então eu orei ao meu Anjo, disse a ele que eu queria que aquele momento fosse de alegria, eu estava alegre, mas meu marido ficou triste. Pedi para meu Anjo agradecer a Deus por tudo. Eu ia conversar com meu marido.
     Levantei-me e deixei minha bolsa na cadeira, fui até a coluna de tijolos onde meu marido  estava sentado e me sentei ao lado dele. Passei as mãos pelo cabelo dele e disse-lhe: “Não fica triste, não! Daqui podemos ouvir a voz dele e dá para eu ver parte dos telões, você escolheu um bom lugar.” Ele me sorriu e eu o abracei. Nesse exato momento, uma mulher apareceu na parte de dentro da área VIP e nos disse: “Vocês dois aí, podem vir para cá, podem sentar em qualquer lugar que quiserem”. Eu olhei para o Wilson e não entendia o que acontecia. Consegui perguntar se eu podia pegar a minha bolsa na cadeira, a mulher disse que sim. Eu fui até a cadeira, peguei minha bolsa e voltei como se o mundo estivesse em câmara lenta. Meu marido já me esperava no portãozinho que dava acesso à pequena área de convidados.  Andamos até as cadeiras e escolhemos um lugar bem à frente. Olhei para trás e não mais vi a mulher que abriu o portão para nós.
      Ao me sentar veio um homem e me deu uma revista, creio que só os convidados poderiam ganhar essa revista ou comprar, sei lá... só sei que a revista é linda, exclusiva para o evento. 

    Assistimos o show como se diz... “de camarote” e eu agradeci meu Anjo pela ternura com que ele cuida de questões tão simples, ou devo dizer, tão “bobas”, porque era apenas um desejo nosso ver Andrea Bocelli de perto. Eu chorei muito quando ele cantou Ave Maria, aproveitei para deixar que toda alegria fluísse em gotas salgadas de amor pelo Deus querido que me deu um Anjo tão atencioso. Aquele dia 15 de outubro de 2016 ficou marcado em nossas vidas. 


DICA: Não espere muito, deixe-se surpreender pelo poder da oração para o Anjo. Não crie barreiras para a ação do mensageiro de Deus.




      ENSINAMENTO ANGELICAL!
                          
    Naquele dia meu desejo era ir até a Rosa Mística em Jambeiro, orar diante do Sacrário. Não pensei duas vezes, dei partida no carro e em alguns minutos dirigia pela rodovia Tamoios. Toda vez que vou para Rosa Mística eu coloco o carro perto da capela Nossa Senhora da Saúde. Estacionei e olhei em volta, tudo deserto. Antes de descer a rampa de acesso até a igreja onde está o Sacrário meu Anjo me alertou: “Entra na capela...” Eu olhei a capela, como sempre a porta aberta, entrei bem devagar olhando fixo na enorme imagem de Nossa Senhora, belíssima. Ajoelhei-me e orei. Ao me virar, do lado eu vi duas caixas e uma grande imagem de Nossa Senhora da Rosa Mística. Levantei-me e fui olhar, dentro das caixas existiam várias imagens de santos: Santa Rita, Jesus Misericordioso, Nossa Senhora Aparecida, São Sebastião, Crucifixos etc. Percebi que todas eram usadas, algumas bem desgastadas. Fui até a casa do caseiro e perguntei se eu podia ficar com aquelas imagens.
     O caseiro foi comigo até a capela, disse-me que eu podia ficar com todas as imagens das duas caixas, mas a grande imagem de Nossa Senhora da Rosa Mística deveria ficar para a igreja. Coloquei as imagens no carro e fui ao sacrário orar. Pedi ao meu Anjo agradecer a Deus pelas imagens que ganhei e por elas estarem ali, poderia ser de outra forma, a pessoa dona das imagens poderia quebra-las ao invés de as colocar na capela.
    Ao chegar em casa eu presenteei amigos e parentes com as imagens e fiquei apenas com as imagens de Jesus Misericordioso e a de Nossa Senhora Aparecida. 
A imagem de Nossa Senhora Aparecida eu pintei de branco. Ficou bem diferente, me lembrou a imagem de Santa Rita de Cássia que minha mãe pintou de branco em uma texturização diferente. Resolvi fazer uma decoupage com guardanapos de papel, uma técnica que eu usei bastante para fazer quadrinhos quando eu morava na cidade de Goiás. Eu escolhi uma estampa de flores azuis, para fazer uma alegoria ao manto de Nossa Senhora.
     Foi difícil aplicar aquelas flores, eu as recortei, as separei das folhas impressas com furos e deixei apenas a parte fina da estampa. Demorou alguns dias. Depois eu apliquei um verniz em spray. O trabalho todo eu fiz orando e pedindo para que essa imagem fosse para quem precisasse dela. Sabia que não ia ficar comigo, era meu desejo dá-la a uma pessoa especial.
     Assim que eu terminei de passar o verniz o meu celular fez um barulho e fui olhar a mensagem. Era da Suélen, aluna minha da oficina O Poder das Palavras. Ela me disse: “Sábado vamos comemorar meu aniversário, quero muito que você e Wilson venham”. Suélen havia se tornado uma amiga. Eu sabia que ela era católica. Resolvi naquele instante que aquela imagem de Nossa Senhora seria o presente dela.
    No sábado, ao olhar a imagem eu orei pela aniversariante e disse ao meu Anjo para levar até a Santíssima Trindade e Nossa Senhora minhas preces. Peguei a imagem e me questionei se a Suélen iria ou não gostar do trabalho de decoupage que fiz. Falei para meu Anjo: “Espero que ela goste de flores azuis”.
    Eu e Wilson fomos para a festa de aniversário, em Jacareí, levamos um cacho de banana que trouxemos do sítio e a imagem de Nossa Senhora. Ao chegar no condomínio, deixamos nosso carro na rua e levei Nossa Senhora nas mãos, como se estivesse em uma procissão. Logo Suélen veio em nosso encontro. Vê-la me encheu de emoção, o vestido dela era branco e tinha estampas de flores azuis, quase que iguaizinhas as que eu coloquei no manto de Nossa Senhora. Eu ri e perguntei se ela tinha cortado um pedaço do manto para fazer aquele vestido. Dali por diante eu soube que uma grande amizade nascia abençoada pelos nossos Anjos. 


      Com muito carinho e atenção a amizade entre Suélen e eu cresceu, assim como de todos os integrantes do grupo que fez oficina literária comigo e formamos o Litheratrupe. Dois anos se passaram quando então era dia de aniversário de Suélen novamente, dia 14 de fevereiro, dia do nascimento de Franz de Castro Holzwarth. Coincidência?...não!...providência divina. Suélen mora em Jacareí, mesma cidade onde Franz morou e trabalhou; ela me ajudou na pesquisa e resgatamos ótimos episódios para compor o livro biográfico de Franz. Algumas passagens dessa história têm na parte IV deste livro. Outras eu contarei mais tarde, hoje falarei a respeito do dia de aniversário da Suélen e ela me convidou para almoçarmos juntas. Aceitei o convite.
    Antes de sair de casa orei para meu Anjo cumprimentar o Anjo da Suélen e para ele fazer algo especial de presente para ela. Depois fui para a cidade mais cedo, pois precisava comprar um presente para Suélen. Andando pela Rua XV de Novembro ao passar por uma loja de material para artesanato tive vontade de entrar. Olhei todos os itens da loja e me chamou a atenção um pote de porcelana. Peguei o pote, branco, com uma tampa também de porcelana; era muito bonito, mas tinha um probleminha, em uma pequena parte da boca do pote havia uma pequena rachadura. Meu instinto foi devolver o pote à prateleira e pegar outro perfeito. Nisso, veio meu Anjo dizendo: “Leva esse pote, é esse mesmo que você deve dar de presente para ela.” Eu não podia acreditar, ou melhor, não queria acreditar naquela sugestão. Mesmo assim, peguei o pote, passei pelo caixa e fui embora com o pote dentro de um saquinho comum. Minha mente deu um jeito de contornar o problema: “A Suélen não vai querer um pote de porcelana, ainda mais rachado, então vou comprar outro presente”. Fui a uma loja de bijuterias, ela gosta de “balagandãs” tanto que na infância ela tinha o mesmo apelido que eu tive quando jovem “árvore de Natal”. Comprei uma máscara, tipo vienense para ela usar no Carnaval que se aproximava. Ao passar pelo caixa pedi para colocar em um saquinho de presente bem bonito. Pronto, eu tinha feito a coisa certa.
     Marcamos de nos encontrar diante do túmulo do Franz de Castro, na Matriz de São José. Lugar onde sempre vamos juntas orar e pedir a intercessão do Servo de Deus para nossas vidas. Assistimos a missa e depois fomos almoçar no shopping Faro. Durante o almoço eu entreguei o presente para ela. Gostou, agradeceu e depois me disse: “Depois do almoço vamos comigo às lojas que preciso de um pote de porcelana, quero muito que seja branco...”. Eu quase desmaiei, minha sensação era de que meu Anjo ria de mim. Respirei fundo. Olhe para ela e disse: “Então espera um pouco, vou até o carro pegar um presente seu que lá deixei, não saia daí, eu já volto.”
     Fui até a garagem subterrânea no shopping onde estava o carro. No caminho eu falei ao meu Anjo: “Desculpa-me por não querer entregar aquele pote, mas ele está rachado. Ela vai perceber...” A resposta veio imediata: “Diga a ela que essa rachadura é uma metáfora dos dias difíceis, que para o que ela quer, esse pote deve constar o agradecimento pelas rachaduras diárias também.” Eu nem questionei, peguei o pote no banco do passageiro e voltei.
     Suélen como sempre sorria para mim. Sentei-me e expliquei ao entregar o pote: “Eu não queria entregar esse pote para você, mas meu Anjo me disse que tem de ser esse. Veja na parte de cima, na boca do pote, há uma pequena rachadura. Meu Anjo disse que é para você agradecer as coisas difíceis, também.” Ela abriu o saquinho de plástico... Expliquei: “Não está embrulhado corretamente porque eu não tinha intenção de lhe entregar esse presente”. 
     Ao ver o pote branco, exclamou: “Era esse mesmo que eu procurava”. Tirou a tampa e viu a pequena rachadura na boca do pote. “Rita, você me deu o presente que eu sonhava comprar, hoje de manhã em oração eu pedi ao meu Anjo para me ajudar a encontrar um pote branco, de porcelana, para fazer dele meu Pote da Gratidão. Será onde eu colocarei meus agradecimentos a Deus pelos acontecimentos do dia. Agora entendo a razão dessa rachadura... é para eu agradecer também pelo que foi dolorido, o que me trouxe tristeza, o que rachou o meu dia”.

    Levantei-me e dei um grande abraço na aniversariante. Ela levou o pote para a casa e todos os dias coloca nele seus agradecimentos. Nossa amizade é abençoada pelos nossos Anjos e ela quis saber mais a respeito de como ter uma intimidade maior com o Anjo dela. Passamos a conversar muito sobre isso e ela me pediu para ajuda-la nessa meta. Eu ajudei conversando e mais que isso, orando.
      Minha aproximação com a Suélen marcou uma base de amizade religiosa. Ela esteve presente no lançamento do meu livro dos Anjos; aliás, ela fez participação especial em uma surpresa que meu marido fez nesse evento. Após ler o livro, Suélen quis saber um pouco mais a respeito de como atingir um grau de intimidade com o Anjo. Ela sempre me questionava e eu respondia de acordo com que meu Anjo orientava.

     Um ano se passou e no dia 14 de janeiro de 2017 Suélen precisava de conversar mais a respeito dos Anjos. Ela me telefonou, queria marcar um encontro para conversarmos, disse que ela iria até minha residência. Eu respondi que poderíamos nos encontrar no shopping Vale Sul para essa conversa, em um Café onde eu sempre marco encontro com Karina Muller e outras amigas.
      Antes de sair eu orei para o meu Anjo e o Anjo de Suélen conversarem e que eu pudesse conseguir passar para ela um pouco do meu aprendizado. Tenho certa dificuldade em fazer isso, só escrevi o livro e fiz o blog porque meu Anjo me instruiu, disse que as pessoas precisam acreditar mais nos seus Anjos e orar mais. Não é fácil ficar expondo tudo que já aconteceu comigo, alguns podem me chamar de louca, outros de infantil, muitos pensam que não tenho problemas porque confio no Anjo, alguns me criticam abertamente e riem quando é abordado o assunto; não vou dizer que não me chateio com os comentários maldosos, é como no Mito da Caverna de Platão. Por tudo isso eu me preparei para conversar com Suélen a respeito dos Anjos. Orei no quarto, ajoelhada, contrita nos meu desejo de ser fiel a Deus.
     Cheguei no shopping antes do horário previsto, tive tempo de ir à livraria e escolhi um livro para minha leitura diária. Ainda fiquei um bom tempo na livraria, quando Suélen chegou meu Anjo me alertou e eu saí da livraria e a encontrei na porta de acesso ao shopping, nos abraçamos e fomos para o Café. Escolhemos uma mesa e sentamos em cadeiras confortáveis, havia vários lugares disponíveis, mas eu sempre gosto de sentar ali, naquela mesma cadeira, um dia contarei essas minhas manias. Pedimos o café e pão de queijo. Começamos a falar a respeito da vida e chegamos à conversa séria dos Anjos. Conversamos por mais ou menos uma hora... ou mais. Expliquei que somente vivenciando a cada dia o contato espiritual com o Anjo é que Suélen poderia entender o que eu escrevi no livro dos Anjos. Suélen estava com uma sandália nova que a estava machucando o calcanhar, pegou curativos na bolsa e os colocou nos dois pés. Eu percebi que um homem estava o tempo inteiro nos desenhando em um bloco de papel. Avisei Suélen e disse que eu ia até o caixa e voltar pelo outro lado só para ver o que ele desenhava. Fiz isso e voltei dizendo que ele desenhou nós duas conversando. É claro que o cartunista notou que eu falava dele, fingiu falar ao celular.
    Era hora de sair dali. Convidei Suélen para irmos até o andar superior que de certa forma era uma área nova, pois eu não a conhecia ainda. Subimos pela escada rolante e em alguns minutos conhecemos todo local. Paramos em uma casa de doces e comemos brigadeiro de colher, deixamos nossos recados em um painel de vidro e saímos devagar. Ao passar pela entrada do corredor que dá acesso à Polícia Federal, meu Anjo me informou: “Olhe para o chão”, olhei e peguei uma carteira de identidade de uma adolescente chamada Geovanna. No mesmo instante eu disse: “Precisamos encontra-la, ela deve estar no shopping”.  Primeiro perguntamos nas lojas desse andar, depois fui até a segurança e pedi que anunciassem pela sistema de alerta para todo o shopping, disseram que não poderiam fazer isso e que ficariam com a certidão para tentar encontrar a pessoa destinada. Eu atendi meu Anjo e falei que não ia deixar a cargo do shopping, nós mesmo íamos procurar pela Geovanna. Então, eu e Suélen descemos a escada perguntando para cada pessoa que encontrávamos se tinham visto aquela garota da foto. Ao chegarmos ao piso térreo fiquei alarmada, havia pelos menos milhares de pessoas no shopping. Minha primeira reação foi desistir, eu disse para Suélen: “Vamos embora, vou levar para casa e colocar na rede social, assim a encontraremos”. Nessa hora Suélen ficou quieta, creio que em oração, ela me disse, vamos voltar ao Café onde conversamos a respeito dos Anjos.
   Sem duvidar da intuição da Suélen eu a acompanhei até o Café. Ao chegarmos, de longe avistamos todas as cadeiras ocupadas, o homem dos desenhos não estava mais lá. Ao olharmos para a mesa e cadeiras onde tomamos café vimos a Geovanna. O coração de Suélen e o meu bateram mais forte, uma olhou para a outra e sorrimos. Fomos até lá e paramos em frente à mesa onde uma família estava tomando café. Eu olhei para a jovem que tinha fones no ouvido e olhava para seu smartphone distraidamente e disse: “Geovanna, você perdeu sua carteira de identidade?!” Ela me olhou e tirou os fones de ouvido, a mãe dela me olhou assustada, o irmão curioso e o pai foi logo dizendo: “Não perdemos, não.” Eu mostrei a carteira e disse: “Creio que é sua Geovanna, estava caída perto do corredor de entrada da Polícia Federal, área de Passaporte.” O pai pegou o documento de minhas mãos e olhou atentamente, aliás todos olhavam atentamente. Suélen estava quieta, os olhos brilhando de alegria.  O pai da jovem disse ao abrir uma pasta em suas mãos: “Eu tinha certeza que havia colocado esse documento aqui, saímos há pouco da Polícia Federal, fomos pegar nossos passaportes. Íamos ter um grande trabalho para reaver esse documento, acho que precisaríamos até de tirar um novo. Como eu posso agradecer vocês?”
    Olhei para Suélen, ela vibrava de tanta emoção. Eu disse ao pai da Geovanna: “Podem nos dar um abraço de agradecimento e fazer uma oração de agradecimento ao Anjo da Guarda da Geovanna. Foi ele quem nos mostrou o caminho para acharmos vocês. Para vocês terem uma ideia eu estava há algumas horas sentada aí, nessa mesma cadeira onde está Geovanna.” Recebemos abraços e saímos dali contentes.
     A perspicácia de Suélen é grande, ela entendeu que o Anjo dela e o meu nos fizeram passar por essa situação onde poderíamos ou não atender a intuição do Anjo. Eu até tentei mudar o rumo da história para ver se Suélen tomava a rédea da situação. Ela decidiu atender o que lhe veio à mente, é assim que o Anjo conversa conosco. Mas, para isso não podemos ter barreiras, não podemos duvidar. Ela não duvidou. Meu coração sorriu ao ver o aprendizado de minha amiga dos Anjos.
    Durante o tempo em que ficamos com o documento vimos a data de nascimento de Geovanna e o que eu sempre faço, impulsivamente, é somar os números e ver qual o número dominante. Os números da Geovanna eram sempre 4, data de nascimento, ano etc. Isso nos marcou e falamos a respeito. Resolvemos ir embora do shopping, precisávamos de um tempo para decantar as ideias. Fomos juntas até a ilha de pagamento de ticket estacionamento. Cada uma de nós ficou em um caixa. A atendente da Suélen perguntou para ela: “Você consegue sair rapidamente?” Suélen olhou para ela assustada e disse: “Sim, meu carro está perto da saída. Por quê?” A mulher explicou: “Porque você tem apenas 4 minutos. Depois começará a contar nova hora”. Eu agilmente perguntei a mulher que me atendia: “Quanto tempo eu tenho para vencer a hora do ticket?” Ela me disse: “44 minutos.” Saímos juntas do shopping, uma olhando para a outra sem precisar de palavras. Suélen correu até o carro para dar tempo e a vi de longe, ao passar pela cancela de saída.
     Eu fui bem devagar para o carro, afinal tinha muito tempo disponível. Fiquei intrigada com os números 4 e 44. Perguntei ao meu Anjo a resposta desse enigma. Ele ficou quieto. Nada disse. Só fiquei ciente dessa resposta alguns meses depois, em maio. Mas essa é outra história que contarei mais tarde. 
DICA: Meu Anjo sempre me alerta que existe uma linha tênue entre "coincidência" e "providência" e que as duas traçam destino.

      

NOSSA SENHORA DE PEDRA E A PEDRA FURADA - 2014

      Quando eu morava no sítio Nhá Chica das Cigarras, ao andar pela mata, encontrei algumas pedras que se desprenderam de uma pedreira um pouco acima de onde eu estava. Ao pegar uma delas, mesmo que coberta de limbo e musgos, vi nela a imagem de Nossa Senhora, então a levei para casa. Deixei lá uma pequena pedra, ovalada e furada que estava do lado dessa pedra maior. Ao chegar a minha casa eu lavei o limbo da pedra e descobri que ela era uma resposta de meu Anjo para meus anseios, minhas questões a respeito dos corações endurecidos. Coloquei a pedra em lugar de destaque, no jardim do sitio.





     Como sempre, minha catarse é através da literatura. Escrevi o acontecimento. Esta crônica foi publicada no mesmo mês, isso foi há cinco anos.
         Eis a crônica:
       "Morar no sítio Nhá Chica é questão de amor à natureza e em tudo eu vejo bênçãos divinas. Em cada canto existe um agradecimento a Deus, uma ermida, uma bandeira, uma capelinha, uma gruta, um nicho, um cruzeiro, uma fonte... em todos existe uma imagem de algum de meus santos prediletos: alguns eu comprei, outros ganhei de amigos.
       Mas eu queria uma que fosse inerente ao lugar. Pensei em fazer uma imagem de cerâmica queimada (como eu fazia em Goiás), com argila local, porém o barro lá do sítio não me proporcionou essa arte. Até que, certo dia, andando pela mata fechada, ao chegar perto do rio, encontrei uma pedra com o formato de Nossa Senhora segurando o Menino Jesus. Sei que foi uma atenção especial de meu anjo.
        Eu a levei para casa e fiquei pensando que Nossa Senhora era aquela... o que Ela me ensinava? Eu estou sempre em oração e, no sítio, continuo com a mesma rotina, rezar de manhã, à tarde, à noite e de madrugada. Me faz muito bem. Se saio para caminhar levo meu terço junto, se estou deitada na rede estou em oração, além de ouvir canções religiosas pelo menos durante duas horas por dia.
       Olhei para a imagem de Nossa Senhora de Pedra e me veio o ensinamento de que a vida toda terei algo a pedir, pela família, pelos amigos, pelos conhecidos, pelos desconhecidos e por mim... uma Lei Natural. Cada dificuldade é uma pedra que parece dura demais para deixar a graça acontecer, há corações de pedra, existem ocasiões de pedra... as dificuldades. Para que essa pedra dê vazão para a Luz de Deus, para o Amor é preciso que exista um furo, um rompimento. A oração é como Água limpa que tanto bate na rocha firme que a consegue furar. A dureza de um coração só pode ser abrandada com o Amor de Deus, mas para isso é preciso que exista um buraco, uma porta para esse Amor entrar. O Evangelho nos diz "a porta é estreita demais para Eu passar". Deus respeita o Ser Humano ao ponto de nos dar o livre arbítrio, por isso, para os que não sabem deixar Deus agir em sua vida e para nós que precisamos de ajuda, é preciso a força da oração, da intercessão de outros para os que não sabem nem orar e para a nossa que oramos e oramos... sabemos que passaremos a vida em oração. Como água batendo na pedra.
       Foi com esse discernimento que voltei onde encontrei a Nossa Senhora da Pedra e trouxe uma pequena pedra que eu havia deixado no local... uma pedra furada pelo poder da água. Agora, elas ficam em lugar de destaque em meu jardim. Assim, continuo firme na oração!" 

        Atualmente não tenho mais o sítio, mas essa imagem de Nossa Senhora e a pedra furada estão no jardim do quintal de casa. Através do ensinamento recebido minha paciência aumentou, minha fé duplicou, minha religiosidade potencializou em google. 



      DICA: Faça caminhada contemplativa em lugares onde a natureza tem maior domínio. Caminhe devagar e louve a Deus por tudo que você encontrar. Peça ao seu Anjo que lhe mostre os menores detalhes, coisas que normalmente sua percepção não encontraria. Não se preocupe em procurar, seu Anjo será seu guia. Fica atento a menor sugestão que aparecer em sua mente. Respire o Kyrie Eleison para se conectar.